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Pesquisas por remédios contra covid-19 avançam entre esperança e frustração

SnowMannn/iStock
Imagem: SnowMannn/iStock

Carlos Madeiro

Colaboração para VivaBem, em Maceió

01/10/2020 04h00

Paralelo às pesquisas para produzir uma vacina contra a covid-19, cientistas de todo o mundo seguem estudando drogas que sejam capazes de curar ou ao menos reduzir a carga viral do novo coronavírus em pessoas infectadas.

Entre alguns resultados promissores e frustrações por falta de eficácia, especialistas acreditam que ainda há um longo caminho para que um resultado seja consolidado.

Nove meses após o surgimento da doença, ainda não há drogas com eficiência comprovada que atuem contra o novo coronavírus —mas existem muitas frentes de atuação em andamento. A maior parte estuda remédios já existentes, mas com outras finalidades, que possam ter efeito. Foi o caso da cloroquina e da ivermectina, por exemplo, que foram apostas iniciais, mas apresentaram resultados frustrantes. Já outras apresentam bons resultados, mas ainda estão em fase inicial ou intermediária de pesquisas.

Eliane Campesatto, doutora em farmacologia, professora e pesquisadora na Ufal (Universidade Federal de Alagoas), afirma que existiam, até o dia 21, 829 ensaios clínicos registrados no mundo para uma droga contra a covid-19 na plataforma Clinical Trials, sendo 26 deles conduzidos no Brasil.

"Desses feitos aqui, três já foram finalizados e dois foram cancelados por falhas metodológicas gravíssimas. No mundo, a gente já tem 52 finalizados, mas só 14 foram aceitos e publicados em revistas científicas", explica.

Em ciência —e principalmente quando se fala em remédios—, a publicação em revista especializada é a chancela de validação de resultados de uma pesquisa. Por isso a expectativa agora é que novas publicações sejam feitas em breve.

"Os que não foram publicados podem estar sendo avaliados, pode ser que não tenham alcançado qualidade metodológica para publicação. Há várias hipóteses aí. Na melhor delas seria porque eles enviaram para as revistas, e elas estão fazendo as correções", diz.

Na luta contra o tempo para enfrentar uma pandemia, a ideia de tentar "reaproveitar" uma droga (uso off label) é a principal estratégia para tentar encurtar o tempo de resposta.

"Uma droga absolutamente nova a gente levaria seis, sete anos para ter um resultado, no mínimo. Mas pegando uma droga que já foi testada em animais, que já se sabe mecanismo de ação, sabe se é tóxica, ganhamos muito tempo. São drogas que sabemos serem seguras", diz Álvaro Pulchinelli, diretor científico da SBPC/ML (Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial).

Hoje, as drogas que ajudam os pacientes graves são aquelas atuam contra os problemas gerados pela covid-19, como as inflamações e coagulações, no caso os corticoides e os anticoagulantes. Não há ainda remédio que ao menos reduza a carga viral.

Dificuldades no processo

Cloroquina - Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images - Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images
Hidroxicloroquina contra a covid-19: medicamento não teve eficácia comprovada em estudos
Imagem: Rafael Henrique/SOPA Images/LightRocket via Getty Images

Chegar a uma droga eficaz para um vírus novo é uma tarefa complicada. Muitos remédios avaliados inicialmente como promissores foram testados, mas não apresentaram resultados positivos e hoje são considerados sem eficácia e com possíveis riscos aos pacientes em alguns casos.

O maior estudo brasileiro publicado até agora, que analisou o uso da hidroxicloroquina, trouxe uma notícia ruim: a droga, sozinha ou associada à azitromicina, não é eficaz para tratar a covid-19 e ainda traz riscos ao paciente.

Além do desafio de saber se a droga é eficaz contra o novo coronavírus e/ou suas consequências, é preciso investigar se um remédio causa efeito colateral no caso específico da covid-19.

"Por exemplo: você não usa aspirina para dengue, mas todo paciente que teve um infarto vai tomar porque ela reduz efetivamente a mortalidade. Cada situação pode ser maléfica ou benéfica. É o caso da cloroquina para artrite e malária, mas no caso da covid-19 não deu resultado e ainda mostrou que pode causar alterações cardíacas. Ainda não se encontrou nenhuma medicação com uma conclusão positiva sobre uso no caso da covid-19", explica.

Ele lembra que toda droga tem efeito colateral e é preciso saber a dose e o momento adequados de uso. "Esse conhecimento leva tempo. Os protocolos de tratamento definitivo só vão terminar em 2023. É necessário se observar pessoas por um longo tempo, não é o tempo que a gente gostaria, mas é o possível", completa.

As fases de pesquisa

Para entender a demora, é preciso entender que o processo de testes de uma droga leva tempo até chegar aos humanos —o chamado ensaio clínico, quando precisa passar por três fases até chegar à venda.

A fase 1 é aquela que se inicia dando o remédio a seres humanos sadios, com 10% da dose máxima de toxicidade vista em animais.

Já na fase 2 começam os estudos com as pessoas doentes em um ambiente restrito e sob acompanhamento, na qual se avalia a eficácia e eventual toxicidade.

A fase 3 começa com mais envolvidos na participação nos testes, que se tornam multicêntricos. É aí que entra a cooperação entre laboratórios, centros de pesquisas e universidades para testar uma droga.

"Quanto mais se aumenta o número de pessoas no teste, maior a chance de saber os efeitos. Só depois disso é que ele vai para a fase 4, em que entra para comercialização. Nessa fase existe o serviço de farmacovigilância, e que nunca termina porque não há prazo para isso. Há medicamentos que se demora 30 anos para ver que tem efeitos adversos", conta Pulchinelli.

Frentes de pesquisa

Segundo João Viola, presidente do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia, os estudos hoje em torno de fármacos para a covid-19 se dividem em três abordagens.

"A primeira é a vacina, que está se desenvolvendo. A segunda são os medicamentos para minimizar ou eventualmente curar os pacientes graves. O que ficou consolidado nessa parte até agora é o uso de corticoides, principalmente a dexametasona, e de anticoagulantes. Uma terceira possibilidade é modular a resposta imune, e aí temos, por exemplo, a questão do uso de soro feito com plasma de pacientes que já se curaram, mas que também é algo controverso, não se tem conclusão", explica.

Ele também destaca que os antivirais testados em ensaios clínicos ainda não têm demonstrado boa efetividade. "O que a gente tem visto, de fato, é que muito pouca coisa evoluiu em relação, tanto nos casos graves para minimizar a carga viral, como de forma precoce para evitar que se torne grave", diz.

Para Eliane Campesatto, da Ufal, há pouca chance de termos uma droga eficiente contra o vírus em curto prazo. "É muito difícil sintetizar uma molécula. O mundo inteiro está tentando isso, mas mesmo que pulassem etapas, ou que as encurtassem, mesmo se fizessem testes paralelos, ainda assim seria muito complicado. No caso de fármacos não dá para atropelar porque tem de fazer in vitro, depois em animais, só depois em humanos", explica.

Estudo promissor no Brasil

Um dos estudos que conta com testes mais avançados é originário da França e no Brasil está sendo coordenado por Jorge Kalil, imunologista e professor titular da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). O ABX464 é uma droga anti-inflamatória que também tem propriedade antiviral.

Assim como a maioria dos estudos em andamento, o alvo da pesquisa é uma droga que já estava em fase clínica para outra doença e teve o foco "desviado" no momento para saber se há eficácia contra a covid-19.

Médico imunologista Jorge Kalil, professor da FMUSP - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O médico imunologista Jorge Kalil, professor da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo)
Imagem: Arquivo pessoal

"Essa droga foi desenvolvida para controle de inflamação em doença autoimunes, especialmente para induzir o aumento da expressão do microRNA 124. Os microRNAs são moléculas que controlam a tradução de genes, e esse 124 controla vários genes da resposta inflamatória. Quando você administra essa droga, ela não acaba, mas controla a produção dessa molécula. Ela foi bastante eficaz na fase 2 de testes contra colite ulcerativa. O que se mostrou é que ela diminui as lesões —que terminam desaparecendo— e ainda ajuda a regenerar os tecidos", conta.

No Brasil, a droga vai ser testada em 1.136 pacientes acima de 65 anos ou que têm comorbidades no modelo duplo cego aleatório randomizado. Ao todo, são 12 centros envolvidos no país, e a ideia é que o número cresça para até 20 centros.

"Ela vai ser testada dando um comprimido por dia a esses pacientes, por 30 dias. Ela será testada pouco depois que seja feito o diagnóstico para evitar internações ou, caso haja, não precise ir a UTI e resulte na diminuição de mortes. A gente pretende terminar até o começo do próximo ano essa fase", conta.

Kalil lembra que, assim como no caso das vacinas, o Brasil está sendo considerado um dos países perfeitos para testar os remédios por conta do ainda alto número de casos "Realmente somos um país muito propício. O mundo todo se virou para fazer testes aqui pelos casos, mas também porque temos boa medicina", diz.

Ele ainda ressalta que mesmo que se descubra uma vacina, as pesquisas não vão parar. "A vacina não vai proteger todos. Além disso, se o cara não tomou a vacina e ficou doente vai precisar do remédio. Não muda nada, por isso os testes têm de continuar", explica.

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