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REPORTAGEM

O que significa dizer que, um dia, a covid-19 será uma doença endêmica

Imagem: iStock
Lúcia Helena

Colunista do UOL

27/01/2022 04h00

O pessimista garante que esse tormento, a pandemia, não terá um fim tão cedo, mas ele pode estar tremendamente errado. O avanço da vacinação mundo afora — leia, se a vacina chegar inclusive ao braço de quem vive em países onde ainda hoje ela mal engatinha — e o surgimento de imunizantes de segunda geração, que contemplam as versões mais recentes do Sars-CoV 2, são exemplos de fatores que podem fazer o pessimista perder a sua aposta.

Já o otimista, ao vislumbrar o futuro da pandemia, acredita que 2022 seja sua reta final, mas ele pode estar tremendamente errado também. Entre outros motivos porque, ao se espalhar como poeira ao vento, ômicron cria mais oportunidade do que suas antecessoras de sermos assombrados por novas variantes e uma delas pode nos fazer voltar dez casas nesse tabuleiro. Aí, o otimista cai do cavalo e, se estiver sem máscara, ainda se contaminará.

A verdade é que ninguém é capaz de cravar uma data para essa chatice acabar. Mas um ponto é este: um dia ela acaba. Não existe na história da humanidade uma pandemia sem ponto final.

Só que, quando isso acontecer, mais cedo ou mais tarde, não pense que o vírus irá sumir do mapa-múndi. A covid-19, então, se tornará uma doença endêmica, como você já deve ter ouvido falar. "É o que podemos afirmar, até pela experiência com outros vírus respiratórios", conta o infectologista Alberto dos Santos de Lemos. E é bom a gente ter uma visão clara do que isso significa, porque nem sempre é tão óbvio assim.

A definição, de bate-pronto, até soa simples: "Uma doença é endêmica quando já esperamos um determinado número de casos anualmente", explica o doutor que, além de atuar no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), integra a equipe do Laboratório de Pesquisa em Imunização e Vigilância em Saúde da Fiocruz.

No entanto, saber que teremos de conviver com o Sars-CoV 2 para todo o sempre não quer dizer que essa convivência será pacífica, como se, por se tornar endêmico, ele virasse menos ameaçador. O vírus continuará sendo o mesmo. O que deve mudar é a quantidade de suas vítimas — um número menor do que o destes tempos e com a tendência de ser mais ou menos igual a cada ano.

Alberto de Lemos dá um exemplo: "A malária, na região da Amazônia, não foi eliminada e é uma doença endêmica". De fato, perto de 90% dos 153.296 casos da doença no Brasil reportados ao longo de 2019 aconteceram por lá.

Contudo, apesar de ser tratável, ninguém em sã consciência vai imaginar uma agradável convivência com o mosquito que transmite o plasmódio causador dessa infecção. Até porque, se uns têm febre alta, dores que parecem explodir cabeça e extremo cansaço, outros amargam formas graves da malária, as quais provocam anemias bem perigosas.

E é de um jeito parecido que a ciência enxerga o futuro da covid-19: quando a pandemia passar, a doença deverá provocar um número relativamente aceitável de vítimas ano após ano. "Mas, entre as pessoas infectadas, uma pequena parte sempre poderá desenvolver quadros graves", lembra Alberto de Lemos.

Um dos riscos das doenças endêmicas

Também não é para esquecer que um vírus como o Sars-CoV 2 sempre apronta, quero dizer, sofre mutações — bem, com tanta letra grega se referindo às suas variantes, não dá mesmo para a gente ignorar esse talento para causar más surpresas.

"A questão é que qualquer coisa diferente pode fazer uma doença endêmica sair do controle", informa o médico. "Daí, surgem surtos ou epidemias. Isto é, há um aumento explosivo no número de casos por um determinado período." Quando isso acontece, aquela estimativa anual vai para o brejo.

Parênteses: o curioso é que, em outras línguas, os médicos não dão significados diferentes para termos equivalentes a "surto" e "epidemia". "No Brasil, porém, é uma espécie de tradição chamar de surto a explosão de casos em um espaço físico relativamente pequeno, como uma escola, um bairro ou até mesmo uma cidade", esclarece Alberto de Lemos. "Já uma epidemia seria quando a infecção se alastra por uma área que, do ponto de vista geográfico, é maior. Um país, por exemplo."

O que importa: para que sejam evitados surtos ou epidemias, a covid-19 exigirá que os cientistas fiquem de olho nela constantemente, fazendo a famosa vigilância epidemiológica. Isso, aliás, nem é novidade. A vigilância epidemiológica já é realizada em muitas infecções.

Mas, até lá, o vírus não poderá se tornar "mais fraco"?

É a impressão equivocada que ômicron deixa em muitas pessoas — a de que o vírus está aprendendo a conviver de boa com a gente e que, portanto, a covid-19 estaria a um passinho do que, no imaginário delas, seria uma doença endêmica.

Já eu diria que, se fosse um lobo, essa variante estaria vestida em pele de cordeiro. Sem querer ser desagradável ao chamar para a realidade, só ontem, dia 26, foram mais de 600 brasileiros mortos por causa da ômicron.

Sim, é verdade que existem estudos indicando que essa variante seria menos agressiva. Em um deles, talvez o mais alardeado, cientistas americanos e japoneses compararam camundongos infectados por variantes diferentes de coronavírus.

A conclusão foi que ômicron provocou menos danos aos pulmões dos animais do que outras cepas do Sars-CoV 2. Mas, atenção, muitos trabalhos apontando nessa mesma direção ainda não foram revisados e, sendo assim, não dá para bater o martelo de que seria isso mesmo.

É bastante interessante a suspeita de que ômicron invadiria os pulmões — "não tem muito essa de que ela ficaria apenas no nariz e na garganta", me disse o doutor Alberto de Lemos —, mas não faria suas células dispararem os sinais que culminariam em uma reação inflamatória tão forte.

"Ainda não está claro por que isso aconteceria", diz o médico. "Mas, quando compreendermos o que está por trás, será muito bom: talvez nos leve a descobrir uma maneira de fazer com que a covid-19 danifique menos os pulmões."

No entanto, mesmo assumindo que ômicron possa causar menos quadros graves em relação às variantes anteriores, para o infectologista isso por si só não justifica o padrão de adoecimento que estamos vendo por aí. Ele se refere à constatação de existir uma incidência bem menor de casos severos entre os indivíduos vacinados.

A contribuição da vacina

Claro, a gente sempre ouve falar de alguém que, mesmo com sua carteira de vacinação em dia, viu o teste dar positivo e foi parar no hospital. Mas, nessas horas, não dá para tirar conclusões em cima de números absolutos, de acordo com Alberto de Lemos.

O que está acontecendo no hospital da UFRJ, onde o infectologista trabalha, ilustra isso muito bem: "Eu, agora, tenho umas 50 pessoas internadas por causa da covid-19", ele me conta "E, se você olhar, mais de trinta tomaram a vacina. Sabendo disso, talvez ache que a vacinação não funciona, já que mais da metade dos pacientes recebeu suas doses, certo? Errado!"

Ele diz isso porque, no Rio de Janeiro, quase 90% da população está vacinada e, fazendo uma projeção, esses 30 casos sugerem que apenas uma pequena parcela dessas pessoas precisou de internação.

Em contrapartida, aqueles vinte pacientes restantes, não vacinados, apontam que, entre os que não tomaram a injeção, quase metade pode acabar doente pra valer ao ser infectada por ômicron.

"Sinal de que a vacina faz a diferença e que não estamos vendo casos mais leves só porque essa variante seria menos agressiva", deduz o médico, que está para lançar o livro "Doenças Infecciosas: Diagnóstico e Tratamento nos Serviços de Urgência e Emergência" (Ed. Manole).

Segundo ele, vale ressaltar que, entre os internados que já tinham sido vacinados, a maioria ou é gente muito idosa ou portadora de doenças graves, como insuficiência cardíaca, que acabam descompensando com a infecção e exigindo cuidados especiais.

De certo modo, seguiremos desse jeito quando a covid-19 for endêmica. Assim como ocorre com a gripe, que pode ser devastadora para quem é mais velho ou tem certos problemas crônicos de saúde — por ironia, só nos esquecemos do quanto uma gripe pode ser cruel e até matar graças à vacinação contra o influenza —, no mínimo esse público mais vulnerável precisará de reforços periódicos. Ou, quem sabe, todos nós vamos ter de visitar o posto de vacinação de tempos em tempos para manter o coronavírus sob rédeas bem curtas.

A convivência com o Sars-CoV 2 nunca será pacífica. Mas, com vacina para todos, poderá se tornar tolerável. Um dia... E não vejo a hora de ele chegar.

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