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Sintomas e tratamentos da doença


David Grinberg descobriu o câncer após o Ironman: "Encarei um novo triatlo"

David Grinberg teve um linfoma bastante agressivo e superou a doença fazendo um tratamento planejado como se fosse o treino para uma competição de triatlo - Arquivo pessoal
David Grinberg teve um linfoma bastante agressivo e superou a doença fazendo um tratamento planejado como se fosse o treino para uma competição de triatlo Imagem: Arquivo pessoal

Yara Achôa

Colaboração para o VivaBem

06/07/2020 10h00

Em 27 de maio de 201,8 o executivo David Grinberg, vice-presidente de comunicação corporativa da Arcos Dorados, cruzava a linha de chegada de seu maior desafio até então: o Ironman Brasil, competição que compreende 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,195 km de corrida.

Esportista desde sempre —com maratonas e triatlos no currículo —, ele se preparou bem e tinha condições de concluir a prova em pouco mais de 10 horas. Porém, cruzou a linha de chegada em 12 horas e 47 minutos. Essa diferença entre a expectativa e a realidade não ocorreu por erro de cálculo ou algum imprevisto durante a competição, e sim por um problema de saúde que o desafiaria tanto quanto o Ironman.

Tudo começou quando David passou a notar queda de imunidade e de rendimento nas semanas anteriores à grande prova. Ele considerou normal, visto que o treinamento era para lá de exigente, consumindo várias horas do seu dia.

"Um mês e meio antes, participei de um Meio Ironman (que tem metade das distâncias da prova completa) em Orlando. Voltei ao Brasil como se estivesse resfriado. Mas os dias passavam e eu não me recuperava. Na minha cabeça tinha a ver com alimentação desregulada, estresse, falta de sono adequado. Procurei minha nutricionista, conversei com meu treinador e não encontramos nada de errado no planejamento", lembra.

David realizou então alguns exames —que trouxeram resultados totalmente fora do padrão — e procurou um infectologista. No exame físico, o médico ainda apalpou seu baço e notou uma dilatação anormal. O diagnóstico apontava para uma espécie de virose parecida com mononucleose, mas não era conclusivo. Isso se deu na quinta-feira anterior ao Ironman, o que fez o profissional de saúde desaconselhar a participação de David no evento esportivo.

"Entendi a preocupação, mas disse que não existia a menor possibilidade de não fazer a prova. Eu iria de qualquer maneira. Só precisava saber quais cuidados deveria ter para chegar ao fim."

Claro que foi preciso "tirar o pé da performance" e entrar no modo "apenas completar". Assim, ele encarou as extenuantes distâncias das três modalidades e sentiu uma emoção comparável ao nascimento de seus filhos ao cruzar a linha de chegada e ouvir do locutor da prova dizer: "David, você é um Ironman!"

À espera da melhora

Depois da competição, já mais relaxado e sem treinos intensos, David acreditou que seu quadro fosse melhorar. Porém, os dias foram passando e o corpo não voltava ao normal. Não poderia ser só uma virose.

"No dia 13 de junho, tive uma síncope: desmaiei, bati a cabeça e fui para o hospital. Foi uma oportunidade para ampliar os exames e investigar melhor minha condição. Estava no quarto com minha esposa e meus pais, quando entra um médico e dispara: 'seus resultados apontaram câncer'. Não estava preparado para a notícia. Olhei para meus familiares em choque e pensei 'vou desmaiar'. Dessa vez não foi um desmaio e sim uma parada cardíaca. Apaguei por 11 segundos. Meu pai, que é cardiologista, e por sorte estava ao meu lado, foi quem fez os procedimentos de reanimação e me trouxe de volta. Poucas horas depois estava em uma UTI cardiológica —logo eu, que era atleta e que nunca tive qualquer problema. Foi um baque."

Dias após, na volta para o quarto, o executivo encontrou o médico Nelson Hamerschlak, coordenador do programa de hematologia e transplante de medula do Hospital Albert Einstein. Amigo de sua família, ele seria responsável por conduzir o tratamento. E recebeu o diagnóstico de linfoma não-Hodgkin, um tipo de câncer que tem origem nas células do sistema linfático e que se espalha de maneira não ordenada.

"Existem vários tipos diferentes de linfoma não-Hodgkin e, de imediato, foi preciso fazer uma biópsia para descobrir qual era o meu caso. Nesse meio tempo, comecei o tratamento, inicialmente com corticoide."

Blog do Dr. Kalil: a luta de David Grinberg contra um linfoma entre provas de Ironmann

Treinamento para um "novo Ironman"

A partir da descoberta do tipo de linfoma —o de David era uma das formas mais agressivas —, foi prescrito um protocolo de seis ciclos de quimioterapia hospitalar. Cada ciclo tinha duração de 96 horas, o que resultava em cinco ou seis dias de internação, com 14 dias de intervalo. Após esse período ainda foi preciso fazer um transplante de medula, encarar um sétimo ciclo e depois mais três sessões de quimio no modo ambulatorial.

Sabendo da paixão de seu paciente pelo esporte, Nelson Hamerschlak traçou um paralelo entre o tratamento do câncer e o treinamento para uma prova de endurance.

"O médico parecia o treinador passando a estratégia. Disse que iríamos seguir como para um Ironman. Falou que eu enfrentaria situações e sensações que já conhecia —como cuidados com alimentação e convivência com a dor — e seria preciso ter a mesma disciplina, resiliência e respeito ao médico/ treinador. Até o período do tratamento era parecido com a periodização de um Iron: quatro a seis meses. Ele agiu como um coaching, transformando o medo do desconhecido em algo próximo à minha realidade", lembra David.

Claro que, assim como no período de preparação para uma prova e até mesmo durante ela, o tratamento teve momentos de cansaço e desânimo. "Senti isso algumas vezes. Na etapa do transplante, por exemplo, fiquei 26 dias internado, isolado. Foi uma prova de fogo, quando me questionava se teria forças para completar os últimos quilômetros. Nesses instantes eu me apoiava em minha determinação esportiva e dizia:

A doença escolheu a pessoa errada, vou fazer o que for preciso para cruzar a linha de chegada!"

Desde o recebimento do diagnóstico, nunca houve restrição médica em relação aos exercícios —mas, obviamente, eles não poderiam ter a intensidade de antes. Nos dias que estava em casa e sentia-se bem, David até encarava caminhadas na esteira. "E no hospital fazia 'maratona' andando pelo corredor", diverte-se.

Pouco depois da metade do tratamento, exames apontaram que não havia mais sinais da doença. Dali para frente, cabia ao executivo apenas cumprir tabela, como os últimos dias de treinamento antes de uma grande prova. A alta médica aconteceu no dia 14 de novembro de 2018. E tudo o que mais ele queria era nadar. "Foram 500 metros na piscina, sentindo a alegria como se tivesse feito 5000 metros. Estava de volta!"

David Grinberg largada - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
David voltou a fazer provas de triatlo após superar o câner
Imagem: Arquivo pessoal

O amigo que virou triatleta

Depois do Ironman e um dia antes de ter a síncope, David havia encontrado o então chefe Daniel Schleiniger. Eles mantinham um bom relacionamento profissional e uma amizade que havia se estreitado na época das Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 2016.

"Sempre foi explícita a paixão de David pelo esporte", conta Daniel, que assim que soube da hospitalização ligou para o funcionário, ainda achando que ele tinha mononucleose.

"Recebi a mensagem com a informação do linfoma. Busquei na internet, porque não sabia o quão sério era. Diante da gravidade do quadro, senti que tinha de estar junto, tinha de fazer algo que o motivasse também. Estava sedentário e mais fora de forma do que já estive em toda minha vida. Então, decidi que iria treinar para fazer um triatlo com o David. A ideia era diminuir um pouco a ansiedade dele por meio de meus treinamentos. Pensei em algo simples, como nadar, pedalar e correr no quarteirão perto de casa. Mas logo o David transformou meu objetivo em um 70.3 (meio Ironman)."

Durante o tratamento do câncer, o amigo passou a controlar a alimentação e a bebida. "Quando pensava em me exceder, lembrava do David. Perdi 16 kg e fiquei ainda mais motivado. David virou meu coach. Eu fazia perguntas sobre treinamento, suplementos e provas, sabendo que ele adorava isso. Quando decidimos fazer o Meio Iron, criamos um projeto com direito a uma pulseirinha que virou nosso amuleto. Lembro que na minha preparação, quando eu me arrisquei em meu primeiro sprint (750 m de natação, 20 km de ciclismo e 5 km de corrida), com 200 metros de natação já queria desistir. Daí olhei para o pulso e falei que não podia. Mas meu desafio não se comparada ao dele."

Depois da alta hospitalar e diante do projeto criado com o amigo, David procurou seu treinador, Mario Sergio Silva, da Run & Fun assessoria esportiva, e pediu para colocá-lo em forma novamente.

"Ele disse que nunca havia trazido alguém de volta após um câncer. Então, iríamos com calma. Para se ter ideia, a primeira planilha mostrava treinos de três minutos caminhando, controlando a pulsação, com feedback enviado imediatamente ao treinador. O processo foi gradativo, focado, respeitando o corpo, com análise de dados."

David e Daniel cruzaram a linha final do Meio Ironman na cidade de Cambridge, no estado de Maryland, Estados Unidos, em 9 junho de 2019. "Essa experiência salvou minha vida. Sem dramatizar, eu estava em uma situação crítica", diz Daniel Schleiniger.

Ajuda por meio de um livro

Ao longo do tratamento, David Grinberg decidiu compartilhar sua jornada da luta contra o câncer. Surgia aí o livro "Rotina de Ferro" (Editora Planeta). Lançado no final de junho em formato e-book, a obra tem como objetivo inspirar as pessoas mostrando que é possível superar os obstáculos com ajuda de experiências acumuladas na vida.

"Sempre tive claro a importância da disciplina e da concentração em tudo o que faço. E devo isso em grande parte ao esporte. Essas ferramentas não vêm de graça, demandam treino e atenção e foram extremamente importantes em toda minha vida —especialmente durante o enfrentamento da doença."

O valor dos direitos autorais são 100% revertidos para a Abrale (Associação Brasileira de Linfoma e Leucemia). "Nem todo mundo pode contar com um bom hospital, uma boa equipe medica, estrutura familiar e da empresa. A Abrale dá esse suporte. Que essa ação ajude quem não tem o que eu tive. É um gesto singelo, mas foi a maneira que encontrei para ajudar quem precisa. Será meu elo de ligação com outros pacientes", conta David. "Rotina de Ferro" está à venda na Amazon por R$ 17,91.

Futuro esportivo

Após um ano e meio do transplante de medula —e feito o exame da pega medular, que atesta que o procedimento deu certo e é considerado um "renascimento" —, David Grinberg encontra-se no estágio de remissão, com acompanhamento médico e controle a cada seis meses. A cura só é decretada após cinco anos (entenda aqui a diferença entre cura e remissão de uma doença).

E ele segue otimista e fazendo planos, entre eles completar um novo Ironman, com a marca planejada quando se lançou ao desafio em 2018: pouco mais de 10 horas. Também tem projetos com o amigo Daniel Schleiniger: encarar o Meio Ironman de Buenos Aires, em 2021, e outras tantos depois.

"Não é uma história de superação, mas uma história de renascimento", conclui David.