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Covid-19: 64% dos recuperados têm sintomas persistentes, diz estudo

Dados da pesquisa feita pelo FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) da USP são preliminares  - burakkarademir/iStock
Dados da pesquisa feita pelo FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) da USP são preliminares Imagem: burakkarademir/iStock

Júlio Bernardes

Do Jornal da USP

27/01/2021 09h58

Resultados preliminares de uma pesquisa com pacientes recuperados de covid-19, acompanhados pela FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) da USP, revelam que 64% têm algum sintoma persistente seis meses depois do início dos sintomas. Entre os pacientes atendidos pelo ambulatório pós-covid (MINC) do Hospital das Clínicas da FMRP, os principais sintomas persistentes são fadiga, falta de ar, dor de cabeça, perda de força muscular, dificuldade para enxergar ou incômodo nos olhos. Os dados são coletados pelo projeto Recovida, que acompanha, desde maio de 2020, sobreviventes da covid-19 para observar as repercussões da doença.

"O Recovida é um projeto que foi pensado logo no início da pandemia no Brasil. Começamos a pesquisar e organizar o estudo em abril do ano passado, no final desse mesmo mês ele foi aceito pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e em maio começamos a coletar os dados", conta a fisioterapeuta Lívia Pimenta Bonifácio, que desenvolveu o projeto em seu pós-doutorado na FMRP.

"O objetivo é acompanhar pacientes sobreviventes da covid-19 na sua apresentação leve e na forma grave da doença e observar sua sobrevida, bem como a ocorrência de possíveis repercussões físicas, psicológicas ou sociais relacionadas à infecção ou ao seu tratamento."

"Até o momento temos uma amostra de 177 pacientes acompanhados pelo Recovida entre casos com apresentação leve, moderada e grave da covid-19", afirma Lívia. "Nossa meta é atingir 200 pacientes. No ambulatório MINC foram atendidos em torno de 230 pacientes no total, de maio a dezembro de 2020."

Para facilitar o entendimento da gravidade da doença, os pacientes foram divididos nos grupos leve, moderado e grave. "Estipulamos como critérios de classificação do estudo que os casos leves da covid-19 seriam aqueles pacientes com sintomas leves que não necessitaram de suporte de oxigênio e não foram internados", descreve a fisioterapeuta.

"Os casos moderados são de pacientes com sintomas leves a moderados que necessitaram de internação com suporte ou não de oxigênio e os casos graves, pacientes com sintomas de moderados a graves que necessitaram de internação, foram encaminhados ao CTI, necessitaram de intubação ou tiveram complicações seletas."

Acompanhamento

Aplicados os critérios de classificação, a pesquisa identificou 14,7% de casos leves, 44,6% de casos moderados e 40,7% de casos graves. "No MINC o paciente recebe um atendimento médico habitual que segue um protocolo de avaliação clínica, física, de coleta de exames específicos e de imagem numa periodicidade estabelecida de fase aguda até um mês do início dos sintomas, três, seis e 12 meses de acompanhamento, quando isso é possível, mas caso o paciente necessite de mais cuidados as consultas são mais frequentes", diz Lívia. "O Recovida segue este mesmo protocolo de periodicidade de acompanhamento dos pacientes, inclusive na verificação dos exames estabelecidos pelo protocolo."

Embora os resultados sejam preliminares, o estudo aponta que alguns sintomas são comuns e perduram por bastante tempo, e que podem ser sequelas. "Temos pacientes com mais de seis meses do início dos sintomas e que ainda referem algum ou alguns sintomas persistentes", relata a fisioterapeuta. "Na fase aguda, vimos que os sintomas respiratórios são os mais comuns e mais marcantes, como tosse e a falta de ar (dispneia) assim como outros sintomas: febre, dor no corpo (mialgia), fadiga, dor de cabeça (cefaleia) e episódios de diarreia. Também há sintomas característicos da doença como alteração ou perda do paladar e do olfato."

Com três meses do início dos sintomas as queixas respiratórias como tosse e falta de ar ainda permanecem, mas em menor porcentagem. "Nesse momento, novas queixas se apresentam, como perda de força muscular geral, algumas alterações na sensibilidade do corpo (parestesias), queda de cabelo e ressecamento da pele", observa Lívia. "E os sintomas característicos relacionados ao paladar e olfato estão diminuídos/reduzidos (hiposmia e hipogeusia), mas começam a retornar ao estado normal sentido pelo paciente."

De acordo com a fisioterapeuta, os resultados preliminares do estudo indicam que em torno de 64% dos pacientes têm ainda algum sintoma persistente com seis meses ou mais do início dos sintomas. "Os principais são fadiga, falta de ar, dor de cabeça, perda de força muscular e casos de queixas relacionadas à visão como uma dificuldade para enxergar ou incômodo nos olhos", ressalta.

Enfrentamento

Segundo Lívia, os cuidados com os pacientes ajudam a traçar estratégias de enfrentamento da covid-19. "Acredito que seja importante acompanhar estes pacientes porque não sabemos ainda até quando os sintomas persistem, se serão de fato sequelas da covid-19 e quais consequências podem gerar na qualidade de vida pessoal e profissional destes pacientes", diz.

"Apenas os estudos, as pesquisas científicas bem delineadas, orientadas e fomentadas trarão estas informações estritamente necessárias para o combate à covid-19."

O estudo conta com parcerias que complementam a avaliação do paciente. "A equipe da fisioterapia realizando exames de espirometria, oscilometria, teste de caminhada e teste de força, a de oftalmologia realiza exames mais específicos para acuidade visual dos pacientes com queixas visuais e a equipe de fonoaudiologia e CCP avaliam os pacientes que necessitaram de intubação ou traqueostomia para avaliar possíveis sequelas relacionadas à deglutição ou fonação", aponta a fisioterapeuta.

"Outros estudos parceiros da imunologia e oncologia analisam dados relacionados à genética. O Recovida é um estudo do tipo 'guarda-chuva' que trabalha e compartilha dados com estes parceiros e oferece aos pacientes recuperados da covid-19 uma avaliação bastante completa."

Fisioterapeuta Lívia Pimenta Bonifácio e professor Fernando Bellissimo-Rodrigues, da FMRP  - Arquivo pessoal da pesquisadora - Arquivo pessoal da pesquisadora
Fisioterapeuta Lívia Pimenta Bonifácio e professor Fernando Bellissimo-Rodrigues, da FMRP
Imagem: Arquivo pessoal da pesquisadora

A pesquisa é orientada pelo professor Fernando Bellissimo-Rodrigues, do Departamento de Medicina Social da FMRP. Também colaboraram com o estudo os professores Valdes Bollela, Rodrigo de Carvalho Santana, João Paulo Souza, Afonso Dinis Costa Passos, Amaury Lelis Dal Fabro, Benedito Antônio Lopes da Fonseca e prof. João Santana. O trabalho teve ainda colaboração dos projetos parceiros: professora Ada Clarice Gastaldi, junto com fisioterapeutas e alunos do curso de Fisioterapia, professora Rosália Antunes-Foschini e Ílen Ferreira Costa, da Oftalmologia, e a aluna de Enfermagem Ana Paula Sulino Pereira.

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