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"É irresponsável colocar uma data precisa para a vacina", alerta Pasternak

De VivaBem, em São Paulo

09/10/2020 16h28

Nesta sexta-feira (9), o UOL Debate reuniu especialistas para discutir as consequências da flexibilização do isolamento físico após sete meses do início da pandemia do novo coronavírus.

Amanhã, o Brasil deve atingir a marca de 150 mil mortes, atrás apenas dos EUA. O painel foi mediado pelo psiquiatra Jairo Bouer, colunista de VivaBem. As vacinas, claro, também permearam o debate.

"O que acho muito importante é que nenhum gestor coloque data de chegada para uma vacina, porque no meio do caminho pode ter uma interrupção, a fase 3 [a última fase de testes] vai sendo acompanhada mês a mês. Seríamos muito irresponsáveis de colocar uma data precisa, e é importante ser transparente com a população", pontuou Natalia Pasternak, doutora em microbiologia e presidente do Instituto Questão de Ciência.

Edson Aparecido, secretário municipal de saúde de São Paulo, também participou do debate e reforçou que até que a vacina chegue, todo cuidado é pouco. "A perspectiva, por parte do Butantan, é de que em meados de dezembro ela [a vacina] possa estar disponível. O protocolo deverá ser estabelecido pelo Ministério da Saúde, de quais pessoas devem ser vacinadas primeiramente. Tendo a vacina, a cidade conseguirá fazer de forma rápida, temos capilaridade e experiência", disse.

Uma das vacinas em estudo mais avançadas do mundo é a chinesa CoronaVac, que deverá ser fabricada pelo Instituto Butantan, de São Paulo, no entanto, a microbiologista lembra que a capacidade de produção do instituto precisa ser ampliada para que se dê conta das doses necessárias. "Essa é uma vacina de vírus inativado, precisa cultivar o vírus em laboratório, e isso leva tempo, e a planta vacinal do Butantan precisa expandir para escalar a produção", explicou Pasternak.

Liberou geral?

Sobre a flexibilização que vem acontecendo no país todo, inclusive hoje a capital e mais 5 regiões do estado de São Paulo passaram para a fase verde, penúltimo estágio que permite quase todas as atividades e volta de cinemas e teatros, preocupa a microbiologista.

"Tem vários motivos que explicam essa queda lenta de casos e mortes, um deles é que as pessoas colaboraram com as medidas. Aqui em São Paulo teve uma grande adesão às medidas de quarentena. Mas flexibilização não é liberou geral. E outro fator é a progressão natural da doença, que parece que a regra é que quem pegou está protegido, e isso diminui o número de suscetíveis em circulação. Uma hora a pandemia vai acabar, ela não dura para sempre", disse.

"Mas ainda é um momento de muita cautela, tenho muito medo do liberou geral, de as pessoas acharem que a pandemia acaba por decreto sem antes combinar com o vírus. Jamais iria a um cinema ou teatro agora, num local fechado, com ar-condicionado, que é super propício para o contágio. Essa comunicação do risco é o mais difícil de fazer com a sociedade. É difícil explicar para as pessoas que elas precisam avaliar o risco. Sou absolutamente contra abrir cinema e teatro agora", completou Pasternak.

Já o secretário municipal ponderou: "São Paulo foi o epicentro da pandemia no Brasil, mas fizemos um enfrentamento adequado. Um conjunto de ações nos permitiu em julho/agosto reduzir a taxa de transmissibilidade, então foi possível, gradativamente, fazer a flexibilização de setores da economia para minimizar o impacto social dessa doença. A colaboração da população foi fundamental. A sociedade aderiu ao chamamento feito pelo prefeito e pelas autoridades de saúde, mas ainda precisamos ficar atentos porque é uma doença muito desconhecida, não podemos baixar a guarda, de forma alguma".

Quarta onda

Bouer questionou os participantes do painel sobre a chamada quarta onda da pandemia, que seria o aumento dos casos de transtornos mentais. "Essa quarta onda começou logo no início, assim que a pandemia se instalou, vieram medo, insegurança, ficar em casa muito tempo confinado, quem tinha muitas tarefas, só aumentou, tudo isso, claro, desestabilizando muita gente com o agravante de que não podia sair de casa. Um contingente muito grande de pessoas que não tinha ansiedade e depressão, passou a ter, e quem já tinha, teve seu quadro agravado. E para isso não tem vacina", afirmou Carmita Abdo, psiquiatra, sexóloga e professora livre-docente da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo).

"O estresse pós-traumático vai começar a aparecer. Não quero fazer nenhum alarde, mas se você se sente assim, a notícia boa é que você não é uma exceção, mas a regra", disse.

Volta às aulas

Sobre a volta das crianças à escola, Pasternak considera que a análise e a decisão devem se basear na taxa de transmissão comunitária de cada cidade.

"A escola não existe numa ilhada isolada do resto da cidade. Acredito que o ensino vai ter que ser híbrido até a gente ter uma vacina efetiva. A gente vai ficar nesse esquema de vigilância, abrir e vigiar, para isso precisa de um monitoramento muito bem feito. Tem uma outra coisa que tem que pensar: dá para abrir todas ao mesmo tempo? E abrir bar, shopping, restaurante ao mesmo tempo? Primeiro precisa definir o que é prioridade, vigiar, e estar preparado para dar um passo atrás, se for preciso", explicou.

Para Carmita Abdo, não adianta não ter atividade escolar e levar as crianças para shopping, restaurante fechado e para andar de avião. "Com certeza teremos repercussões [nas crianças], mas todas trabalháveis. Assim como nós, adultos, encontramos formas de levar a vida, as crianças e adolescentes também encontraram", afirmou.

"Peço cautela, bom senso e cuidado onde buscar informações. Busque se informar em fontes confiáveis. Exercite o bom senso no dia a dia, vocês sabem o que fazer: evitar aglomeração, manter o distanciamento, lavar as mãos e usar máscara", finalizou Pasternak.

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