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Equilíbrio

Cuidar da mente para uma vida mais harmônica


Desacelerar, resiliência, empatia: deu para aprender coisas boas em 2020?

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Imagem: iStock/Getty Images

Simone Cunha

Colaboração para o VivaBem

05/01/2021 04h00

Resumo da notícia

  • Segundo alguns especialistas, 2020 foi um ano difícil e complexo, mas ao mesmo tempo engrandecedor
  • O isolamento ajudou muita gente a resgatar sua identidade, encarar suas sombras, seus medos e a própria solidão
  • O ano ensinou que a realidade não é factual e cada um de nós a entende de formas diferentes
  • Não dá para garantir que a sociedade sairá dessa mais evoluída, mas quem tem aproveitado essa chance poderá sair mais fortalecido

Após quase 10 meses em plena pandemia, qual aprendizado fica diante de 2020, um ano tão atípico e incerto? Com certeza foi um período de perdas e inseguranças, mas mesmo diante desse cenário tão desolador ainda é possível levar algum aprendizado para 2021 e, quem sabe, para a vida.

Para o psicólogo Fabricio Guimarães, doutor e mestre em psicologia clínica pela UnB (Universidade de Brasília) e membro do Núcleo de Gênero e Psicologia Clínica e Cultura da mesma instituição, a palavra que melhor define 2020 é "paradoxo", ou seja, contraditório: "Um ano difícil e complexo, mas ao mesmo tempo engrandecedor", avalia.

Ficamos cara a cara com a incerteza e o sofrimento, mas tivemos a oportunidade de rever crenças e valores. "Há sete meses entrego cerca de 100 marmitas de segunda a sexta para pessoas em situação de rua. Esse foi meu maior aprendizado e o real significado do amor, as pessoas te agradecem com os olhos", diz Daniela Dias, 41, que atua na área de eventos.

Palavras como gratidão, empatia e fé ganharam certa notoriedade e, mesmo quem não se deixou levar por esse clima de esperança, teve a chance de se deparar com alguma situação desafiadora. Para Dias, por exemplo, a pandemia ajudou a impulsionar uma vontade antiga que se tornou permanente. Ela criou uma corrente de ajuda que, hoje, conta com cerca de 15 voluntários fixos.

"No início, chorava muito durante as entregas, mas com o tempo a gente vai criando vínculos, até conhecer a necessidade de cada um", diz ela, que está sempre na batalha para receber mais doações. "Não dá para abraçar o mundo, mas se houver união dá para sonhar que essa conta há de fechar algum dia".

Será que aprendemos a desacelerar?

A pandemia apontou que a vida apressada só nos distancia de nós mesmos, e o isolamento ajudou muita gente a resgatar sua identidade, possibilitando o desenvolvimento de novos conceitos e possíveis mudanças, muitas vezes, corrigindo a rota. "Pudemos perceber quantas coisas realmente estavam fora de lugar, mas nem percebíamos, devido à vida tão cheia de compromissos, com excesso de estímulos, de informações, de coisas absolutamente desnecessárias e com o nosso tempo tão mal investido", afirma a psicóloga Marcia Marchiori, especialista em medicina comportamental pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Compaixão, empatia, ajuda - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Ao ficar em casa, foi imprescindível aprender a se cuidar melhor, para suportar, sobreviver e não "pirar" diante de um cenário tão inusitado. "De fato, aprendi que as coisas têm valor, e não preço. Tive covid-19, uma doença solitária que deixa você isolada no próprio isolamento, porque só assim você consegue proteger quem você realmente ama", diz Adriana Rocha, 35, microempreendedora que ainda viu suas finanças despencarem. "Aprendi que é preciso conciliar autocuidado e produtividade, criar sinergia para estabelecer uma rotina mais saudável".

Há quem aproveitou a oportunidade forçada para encarar suas sombras, seus medos e sua própria solidão. E perceber que convivência exige habilidade, compaixão e muito jogo de cintura. "Fomos forçados a ir em busca de novos caminhos, novas formas de ser e de estar conosco e com os outros", diz Marchiori.

Não existe o impossível

"Fui superando fases como se estivéssemos em um jogo", brinca a professora Rietti Vieira Alves, 35, mãe de duas crianças, com três e 10 anos. Para ela, a pandemia mostrou que nada é impossível e, mesmo diante do incerto, dá para encarar os desafios. Sem nenhuma habilidade com as ferramentas tecnológicas, Rietti se viu diante de uma situação complexa: alfabetizar por meio de vídeos à distância. "Chegava a levar quatro horas para conseguir fazer um vídeo de cinco minutos. Chorei muitas vezes, pensei em desistir, mas aproveitei o período de férias (antecipadas no início da pandemia) para pesquisar e tentar aprender", conta.

Com certeza, a educadora trabalhou muito mais e teve de usar os períodos de descanso se dividindo nos cuidados com a casa, os filhos e as gravações. "Todo o sacrifício mudou a minha relação com a tecnologia, com os alunos e com a própria profissão", analisa.

De acordo com a docente Paula Regina Peron, doutora em psicologia clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), 2020 ensinou que a realidade não é factual, e cada um de nós a entende de formas diferentes. Há, inclusive, aqueles que a negam e a menosprezam. "Porém, também existem pessoas que trabalham não só por dinheiro, mas porque amam o que fazem e as causas que escolheram. A dedicação salva muitas pessoas e isso sempre continuará a existir, mesmo nas condições mais adversas e inéditas".

Criança; empatia - iStock - iStock
Imagem: iStock

Convivendo com a instabilidade

Mudanças externas geralmente catalisam mudanças internas. Segundo o psiquiatra Rodrigo Leite, coordenador dos Ambulatórios do IPq-USP (Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo), o aprendizado é o da impermanência e da mudança constante da vida. "Ficam as lições do desapego, do questionamento do que é essencial ou supérfluo e da importância do contato presencial com pessoas significativas. As interações sociais necessitam de uma experiência sensorial tridimensional".

Parece que já andávamos nos esquecendo disso. Quando finalmente for seguro do ponto de vista sanitário, teremos a oportunidade de valorizar mais o contato humano. "Será um momento de celebração após o fim desta grande batalha enfrentada pela humanidade", diz o psiquiatra.

Ainda assim, uma pandemia global capaz de ensinar muito às pessoas apenas revelou o quão díspares ainda somos. Não dá para garantir que a sociedade sairá dessa mais evoluída. Em contrapartida, dá para dizer que quem tem aproveitado essa chance poderá sair ainda mais fortalecido.

Com certeza, 2021 chega trazendo ainda muitos desafios que irão exigir flexibilidade para se adaptar aos novos paradigmas. Nada será como antes? Não sabemos. Mais que o ano novo traga mais esperança, amabilidade e nos torne menos cruéis e egoístas.