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UOL Debate: Brasil paga preço da desigualdade, e vida demora a normalizar

Do VivaBem, em São Paulo

02/04/2020 14h31

O quinto episódio de UOL Debate aconteceu nesta quinta-feira (2) e reuniu alguns dos principais protagonistas da área da saúde brasileira para avaliar as perspectivas de curto e médio prazo da crise do coronavírus.

A situação do sistema de saúde brasileiro, a volta da vida ao normal, a importância essencial do isolamento social no achatamento da curva de contágio e as perspectivas para tratamento e vacinas foram os principais temas debatidos. O episódio foi mediado por Lúcia Helena de Oliveira, jornalista especializada em saúde e colunista de VivaBem.

"Sua vida normal vai demorar a voltar a acontecer. Daqui a quanto tempo? Não tenho ideia", enfatizou Drauzio Varella, médico e escritor.

Estamos pagando o preço da desigualdade social. Sempre encaramos isso com naturalidade.

"Vamos pagar o preço de termos construído estádios na Copa [em 2014] que hoje estão sendo transformados em hospitais. Não sabemos como a epidemia vai se disseminar em um país com essa desigualdade social", salientou.

"Estamos em uma situação de guerra. Esquece a vida normal, ela não vai existir por muito tempo. Não vai ser normal por que não poderá ser. É impossível fazer previsões sobre o futuro. A realidade é muito dura. Ainda bem que temos o SUS (Sistema Único de Saúde), o vilipendiado SUS, que todo mundo xinga", vocifera o médico e escritor.

"Sobrevive, não necessariamente o mais inteligente, nem o mais forte, mas o que mais se adapta", foi citando Charles Darwin que Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo da Fiocruz, ressaltou a importância do isolamento social. "Estamos numa fase de adaptação, temos que nos adaptar. Cada um de nós deve fazer a sua parte. Estamos vivendo uma situação de solidariedade".

Todo mundo vai pegar?

Alguns vídeos que circulam em grupos de WhatsApp, até em tom de piada, dizem que todo mundo vai ser contaminado pelo coronavírus. O assunto também foi abordado pelos especialistas.

"É um vírus que, provavelmente, chegou para ficar. Provavelmente todos vamos nos infectar, a questão é saber quando. Vamos ter o vírus circulando ano que vem? Ninguém sabe", explicou Marilda Siqueira.

Assim como os infectologistas não cansam de explicar, trata-se de um vírus até então desconhecido pela ciência e uma doença nova, o conhecimento está sendo gerado ao mesmo tempo em que há que se salvar vidas e controlar a pandemia. "É como construir avião e voar ao mesmo tempo", exemplifica Ester Sabino.

"Tínhamos uma esperança de que o novo coronavírus seria parecido com o Sars, de 2003. Também havia uma esperança que ia ficar na China e não ia se espalhar, mas ele [o vírus] está com uma apresentação totalmente diferente. Muito provavelmente chegou para ficar. Ninguém sabe como vai ser a sazonalidade dele, se vai ser sempre na mesma epoca do ano ou se vai ser pingadinho, sempre circulando", disse a pesquisadora da Fiocruz.

"O período de silêncio [da infecção], está para 3 a 5 semanas. Entre o início do quadro clínico e a piora do quadro pulmonar está passando de 7 a 10 dias e, mesmo na internação inicial, passa um período de mais uma semana, 10 dias. Temos um período de silêncio longo que atrapalha a decisão de políticas públicas", explicou Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio Libanês (SP).

Subnotificação x testagem em massa

Em relação à subnotificação de casos de covid-19, Drauzio diz que estamos no escuro. "Os números não são confiáveis. Nós não temos testes, nós não, ninguém tem, os americanos não têm teste. Nós não temos a menor ideia. Estamos no escuro, completamente. Enquanto não testarmos todo mundo, não saberemos", ressaltou, frisando a importância da testagem em massa.

Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Albert Einstein, diferencia que o teste pode ser usado para diagnóstico para saber o tipo de gripe que o paciente pegou e também como mapeamento epidemiológico para responder até quando vai o confinamento, por exemplo: "Para saber quem já está imunizado", exemplificou.

"Teste em massa tem mais um caráter epidemiológico, para entender o comportamento do vírus. Haja visto que a recomendação no Brasil foi para que quem está com sintomas leves e assintomáticos não seja testado", completou. "Não é um teste que vai fazer você internar um paciente".

"Nenhuma epidemia tem o número de infectados que corresponde ao número real de infectados. O Brasil tem um gap importante de não ter a capacidade de produzir os testes aqui, como a Coreia do Sul. A gente não precisa saber de todos que estão, mas sim ter um bom índice que indiretamente nos diga quantos indivíduos estão infectados", pontuou Ester Sabino, pesquisadora do Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Sabino reforça que devemos procurar bons índices que norteiem as medidas governamentais como fechar ou abrir comércio e acabar com o isolamento social, por exemplo.

"Nós estamos aprendendo a entender melhor vários aspectos relacionados ao coronavírus", explicou Marilda Siqueira. "Parece que os assintomáticos excretam uma quantidade menor de vírus. No entanto, foi publicado um trabalho que mostra que vários assintomáticos possuem uma carga viral bastante alta que facilitaria a transmissão", afirmou Siqueira.

Máscara: é para usar ou não?

Um assunto que tornou-se polêmico nos últimos dias foi a utilização ou não de máscaras por toda a população. Os especialistas participantes do UOL Debate ainda foram reticentes em recomendar o uso geral.

"Em ambientes em que há bastante gente têm se falado em usar a cirúrgica. Pode ser que isso faça faltar ao profissional de saúde que precisa mesmo, não só para se proteger, mas proteger o indivíduo. Como cidadão, é óbvio que a utilização mais larga dessa máscara poderia ser a recomendada. Como não existe, começaram a aparecer outros tipos, como a máscara de pano. Cuidado com ela. Tem que ter várias e lavar várias vezes. Se você molhar, ela vira fonte de retenção de vírus e bactérias e você pode estar respirando em um ambiente pior ainda", pontuou Chapchap.

"Máscaras passarão, depois da pandemia, a ser um novo adorno para quem lida com o público", disse Klajner. "Espero que não", rebateu Chapchap.

"Acho que a gente tem que lembrar a população que essa máscara não pode estar úmida, deve estar sem secreções. O perigo dela é dar uma falsa sensação de proteção. O uso não exclui lavar as mãos, não tocar olhos, cuidados mínimos que não podem ser deixados de lado", ressalta a pesquisadora da Fiocruz.

Estrutura dos hospitais brasileiros

Lucia Helena, mediadora do debate, pediu aos especialistas comentarem como está a estrutura dos hospitais brasileiros, tanto na rede pública quanto privada.

Drauzio foi enfático e disse que o país não tem estrutura para enfrentar a epidemia. "Morro de medo quando vejo as UTIs que conheci no Norte, Nordeste, é muito precária a assistência médica oferecida. O isolamento é importante por que não pode chegar todo mundo com dispneia no hospital, vai morrer com falta de ar. Temos que reduzir ao máximo o número de pessoas que chegam aos hospitais", disse.

"Temos que focar na prevenção primária, para que as pessoas não se contaminem. Prevenção máxima para a gente tentar evitar o cenário dantesco de empilhamento de corpos. Só tem uma forma de mitigar que é o afastamento social", explicou Chapchap, do Sírio.

Nenhum sistema de saúde do mundo trabalha com ociosidade suficiente para acomodar uma pandemia. O nosso menos ainda.
Paulo Chapchap, diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês

"Se nos nos comportarmos mais como sociedade coletiva, vamos mitigar também a curva das outras doenças respiratórias [que já é maior nessa época do ano], poupando o sistema dessas outras doenças. Nos ambientes com idosos, que não devem ser coletivos, a proteção tem que ser a mesma, mas o risco é maior", finalizou Chapchap.

A doença nos mais jovens

Durante algum tempo, muitos jovens sentiram-se protegidos contra o coronavírus já que, nos grupos de risco, como idosos e doentes crônicos, a covid-19 se manifesta de forma mais severa. No entanto, nos últimos dias, foram notificadas mortes de jovens tanto no Brasil —um gastrólogo de 23 anos morreu em Natal— quanto no exterior —na Bélgica uma menina de 12 anos foi vítima do vírus.

"Tem casos graves em todos os lugares", explicou Ester Sabino. "Estamos acostumados a pensar na morte como uma questão de velhice. O número de pessoas jovens ou crianças morrendo impacta muito os jornais e a mídia, mas dá uma falsa impressão que é maior", disse Marilda Siqueira.

Vamos entrar em colapso em breve?

"O confinamento e isolamento social permitem que a gente não tenha a nossa capacidade excedida. Hoje, nos ambientes que tenho acesso, não estão saturados ainda. As projeções estão mais para o início da segunda quinzena de abril. A única forma de mitigar é o isolamento. Existe uma chance muito grande de o confinamento de duas semanas fazer com que a capacidade não seja excedida e o sistema não entre em colapso, pelo menos em São Paulo", explicou o presidente do Einstein.

Marilda Siqueira, da Fiocruz, falou sobre a situação do Rio de Janeiro. "Há uma situação complexa devido ao grande número de favelas. Acho que vamos ter uma situação bastante difícil logo. Deve ficar muito preocupante pelas características sociais da população".

Tratamento, vacinas e o futuro

Apesar de cientistas do mundo todo estarem pesquisando vacinas e fármacos para uma futura prevenção e tratamento contra a infecção pelo coronavírus, o tempo da ciência é diferente da pressa que a pandemia exige. Nas melhores perspectivas, as vacinas devem ser testadas em humanos daqui um ano, no mínimo.

"Não é uma epidemia do Brasil, mas de todos os países", frisou o presidente do Einstein.

"A vacina será um grande trunfo, mas dificilmente será injetada no braço de alguém antes de um ano, um ano e meio. A pandemia deve mudar hábitos em diversos locais e países, não jogar garrafa pet na rua, por exemplo. Ter responsabilidade social. Espero que isso seja o legado desse sofrimento que o mundo está passando", pontuou Marilda, da Fiocruz.

"É uma epidemia de mobilidade mas também com o meio ambiente. Não é só a China, aqui também tem muito tráfico de animais, o que aumenta a capacidade de transmissão de doenças. Temos que aprender e pensar numa vida menos consumista e que destrua menos o que está ao nosso redor. Tem que parar e pensar o que é importante na sociedade", falou Ester Sabino.

O diretor do Sírio-Libanês não adotou um tom otimista. "Não sou otimista, mas não existe uma epidemia que não tenha terminado, seria inusitado que tivéssemos uma epidemia que ficasse para sempre. Elas se encerram na medida em que as pessoas vão desenvolvendo imunidade. O que aconteceu na Coreia, em Wuhan [China] mostra que existe uma tendência a uma vida mais perto a normalidade depois".

"A gente sabe que uma vacina vai levar tempo e não vai nos ajudar agora, mas pode surgir um tratamento com uma droga já existente que possa impedir que esses casos evoluam para uma fase de insuficiência respiratória. Vimos isso com a epidemia de Aids, que aconteceu em 1981. Quarenta anos atrás, a medicina era outra. Agora temos condição de ter um tratamento que possa mudar o curso da doença. É o melhor que a gente pode esperar", finalizou Drauzio Varella.

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