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Vegetarianismo e veganismo podem esconder transtornos alimentares

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Lídia Zuin

Colaboração para o VivaBem

30/09/2020 04h00

Quem nunca disse que ia começar uma dieta na segunda-feira? Se é para adotar um novo hábito, pode ser que o impulso de uma nova semana ajude. É nessa mesma perspectiva que a campanha Segunda Sem Carne incentiva a redução no consumo de carne, assim não só ajudando o planeta e os animais, mas também a própria saúde. Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?

Nem sempre a escolha por uma alimentação vegetariana ou vegana está associada à busca por uma saúde melhor ou mesmo um alinhamento político. Por vezes, vegetarianos e veganos escondem um outro problema: os transtornos alimentares. Isso foi até tema de um estudo publicado na revista científica Scientific Reports em abril de 2020. Os pesquisadores usaram um banco de dados alemão com informações de 2.449 pessoas e perceberam que havia uma associação entre excluir a carne da dieta e sintomas de comer transtornado —porém, a forma como o estudo foi feito não permite indicar uma causalidade, apenas correlação

De acordo com Fellipe Augusto de Lima Souza, psicólogo do Ambulim (Ambulatório de Transtornos Alimentares) do IPq HC-FMUP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), é preciso avaliar a motivação das pessoas quando desejam se tornar vegetarianos ou veganos. "Se o intuito é perda de peso, elas estão apenas utilizando uma forma socialmente aceita para buscar novos meios de emagrecimento, podendo este ser um grande problema do ponto de vista psicológico, por exemplo", ele explica.

Souza ainda acrescenta dizendo que pessoas que se enquadram nessa descrição ainda podem apresentar sintomas obsessivos relacionados à comida, maior checagem corporal, medo constante de engordar independentemente do alimento ingerido e maiores sintomas de comer transtornado.

Essa também é a visão defendida pela nutricionista e colunista de VivaBem Sophie Deram. Autora do livro "O Peso das Dietas" (Sextante), ela afirma que é possível de se adotar o vegetarianismo ou o veganismo de forma saudável, mesmo porque o vegetarianismo em si é uma alimentação milenar e que data desde nossos ancestrais pré-históricos. No entanto, é importante entender que tornar-se vegetariano ou vegano não se resume em apenas remover a carne e os alimentos advindos de animais do cardápio. É preciso ter acompanhamento de profissionais, uma vez que certas restrições podem levar a deficiências nutritivas.

Quando a restrição gera compulsão

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Nesse ponto, a questão das restrições é central, uma vez que se entende que a maioria dos pacientes com transtorno alimentar já fizeram alguma dieta restritiva. Ao longo de sua carreira, Deram percebeu que muitos transtornos alimentares têm origem no vegetarianismo ou no veganismo, principalmente entre jovens, porém não é correto dizer que todos os veganos ou vegetarianos necessariamente desenvolverão um comportamento alimentar transtornado. "A restrição alimentar pode modificar o centro do apetite e gerar um estresse que pode desencadear em um transtorno alimentar, porém hoje a gente sabe que existe uma predisposição genética ao desenvolvimento de um quadro de comer transtornado", explica a nutricionista.

Além disso, pessoas com uma propensão a transtornos alimentares podem usar esses estilos de vida e alimentação para mascarar seu problema. Ao longo de suas pesquisas na graduação e no mestrado em Saúde Coletiva, a antropóloga Beatriz Klimeck se focou no tema dos transtornos alimentares, em especial a anorexia em mulheres gordas. Segundo ela, o veganismo apareceu em algumas das histórias contadas por suas entrevistadas, sendo que a motivação estava principalmente atrelada a um desejo de uma alimentação "mais saudável" e com um interesse de emagrecer ou manter um baixo peso.

Isso lembra um transtorno chamado ortorexia que, apesar de não ter sido por ora registrada como um transtorno alimentar, se desdobra em uma obsessão de se comer de forma "saudável", que pode acabar desencadeando em um estilo de vida transtornado. Pessoas com esse problema podem pegar carona no vegetarianismo. "A pessoa deixa de ir à pizzaria porque não sabe se o tomate é orgânico, se a pizza vai ter glúten ou lactose. Essas pessoas, de tanto quererem comer saudável, acabam tirando tanta coisa que chega até a carne, assim podendo adotar uma alimentação vegetariana ou mesmo vegana", explica Deram que, aliás, vem encontrando muitos casos de ortorexia em seu consultório.

Do mesmo modo que Deram, Klimeck também percebeu em suas pesquisas que a lógica restritiva do vegetarianismo e do veganismo podem ser atraente às pessoas com tendência ao transtorno alimentar. Se uma pessoa com anorexia ou bulimia nervosa outrora se prendia a uma obsessão por calorias, ela pode acabar fazendo essa "transição" com foco na qualidade dos alimentos, sendo que ambos os comportamentos são não só socialmente aceitáveis como incentivados.

"É nessa relação que mora o problema. Quando falamos dos perigos da restrição alimentar, temos sempre que ressaltar que toda restrição precisa ser observada de perto, inclusive no vegetarianismo", argumenta Klimeck que, por sua vez, é ovolactovegetariana há quase dez anos.

Separando o transtorno da filosofia alimentar

Dieta restritiva - PeopleImages/iStock - PeopleImages/iStock
Imagem: PeopleImages/iStock

Para isso, é preciso um olhar clínico como o de Souza para entender melhor as motivações e tendências do paciente. Em primeiro lugar, é preciso avaliar quando o paciente se tornou vegetariano ou vegano e qual foi a motivação. "Se essa mudança ocorreu durante o tratamento de um transtorno alimentar, precisamos tomar cuidado, pois este pode ser um sintoma disfarçado. Pessoas com transtornos alimentares apresentam um medo patológico de engordar e facilmente são seduzidas por qualquer tipo de dieta restritiva ou com menor ingestão calórica", ele explica.

Segundo Souza, tornar-se vegetariano ou vegano enquanto um paciente de transtorno alimentar pode ser uma forma de se sentir mais seguro, porém adotar essa via de tratamento pode ser prejudicial uma vez que o indivíduo não aprende a lidar verdadeiramente com o medo de comer. Segundo ele, manter um paciente de transtorno alimentar em uma dieta vegetariana ou vegana pode não só atrapalhar o tratamento como também agravar e cronificar o quadro.

No entanto, para Deram, vai depender de cada caso. Ela conta que já atendeu uma paciente que tinha compulsão alimentar devido às várias dietas emagrecedoras que ela havia experimentado, mas que quando seu quadro já estava bem melhor, decidiu tornar-se vegetariana.

"Eu a acompanhei e hoje ela é vegetariana sem problema nenhum. Mas ela precisou de acompanhamento porque estava se recuperando de um transtorno alimentar e sem isso ela poderia desencadear o transtorno novamente", explica a nutricionista, que ainda comenta o alívio que sentiu ao saber que sua paciente não queria se tornar vegana, porque, nesse caso, ela não poderia continuar a atendendo por não ser especialista. O problema de indicar para outro profissional é que muitos médicos ou mesmo nutricionistas e psicólogos não possuem formação suficiente em transtornos alimentares.

Em suas redes sociais, Klimeck publica diferentes conteúdos que atingem não apenas as pessoas com uma relação conturbada com a alimentação e dietas, mas também profissionais da saúde de diferentes áreas que desejam saber mais sobre o assunto. "Na maioria das graduações em Psicologia, por exemplo, transtornos alimentares são o conteúdo de uma ou duas aulas, no máximo, e o efeito de um acompanhamento psicológico inadequado para uma pessoa com transtorno alimentar pode ser devastador. A mesma coisa com nutricionistas, educadores físicos e médicos", ela detalha.

É por esse mesmo motivo que Deram conduz um curso que aborda o peso das dietas e o problema das abordagens restritivas no tratamento das pessoas, bem como os riscos de desenvolvimento de transtornos alimentares. Com mais de 350 profissionais já formados no curso, Deram ainda conta com seus perfis em redes sociais e contribuições acadêmicas na área da nutrição.

Além disso, centros como o Ambulim e perfis nas redes sociais como o "Você não é o seu transtorno alimentar", criado por Klimeck, podem contribuir com um primeiro contato para pessoas que sequer imaginavam sofrer com transtornos alimentares, afinal, como explicam os entrevistados, tais comportamentos são incentivados pela nossa cultura e também poucos profissionais da saúde são capazes de diagnosticar ou tratar pessoas neste quadro. Assim, fica reforçado o conselho de se procurar profissionais que ajudem na transição para o vegetarianismo ou veganismo tanto do ponto de vista nutricional quanto também de saúde mental.