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Rico Vasconcelos

11 de outubro é o Dia Internacional da Saída do Armário

Sasirin Pamai/EyeEm/Getty Images
Imagem: Sasirin Pamai/EyeEm/Getty Images
Rico Vasconcelos

Médico infectologista formado pela Faculdade de Medicina da USP, Rico Vasconcelos trabalha e estuda, desde 2007, sobre tratamento e prevenção do HIV e outras ISTs. É coordenador do SEAP HIV, ambulatório especializado em HIV do Hospital das Clínicas da FMUSP, e vem participando de importantes estudos brasileiros de PrEP, como o iPrEX, Projeto PrEP Brasil, HPTN083 (PrEP injetável) e na implementação da PrEP no SUS. Está terminando seu doutorado na FMUSP e participa no processo de formação acadêmica de alunos de graduação e médicos residentes no Hospital das Clínicas. Também atua na difusão de informações dentro da temática de HIV e ISTs no Brasil, desenvolvendo atividades com ONGs, portais de comunicação, agências de notícias, seminários de educação comunitária e onde mais existir alguém que tenha vida sexual ativa e possua interesse em discutir, sem paranoias, como torná-la mais saudável.

Colunista do UOL

09/10/2020 04h00

No próximo domingo, dia 11 de outubro, é comemorado desde 1988 nos Estados Unidos o National Coming Out Day, que pode ser traduzido livremente como o Dia Nacional da Saída do Armário. De lá para cá, a data já se popularizou e é celebrada também em diversos outros países do mundo.

A data foi escolhida como referência à histórica Marcha pelos Direitos de Gays e Lésbicas, que em 1979 colocou nas ruas de Washington, nos Estados Unidos, cerca de 125 mil pessoas exigindo pela primeira vez no país direitos civis igualitários e uma legislação que garantisse a proteção das minorias com sexualidades diversas.

O 11 de outubro foi criado para celebrar o ato daqueles que um dia resolveram correr os riscos de enfrentar um mundo homo e transfóbico para deixarem de viver de forma escondida a sua sexualidade e passarem a demonstrar orgulho por serem como são.

O movimento acredita que sair do armário é um ato político, que dá força à luta pela garantia de direitos humanos e serve de exemplo e suporte para quem ainda sofre com as adversidades da discriminação.

A LGBTfobia estrutural está presente diariamente na vida de todas as pessoas que têm sua sexualidade diferente da maioria cisgênero e heterossexual. Ela se faz presente tanto na forma de violência, como a que tirou a vida de 329 pessoas em 2019, como nas barreiras existentes aos direitos básicos de um cidadão.

Puxando para a minha área de atuação, já é muito estudado e conhecido no Brasil o impacto da discriminação motivada pela orientação sexual ou identidade de gênero no acesso à saúde. A cisgeneridade e a heterossexualidade presumidas, assim como a falta de qualificação dos profissionais da saúde para atender as demandas específicas de saúde da população LGBT, fazem com que essas pessoas busquem menos o atendimento nos serviços de saúde, e, quando buscam, em geral preferem não revelar sua sexualidade diversa.

Ao crescer numa sociedade que o discrimina, os jovens LGBTs têm maiores chances de serem vítimas de rejeição e isolamento. A internalização dessa LGBTfobia, por sua vez, pode levar ao sentimento de negação da sua sexualidade, além de culpa e baixa autoestima. E, por tudo isso, são mais frequentes diversos transtornos na população LGBT, tais como depressão, ansiedade, dependência química, abandono da escola e da família, distorção da imagem corporal, tabagismo, etilismo e suicídio.

Na década de 1980, em momentos iniciais da epidemia de HIV, os epidemiologistas identificaram que a disseminação desse vírus se dava na população juntamente com epidemias paralelas destes transtornos citados acima.

E a associação delas acontecia de forma sinérgica, com uma impulsionando a outra. Por exemplo, um rapaz diagnosticado com infecção por HIV tinha maiores chances de ter problemas com drogas assim como um rapaz dependente químico tinha mais riscos de se infectar por HIV. A existência dessas múltiplas epidemias concorrentes é denominada de sindemia.

A depender do lugar, do contexto e da cultura de uma sociedade, sair do armário pode não ser algo fácil nem seguro e, por isso, o ato de quem o fez deve ser valorizado. Ao sair do armário todo um subgrupo sai da invisibilidade e começa a existir, trazendo à luz suas demandas.

Sair do armário não é a solução definitiva para a carência de saúde integral da população LGBT, mas é um grande primeiro passo. Uma solução verdadeira seria a abordagem séria e abrangente dos elementos da sindemia, a começar pela LGBTfobia estrutural.

No dia 11 de outubro vamos celebrar e apoiar aqueles que escolheram existir.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL