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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Se facilitar o acesso à PrEP, São Paulo pode zerar os novos casos de HIV

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Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

02/07/2021 04h00

Há 10 anos, quando os primeiros resultados dos ensaios clínicos foram publicados sugerindo que a Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) era um método eficaz e seguro de prevenção, havia um grande receio entre os pesquisadores em relação a qual seria o desempenho da estratégia quando implementada na vida real.

O tempo passou e os exemplos de sucesso na melhora do controle da epidemia de HIV após a implementação da PrEP começaram a se multiplicar pelo mundo.

Há alguns anos a incidência de HIV nitidamente começou a cair nas localidades que saíram na frente na expansão do acesso a esse método de prevenção, como Austrália, Estados Unidos e Inglaterra. Mais recentemente, aqui no Brasil algumas localidades entraram nessa tendência.

O estado de São Paulo é o maior exemplo disso. A PrEP passou a ser disponibilizada gratuitamente pelo SUS (Sistema Único de Saúde) no início de 2018 para populações mais vulnerabilizadas ao HIV.

Nesses 3 anos e meio de PrEP-SUS, São Paulo foi de longe o estado que mais conseguiu ampliar o acesso à PrEP, contando, até final de maio de 2021, com 17.940 usuários inscritos, o que corresponde a 48% de todas as PrEPs iniciadas no país todo.

A capital paulista, que é responsável sozinha por um terço da PrEP-SUS do Brasil, já está colhendo o resultado do seu empenho em difundir a Prevenção Combinada. Entre 2018 e 2020, presenciou a inédita queda de 25% no número de novos casos de infecção por HIV registrados anualmente.

Entretanto, entendendo que a aplicação dos conhecimentos científicos atualizados sobre prevenção é a melhor (senão a única) forma de vencer a epidemia de HIV, São Paulo quer ampliar ainda mais o acesso à PrEP.

Um dos principais gargalos para se iniciar a PrEP pelo SUS ainda é o agendamento da primeira consulta, o que depende de profissionais capacitados e serviços com vagas disponíveis. Depois que o usuário entra no fluxo de atendimento da PrEP-SUS, a rotina de acompanhamento costuma fluir bem.

Com uma demanda reprimida bastante grande e poucas vagas de primeira consulta disponíveis, algumas pessoas podem passar meses em busca de um serviço que as acolha. Meses em que podem acabar se infectando com o HIV.

Para tentar melhorar esse gargalo, a Coordenadoria de IST e HIV/Aids do Município de São Paulo criou o Projeto PrEP na Rua, uma ação com cara de mutirão de triagem e inclusão de indivíduos ao seguimento da PrEP-SUS, realizado fora do horário comercial e em um local de alta circulação de potenciais usuários.

A primeira edição do PrEP na Rua aconteceu no último domingo (27/6), no Minhocão, um viaduto de São Paulo que aos finais de semana é fechado para os carros e se transforma num misto de praia, parque e pista de corrida/ciclismo, frequentado por quem mora na região central da cidade.

Ao longo do dia foram distribuídos mil autotestes de HIV, realizados 240 testes rápidos para HIV e, depois de uma avaliação por um profissional da saúde, iniciada a PrEP para 114 pessoas interessadas e com indicação. Essas pessoas foram então encaminhadas para o serviço de saúde mais próximo das suas residências para um primeiro retorno da PrEP dentro de 1 mês.

A Prefeitura de São Paulo planeja uma nova edição do PrEP na Rua no Minhocão para agosto desse ano, e uma agenda de outras edições em outros pontos de circulação em outras regiões da cidade. Fique atento à programação do Projeto PrEP na Rua pelas redes sociais da Coordenadoria de IST HIV/Aids (@istaidssp).

Outra ação conjunta do município e estado de São Paulo é o início, a partir de julho/21, da dispensação do medicamento da PrEP gratuitamente pelo SUS para os usuários atendidos no sistema de saúde suplementar (convênios e particular). A ação faz parte de um projeto piloto capitaneado pelo Ministério da Saúde que será realizado, além de São Paulo, no Rio de Janeiro, Paraná, Bahia e Amazonas.

Essa mudança pretende simultaneamente desafogar os serviços públicos que atendem PrEP-SUS, melhorando a qualidade do atendimento neles prestado, e ampliar o número de pessoas em PrEP no país. Para obter mais informações sobre esse tema, converse com um infectologista.

As duas ações citadas acontecem em um momento muito oportuno. Os medicamentos da PrEP faziam parte de uma lista de itens que se beneficiavam da isenção do ICMS e a compra no mercado privado era uma saída para quem não conseguia entrar no PrEP-SUS.

No entanto, por meio de um decreto de outubro/20 (Dec. 65.255/2020), o Governo do Estado de São Paulo retirou a PrEP dessa lista, fazendo com que o seu preço nas farmácias aumentasse em cerca de 76%.

A ampliação do acesso à PrEP e a qualquer método de prevenção ao HIV, seja por meio de distribuição gratuita pelo SUS ou por isenção de impostos para aqueles que optam por comprar no mercado privado, deve ser o norte para todos os gestores de saúde quando pensamos no enfrentamento da epidemia de HIV. É assim que Nova York, São Francisco e Londres pretendem zerar os novos casos de HIV.

Qualquer obstáculo que houver no acesso à prevenção do HIV terá como resultado novos casos dessa infecção, o que por sua vez vai trazer ainda mais gastos ao Estado e adiar o controle efetivo dessa epidemia.

Por fim, proponho que estejamos atentos tanto para celebrar os avanços e exemplos de São Paulo, quanto lutar contra os retrocessos.

#PrEPPARAQUEMPRECISA

#ISENÇÃOPARAAPrEP

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL