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O que pode ser?

A partir do sintoma, as possíveis doenças


Rouquidão nem sempre é temporária e pode ter como causa várias doenças

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Imagem: iStock

Cristina Almeida

Colaboração para VivaBem

13/07/2021 04h00

Quando você for ao médico e se queixar de rouquidão, não se surpreenda se ele disser que se trata de disfonia. Esse é o termo técnico que os especialistas utilizam para se referir às alterações da voz que afetam sua qualidade, ou seja, seu timbre, tonalidade e volume.

Seja ela temporária ou permanente, a rouquidão pode dificultar a comunicação e reduzir a qualidade de vida.

Esse sintoma pode acometer 3 em cada 10 adultos ao longo da vida, e até se manifestar na infância. Nos últimos anos tem-se observado o aumento significativo de casos entre professores, idosos e indivíduos que fazem uso mais intenso da voz.

As causas para isso variam desde uma simples inflamação da laringe até o câncer, e algumas delas são mais frequentes entre as mulheres, como os nódulos vocais.

Os especialistas garantem que muitos quadros de disfonia podem ser prevenidos e tratados com medidas simples como o uso cuidadoso e repouso da voz, boa hidratação e medicamentos.

Já nas situações mais graves, a estratégia terapêutica inclui terapia vocal e até cirurgia. Apesar disso, o conselho médico é não ignorar o sintoma. Isso porque ele pode ser o primeiro e único sinal do tumor de laringe, e o diagnóstico precoce aumenta a chance de cura.

O que é rouquidão?

Antes de entender o que é rouquidão, saiba que a sua voz é o resultado da passagem do fluxo de ar que é gerado nos pulmões e é transformado em sinal sonoro por meio da vibração das pregas vocais. Considerado a sua segunda impressão digital, esse som é também modificado pela língua, boca e lábios.

Assim, a rouquidão é uma alteração da voz (ou mesmo a dificuldade de mantê-la para atender as demandas do dia a dia) caracterizada pela mudança de seu timbre, tonalidade ou volume (qualidade da voz) que causa desconforto ou prejuízo à comunicação, mesmo que esse quadro não seja constante. As explicações são de Silvio José de Vasconcelos, otorrinolaringologista do HC-UFPE.

Por que isso acontece?

O sintoma possui causas variadas, mas as mais comuns são as infecções das vias aéreas superiores (gripes e os resfriados) e que levam à inflamação da laringe, considerado o órgão da voz.

"Na maioria desses casos, porém, o problema é autolimitado, isto é, se resolve sozinho", fala Rafael Mendonça Rey dos Santos, professor da disciplina de medicina de família da Escola de Medicina da PUC-PR.

Por outro lado, o médico esclarece que a rouquidão [disfonia] pode também ser a manifestação de outras enfermidades e situações. Veja alguns exemplos:

  • Laringite (aguda ou crônica)
  • Alergias
  • Distúrbios vocais funcionais
  • Nódulos ou pólipos vocais
  • Tumor (benigno ou maligno)
  • Distúrbios neurogênicos (paralisia de uma prega vocal)
  • Envelhecimento da voz (presbiofonia)
  • Tabagismo
  • Etilismo
  • Edema de Reinke (aumento de volume da prega vocal)
  • Intubação
  • Doenças neurológicas (Parkinson, esclerose múltipla, esclerose lateral amiotrófica)
  • Problemas endocrinológicos (hipotireoidismo)
  • Refluxo faringolaríngeo ou gastroesofágico
  • Rinite ou sinusite (agudas/crônicas)
  • Problemas dentais (falta de dentição)
  • Efeito colateral de medicamentos ou substâncias que alteram a hidratação local (anti-histamínicos, corticosteroides orais, anti-hipertensivos, consumo excessivo de café etc.)

Quem precisa ficar atento?

A rouquidão pode acometer igualmente todas as pessoas, inclusive crianças, e algumas de suas causas são mais frequentes entre as mulheres por motivos anatômicos, como os nódulos (as pregas vocais femininas são menores).

Nos últimos anos, porém, o sintoma tem sido cada vez mais comum entre professores, idosos e indivíduos que fazem uso mais intenso da voz. Confira alguns exemplos:

  • Cantores
  • Operadores de telemarketing
  • Pessoas que trabalham em locais ruidosos
    Indivíduos que convivem com pessoas que têm dificuldade para ouvir

Além desses grupos, fumantes também são mais suscetíveis.

Outros sintomas relacionados

A manifestação da rouquidão é a alteração da qualidade vocal. Contudo, em algumas situações, o sintoma pode ser acompanhado pelas seguintes manifestações:

  • Dor
  • Febre
    Ardor na laringe
    Dificuldade ou dor para engolir, falar, respirar
    Sangramento

Quando é a hora de procurar o médico?

Muitos episódios de rouquidão passam sozinhos sem causar prejuízo algum. Mas os especialistas advertem que toda alteração da voz deve ser avaliada por um médico, especialmente quando ela dura por 14 dias ou mais, e tal mudança não esteja associada a gripe ou resfriado.

O otorrinolaringologista Gustavo Polacow Korn, professor e chefe do Ambulatório de Voz Profissional da EPM-Unifesp fala que observar esse sintoma e ignorá-lo é preocupante porque o câncer de laringe, na sua fase inicial, pode ter como único sintoma essa alteração vocal.

"A demora da tomada de uma providência pode resultar na evolução para um quadro mais complexo, enquanto a consulta e o diagnóstico precoces aumentariam as chances de cura, que são enormes", completa.

Outros sinais de alerta podem ser a dificuldade de engolir ou respirar, sangramentos ou a perda total da voz nesse período de tempo.

Para avaliação de todos esses sintomas, o ideal é procurar o otorrinolaringologista, o cirurgião de cabeça e pescoço ou outro médico que possa examinar a laringe.

Como é feito o diagnóstico

Na hora da consulta, o especialista ouvirá a sua queixa, fará o levantamento do seu histórico de saúde, além do exame físico que consiste na avaliação da laringe e das pregas vocais.

Na maioria dos casos, o diagnóstico se baseia nessas informações, portanto ele é chamado de diagnóstico clínico.

Nas situações nas quais o sintoma persiste há mais de 14 dias, o profissional poderá valer-se da nasofibrolaringoscopia, um exame que permite a introdução, pelo nariz, até a garganta, de um aparelho que contém uma fibra flexível dotada de câmera para avaliação da laringe e das pregas vocais.

Mas há outros exames, como a telelaringoscopia (um tipo de endoscopia que utiliza um telescópio) e a estrosboscopia, que possui luz pulsátil e observa o padrão de vibração das pregas vocais. Ambos permitem a avaliação pormenorizada da região, além da visualização de problemas que seriam imperceptíveis por meio do exame convencional.

Quando esses aparelhos não estão disponíveis, o médico pode fazer uso de um espelho [de Garcia] que permite a visualização local.

Podem ainda ser solicitados exames laboratoriais, como o hemograma, e outros exames de sangue, de acordo com as suspeitas do médico, bem como a tomografia computadorizada e até biópsia, para investigar lesões mais graves.

Como é feito o tratamento?

O objetivo dele é recuperar a normalidade da voz. E ele dependerá sempre da causa da rouquidão [disfonia]. Como regra geral, quando o sintoma decorre de alguma doença de base, como o refluxo gastroesofágico ou laringofaríngeo, essas enfermidades devem ser devidamente tratadas.

Confira, a seguir, exemplos de outras condutas terapêuticas que, eventualmente, também poderão incluir a indicação de medicamentos específicos:

  • Laringite aguda - a indicação é o repouso vocal, boa hidratação. Por vezes pode ser associada à terapia de voz (fonoterapia);
  • Lesões não cancerosas - fonoterapia para aprendizado do uso da voz, hidratação adequada. Em algumas situações, indica-se cirurgia;
  • Lesões cancerosas ou pré-cancerosas - cirurgia. Em algumas situações, quimioterapia e radioterapia;
  • Doenças neurológicas - fonoterapia, e dependendo do quadro clínico pode ser indicado aplicação de toxina botulínica;
  • "Hematomas" locais - na maioria dos casos, a indicação é o repouso da voz.

Quais são as possíveis complicações?

A depender da causa e da gravidade do quadro, as complicações podem ser a permanência da rouquidão, a perda do trabalho para quem faz uso da voz, além da necessidade de intervenção cirúrgica e até morte, nos casos de câncer.

Dá para prevenir?

Boa parte das causas que dão origem ao problema pode ser prevenida por meio de práticas simples como a boa hidratação e a adoção de mudanças no estilo de vida. A ABLV (Academia Brasileira de Laringologia e Voz) sugere que você adote as seguintes medidas:

  • Mantenha-se hidratado com bebidas frescas ou em temperatura ambiente;
  • Evite o tabaco (inclusive o fumo passivo);
  • Use microfones ou megafones para não forçar a voz, caso tenha de falar em ambientes grandes e ruidosos;
  • Evite gritar ou sussurrar. Isso evita a fadiga, o esforço e abuso vocais;
  • Adote o uso de umidificador em ambientes secos ou áridos;
  • Reduza o consumo excessivo de álcool (vinho, cerveja etc.) ou bebidas à base de cafeína (café, gaseificados);
  • Evite limpar a garganta (pigarrear) ou tossir em excesso;
  • Use de forma racional medicamentos como anti-histamínicos e diuréticos;
  • Acostume-se a falar pausadamente;
  • Recuse alimentos que causem azia ou má digestão;
  • Prefira ambientes livres de poeira, mofo ou cheiros fortes;
  • Tenha hábitos de sono saudáveis.

Fontes: Gustavo Polacow Korn, mestre, doutor e pós-doutor em otorrinolaringologia pela EPM-Unifesp (Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo), professor afiliado e Chefe do Ambulatório de Voz Profissional da mesma instituição. Foi presidente da ABLV (Academia Brasileira de Laringologia e Voz) (2018-2019); Silvio José de Vasconcelos, médico otorrinolaringologista do HC-UFPE (Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco) e professor da mesma instituição; Rafael Mendonça Rey dos Santos, presidente da Associação Paranaense de Medicina de Família e Comunidade e professor da disciplina de medicina de família da Escola de Medicina da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná). Revisão técnica: Gustavo Polacow Korn.

Referências: NIDCD (National Intitute of Deafness and Other Communication Disorders); Stachler RJ, Francis DO, Schwartz SR, Damask CC, Digoy GP, Krouse HJ, McCoy SJ, Ouellette DR, Patel RR, Reavis CCW, Smith LJ, Smith M, Strode SW, Woo P, Nnacheta LC. Clinical Practice Guideline: Hoarseness (Dysphonia) (Update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2018 Mar;158(1_suppl):S1-S42. doi: 10.1177/0194599817751030. Erratum in: Otolaryngol Head Neck Surg. 2018 Aug;159(2):403. PMID: 29494321.

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