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Rico Vasconcelos

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Enquanto a ciência avança, programa brasileiro de HIV/Aids parou em 2018

Rico Vasconcelos

Médico clínico geral e infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, trabalha desde 2007 atendendo pessoas que vivem com HIV e com pesquisas clínicas no campo da prevenção do HIV e outras ISTs. Participou como pesquisador de importantes estudos de PrEP, como o iPrEX e do Projeto PrEP Brasil, e na implementação da PrEP no SUS (Sistema Único da Saúde). É coordenador clínico de estudos de PrEP de longa duração e de vacina preventiva contra o HIV no Centro de Pesquisas Clínicas do HC-FMUSP. Concluiu seu doutorado sobre PrEP e ISTs na FMUSP e atua difundindo e democratizando o conhecimento científico atualizado sobre a temática da prevenção e tratamento do HIV e outras ISTs. Desenvolve atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável. CRM/SP 116.119, RQE Clínica Médica 88317 e RQE Infectologia 88318

Colunista do UOL

18/06/2021 04h00

No final de maio, o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), órgão estadunidense responsável pelas epidemias de doenças transmissíveis, divulgou o rascunho daquele que será o novo e atualizado protocolo clínico de PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) ao HIV daquele país. E o documento é uma verdadeira revolução na prevenção do HIV.

Quando o assunto é HIV, de fato os Estados Unidos costumam sair na frente na incorporação das novas tecnologias desenvolvidas. No caso da PrEP em comprimidos diários, por exemplo, depois da publicação em 2010 dos primeiros ensaios clínicos que comprovavam sua eficácia e a segurança na prevenção do HIV, já em 2012 os EUA começaram a recomendar o seu uso.

Só para se ter uma ideia, a OMS (Organização Mundial da Saúde) passou a indicar o uso da PrEP apenas em 2015, enquanto o Brasil incorporou a tecnologia ao SUS (Sistema Único de Saúde) somente no início de 2018.

O novo protocolo de PrEP norte-americano é revolucionário porque incorpora todo o novo conhecimento acumulado sobre prevenção de HIV desde a sua última atualização em 2017.

As novidades do protocolo são várias, como por exemplo a orientação para a informação sobre a existência e disponibilidade da PrEP para absolutamente todas as pessoas com vida sexualmente ativa, e não apenas para indivíduos que fazem parte de grupos de maior vulnerabilidade ao HIV, como homens gays e bissexuais, pessoas transexuais ou usuários de drogas injetáveis.

Agora, a PrEP em comprimidos poderá ser usada por qualquer adolescente com mais de 35 kg de peso e não apenas por pessoas adultas.

Além disso, além do esquema clássico com comprimidos contendo Tenofovir + Entricitabina, passa a ser oficialmente recomendado para a PrEP entre homens gays e mulheres trans o uso da combinação Tenofovir Alafenamida + Entricitabina, esquema que apresenta toxicidade renal e óssea significativamente menor.

Temos agora a inclusão da PrEP Sob Demanda, com comprimidos que não são tomados diariamente, mas antes e depois das relações sexuais, e da PrEP injetável de longa duração com a droga Cabotegravir aplicada por via intramuscular a cada 2 meses, assim que a agência regulatória aprovar o uso desse novo antirretroviral.

Impulsionado pela pandemia de covid-19 e pelo crescimento da telemedicina, o protocolo incorpora também a modalidade de acompanhamento online não presencial de indivíduos em PrEP.

O movimento de incorporação das novas tecnologias de saúde, no entanto, deveria ser natural e não algo que causa espanto. Afinal, um dos objetivos da pesquisa científica no tema do HIV é aprimorar os processos de prevenção, diagnóstico e tratamento dessa infecção. Apesar disso, o que vemos no Brasil é algo bem diferente.

O Programa Brasileiro de HIV/Aids, que já foi considerado um exemplo a ser seguido pelo resto do mundo, hoje encontra-se estagnado. Como se tivesse parado em 2018.

Não quero dizer com isso que as conquistas e tecnologias de prevenção e tratamento do HIV já disponíveis no SUS não são boas nem eficazes, mas trazer a dimensão do tempo que já passou desde a última atualização dos protocolos brasileiros, e das oportunidades que estamos como nação deixando de aproveitar no enfrentamento dessa pandemia.

Não podemos, no entanto, deixar de fazer a observação crucial de que a maior diferença entre os sistemas de saúde dos Estados Unidos e do Brasil está na atenção universal e gratuita prestada pelo SUS, enquanto a norte-americana é na sua grande maioria privada.

Essa diferença faz com que as mudanças nas recomendações e incorporações de tecnologia aqui sejam sempre mais complexas e demoradas, mas não podemos deixar de cobrar por melhorias e atualizações.

Nos 40 anos de epidemia de HIV, a participação e cobrança da sociedade civil foi determinante na construção do atual Programa Brasileiro de HIV/Aids. Não é agora, com tantas novas tecnologias de prevenção, que vamos deixar de lutar por um SUS moderno e eficiente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL