PUBLICIDADE

Topo

'Minha mãe teve depressão pós-parto e fico com medo de passar pelo mesmo'

Malu ao lado da mãe Cida - Arquivo pessoal
Malu ao lado da mãe Cida Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Vidal

Do VivaBem, em São Paulo

25/03/2021 04h00

A estudante Malu Costa, 19, conta que a mãe, Cida, teve depressão pós-parto quando ela nasceu. Como a mãe tinha uma certa aversão ao bebê, quem cuidou de Malu foi a avó, com quem ela passava mais tempo. Hoje, mãe e filha se dão bem e criaram uma boa relação, mas a estudante tem medo de engravidar e passar pelo mesmo. Confira a seguir o relato dela ao VivaBem

"Minha mãe não queria ter engravidado, mas aceitou bem quando descobriu a gravidez. Ela saiu do laboratório já comprando coisinhas de bebê e passou a gravidez inteira assim. Fez meu enxoval e tudo estava bem.

Mas durante a gravidez, meus avós ficaram no pé dela para que ela se casasse com meu pai —meu avô nem saía com ela na rua enquanto não casasse. Minha mãe, então, casou quando estava no terceiro mês de gestação.

Quando eu nasci, ela simplesmente não fez questão nenhuma de me ver. Quando os médicos me limparam na sala de parto e me levaram para perto dela, ela conta que não sentiu nada demais, nenhuma emoção como a maioria das mulheres. Só falou: 'É bonitinha, pode levar'.

Ela não gostava de me amamentar, tanto que mamei por pouco tempo, apenas duas semanas, e depois comecei a tomar fórmula. Minha mãe ouvia meu choro e ficava impaciente, estressada, não gostava de ficar cuidando de mim em casa. Ela estava tão cansada disso que voltou da licença-maternidade após dois, três meses.

Malu, bebê, e a mãe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Malu no colo da mãe, em 2002
Imagem: Arquivo pessoal

Quem cuidou mesmo de mim foi a minha avó, que era com quem eu ficava mais tempo. A depressão pós-parto deixou minha mãe desesperada para sair daquilo. Algumas mães ficam ao contrário dela: não deixam ninguém tocar o bebê, têm medo, cuidados excessivos.

Ela sabia que tinha depressão pós-parto porque foi ao médico, mas não queria remédio. Com isso, ela tomou as próprias decisões. Voltou a trabalhar normalmente e, quando se sentiu melhor, foi passando mais tempo comigo.

Hoje nossa relação é ótima, nos damos muito bem. Ela está sempre preocupada comigo. Somos amigas, damos risadas, brigamos, mas estamos sempre juntas. Discutimos muito, mas acho que é porque somos muito parecidas em alguns aspectos, mas completamente opostas em outros.

Malu ao lado da mãe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Sempre me senti muito amada pela minha mãe. De uns anos para cá, quando tive alguns problemas psicológicos, ele esteve ao meu lado o tempo todo. Ela sempre me ajudou quando eu mais precisei, se desdobra em mil, se preciso.

Depois da depressão pós-parto, minha mãe teve outros dois episódios, principalmente por conta do meu pai. Minha avó também teve e ainda trata a depressão, desde os 30 anos. Então, toda minha família já tem esse aspecto de desenvolver o transtorno.

A minha apareceu em 2018 por alguns problemas com meu pai, entre outras coisas. Além da depressão e ansiedade, também trato o transtorno de personalidade boderline e, na minha família, minha bisavó também teve.

Eu tenho medo, fico pensando nos mil porquês pelos quais não seria bom eu engravidar. Já me causa uma certa ansiedade pensar na probabilidade de ficar grávida. Por mais que eu pense em ter filhos no futuro, porque ainda sou muito jovem, fico com medo de não ser uma boa mãe.

O fato de eu ter diagnóstico de depressão pode agravar na gravidez ou no pós-parto. Até hoje, minha mãe, por mais que faça tudo por mim e me ame, comenta que não nasceu para ser mãe. Acho que é um 'fundo depressivo' que ela ainda carrega. Aos meus olhos, ela é uma boa mãe. É claro, ninguém é perfeito, mas ela é uma mãezona."

Filhas de mães que tiveram depressão pós-parto podem ter também?

Sim. Segundo Layla Campagnaro, psiquiatra perinatal do Centro de Medicina Integrativa da Pro Matre (SP), uma das causas da depressão pós-parto é que mulheres com histórico do transtorno na família —não necessariamente apenas no pós-parto — têm mais chance de desenvolvê-la também.

"Isso a gente chama de transmissão intergeracional e estamos vendo que, sim, é possível. A filha dessa mãe deprimida tem maior chance de deprimir no pós-parto dela também", explica a especialista. Mas não é motivo para pânico, essa informação é importante para levar ao médico durante a gestação, para que se acenda um alerta durante esse período.

Depressão pós-parto pode afetar desenvolvimento do bebê

Campagnaro explica que a depressão pós-parto pode afetar o desenvolvimento psicológico do recém-nascido até a fase adulta. Desde a fase intrauterina, o bebê pode sentir as alterações da mãe. "A gente sabe que uma mulher deprimida causa alterações no bebê. Ele pode vir com um temperamento mais irritado, com mais choros, alteração na qualidade do sono e até mesmo ter mais dificuldade para se alimentar na amamentação", diz a psiquiatra perinatal.

A longo prazo, esse adulto também pode ter mais chances de desenvolver uma doença psiquiátrica ou ter alterações comportamentais.

O que é a depressão pós-parto?

A depressão pós-parto é uma doença que aparece após a gestação e pode surgir até o primeiro ano de vida do bebê. O quadro é diferente do baby blues, situação mais comum na qual a mulher fica deprimida, irritada e cansada apenas nas primeiras semanas depois do parto. A depressão pós-parto tende a permanecer por mais tempo e de forma mais intensa —entenda melhor o problema no especial Mamãe Não Está Feliz.

O mais indicado é que as mulheres procurem ajuda de um especialista médico —ginecologista, psiquiatra ou obstetra. Dependendo da situação, o profissional pode passar remédios para tratar a depressão. Terapias também podem ser indicadas para auxiliar o tratamento. O importante é procurar ajuda o quanto antes.

Supere a depressão pré e pós-parto

Campanha depressão pós-parto - Arte UOL - Arte UOL
Imagem: Arte UOL

Essa reportagem faz parte da campanha de VivaBem Supere a Depressão Pré e Pós-parto, que tem como objetivo chamar a atenção para o transtorno e os impactos que ele pode trazer para a mãe e o bebê. Ao longo da semana, uma série de reportagens e conteúdos especiais serão publicados com o objetivo de ajudar a identificar e tratar o problema. Confira todo o conteúdo da campanha aqui.

Fique ligado: a campanha é a primeira de uma série de VivaBem que, ao longo do ano, trará conteúdos temáticos para auxiliar no combate a problemas que muitas pessoas enfrentam no dia a dia e contribuir para que você tenha mais saúde e bem-estar.