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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Qualquer um teria medo da vacina ouvindo alguma dessas 9 fake news

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

23/12/2021 04h00

Entre aquelas pessoas que ainda não foram se vacinar contra o Sars-CoV 2 ou que, por causa de uma leve quebradeira no corpo logo após a primeira dose, estão adiando a data da segunda injeção e fantasiando reações bem piores, existe gente que sabe muito bem que a Terra é redonda e que a ivermectina é remédio para acabar com piolho. Gente que, antes, tomava vacina contra outras doenças de boa, mas que deu para ficar com medo. E eu entendo.

A essa turma, agora, somam-se pais que se vacinaram contra a covid-19, longe de serem negacionistas de carteirinha, mas que foram contaminados pela nova onda. Do vírus? Não! De notícias falsas a respeito da imunização de crianças. E esses eu entendo mais ainda.

Se bobear, tão contagiosas, velozes e potencialmente letais quanto as variantes do coronavírus são as mentiras que se espalham por aí. Nos últimos dias, mergulhei no universo paralelo dos que disseminam o terror. Bisbilhotei postagens em grupos virulentos, textos dignos de literatura ficção e assisti a vídeos feitos para abalar a confiança. Alerta de spoiler: morri.

Então, para esclarecer aqueles que foram infectados pelo mal da boataria, resolvi procurar três médicas da diretoria da SBIm ( Sociedade Brasileira de Imunizações). Elas contam o que a ciência sabe de verdade diante das histórias da carochinha que andam contando por aí. E vamos combinar o seguinte: ômicron não é presente de Natal. Aliás, se o Bom Velhinho existisse, ele traria vacina para a criançada.

"O que chamam de vacina da covid-19 nem é vacina"

Esta frase bagunça o raciocínio dando a entender que todo mundo está comprando gato por lebre, tomando qualquer coisa, menos vacina. E, pronto, a pulga vai parar rapidinho atrás da orelha: o que seria então?

"Essa dúvida não tem o menor cabimento", rebate Mônica Levi, médica especializada em pneumopediatria e atual presidente da Comissão Técnica para Revisão dos Calendários Vacinais da SBIm.

Você sabe bem : a pandemia gerou uma busca acelerada por vacinas capazes diminuir a incidência de casos graves e mortes por covid-19. Nenhuma possibilidade de saída desse caos foi esnobada pela ciência, que testou vários caminhos. Ou melhor, várias tecnologias. E, felizmente, algumas delas deram certo.

"Dessa maneira, existem vacinas de vírus inteiro inativado, como é a CoronaVac", exemplifica Mônica. "Temos as de RNA mensageiro, que é o caso do imunizante da Pfizer. Temos, ainda, as de vetor viral, que levam a informação do Sars-CoV 2 dentro de um outro vírus. A vacina da AstraZeneca, a da Janssen e a russa Sputinik V são assim. E, embora por enquanto não exista essa tecnologia no Brasil, surgem vacinas feitas com partículas de proteínas, como a Novavax."

Segundo a médica, elas podem ser bem diferentes, mas todas se encaixam na definição de uma legítima vacina: "Ou seja, são substâncias com o objetivo de induzir a formação de anticorpos e desencadear a imunidade contra um agente infeccioso". Negar isso seria como alegar que cirurgia robótica não é uma operação só por ser uma novidade na Medicina.

"Com as vacinas, nunca se viu tanta gente morrendo por causa de coágulos"

Mônica Levi esclarece mais esta: "Existe uma vigilância de efeitos adversos. E, após milhões e milhões de doses já terem sido aplicadas, foram registrados episódios raros de um problema nas plaquetas do sangue, caracterizado pelo aparecimento de trombos", reconhece.

Ok, esse é o pedaço verdadeiro da informação. Mas fake news que se prezem pegam um dado real como ponto de partida para, daí, distorcê-lo. Nessa caso...

"Primeiro, isso só ocorreu com as vacinas de vetor viral e com indivíduos que já apresentavam predisposição a problemas de coagulação. Vale eu repetir que esses eventos foram raríssimos", frisa a médica.

É bem mais frequente alguém morrer de trombose por causa da própria covid-19. Fique sabendo, ela faz o corpo formar coágulos como, talvez, nenhuma outra doença conhecida.

"A vacina de RNA mensageiro altera os nossos genes"

"Não existe ideia mais errônea do que essa", garante a pediatra Flávia Bravo, presidente da SBIm - Regional Rio de Janeiro. "Ora, o RNA mensageiro não se integra ao nosso genoma e, portanto, não tem como modificá-lo."

Quando uma célula é infectada pra valer, ela logo passa a fazer cópias e mais cópias do coronavírus que, desse modo, vai dominando o organismo. No caso da vacina de RNA mensageiro, porém, o que entra na célula é apenas essa partícula, levando a informação de como seria a famosa proteína S do coronavírus. Esse RNA mensageiro nem chega perto do núcleo, onde estão os genes.

Com a vacina, em vez de produzir o vírus inteiro, a célula criará cópias apenas da tal proteína S, levando o sistema imune a gerar seus anticorpos. "Na sequência, a partícula de RNA mensageiro desaparece", informa Flávia Bravo.

Já as réplicas da proteína S viral, produzidas pelo organismo vacinado, são destruídas pelos anticorpos recém-formados. Não sobra nada, a não ser a bem-vinda memória imunológica. E, portanto, não tem como você virar outra coisa — jacaré ou o que for.

"Doses adicionais causam efeitos adversos cumulativos"

Este é um medo fresquinho, agora que todo mundo está sendo convidado a tomar a terceira ou, no caso dos imunossuprimidos, a quarta dose da vacina. "Mas não existe qualquer evidência científica disso", dispara a pediatra Isabella Ballalai, vice-presidente da SBIm, encerrando depressa a conversa sobre mais uma mentira.

"Nunca tomei vacina e nunca tive nada"

Esta é aquela frase que faz o cidadão sortudo, aquele que escapou até agora, começar a questionar se ele precisaria mesmo de um carimbo para chamar de seu na carteirinha de vacinação.

"Uma infecção pode atingir qualquer pessoa, até aquela saudável, que nunca adoeceu", comenta Isabella Ballalai. "Por essa razão, existem vacinas." Parece óbvio.

Além disso, embora as pessoas vacinadas continuem passando o Sars-CoV 2 adiante, a capacidade de transmissão se torna menor. Logo, quando uma pessoa que se considera fora dos grupos de risco se vacina, ela está contribuindo para diminuir a circulação do vírus e, assim, acabar com esse pesadelo que foi ruim para todos, à esquerda e à direita.

"Por que vacinar crianças, se o número de casos graves e de mortes entre elas é pequeno?!"

Número pequeno? Depende do ponto de vista. "Se a gente olhar para idosos, adultos com comorbidades ou imunossuprimidos, eles adoecem proporcionalmente mais. Isso não significa que os números da covid-19 em crianças sejam negligenciáveis, longe disso. Aliás, eles são muito altos", opina a pediatra Flávia Bravo.

Ela lembra que mais de 10 mil crianças brasileiras foram internadas em 2020 por causa da covid-19. "E, neste ano de 2021, esse número até aumentou." A explicação para isso é clara: uma vez que a vacinação avançou entre adultos e adolescentes, a população infantil, ainda não imunizada, fica mais exposta e vulnerável ao vírus.

De acordo com a médica, nos últimos doze meses, 2.978 casos graves aconteceram em meninos e meninas entre 5 e 11 anos, justamente a faixa de idade cuja vacinação está causando tanto auê agora. E, lamento, 145 dessas crianças morreram. Nesse ponto, a realidade é mais dura do que as fake news: a covid-19 já mata mais crianças do que qualquer outra infecção pediátrica no país.

"Ninguém sabe o que acontecerá no futuro com as crianças que tomarem a vacina"

Bem, a gente já sabe que elas terão um futuro, porque não morrerão de covid-19. O que ninguém sabe, aliás, são as consequências da covid-longa — fenômeno que a ciência ainda mal compreende, até mesmo em adultos. O que ela causará em quem pega a doença quando o organismo ainda está em pleno desenvolvimento?

"O conceito da criança servindo de cobaia por trás dessa preocupação com o seu futuro é falso. Não estamos usando vacinas experimentais", reforça Flávia Bravo. "As vacinas de RNA mensageiro estão sendo pesquisadas há década e, na pandemia, aproveitou-se essa tecnologia com estudos em andamento no combate ao Sars-CoV 2. Mas bom esclarecer que não se pulou nenhuma etapa do seu desenvolvimento. Sem contar que já existem milhões de crianças vacinadas em outros países. Nelas, não foi observado nenhum efeito adverso preocupante."

"As vacinas contêm metais pesados que causam intoxicações"

De onde vem esse papo? "O mercúrio é um dos componentes do timerosal, um conservante usado em vacinas desde os anos 1930 em concentrações muito baixas, tão pequenas que não oferecem riscos à saúde e que o organismo consegue, sim, eliminar em seguida", ensina Mônica Levi.

Para você ter noção, o uso do timerosal é autorizado pela Organização Mundial de Saúde. E, nas vacinas com o conservante, a concentração de mercúrio fica em 25 microgramas para 0,5 mililitro — uma quantidade bem menor, segundo Mônica Levi, do que aquela que você ingere ao consumir uma lata de atum, por exemplo.

Não é qualquer vacina, porém, que contém a substância. Se o frasco é de dose individual, ele não terá o conservante, que é usado apenas nas vacinas multidoses, como a da campanha anual da gripe do Ministério da Saúde, evitando que se contaminem com fungos, bactérias e outros microorganismos entre uma injeção aplicada e outra.

Aliás, toda essa explicação é só para neutralizar esse medo quando chegar a época em que você for se vacinar contra o vírus influenza responsável por quadros gripais. Isso porque — agora vem a pérola! — não existe timerosal, mercúrio, nem sequer outro metal pesado nas vacinas contra a covid-19. Nem um pingo. "Esse é o motivo pelo qual, no caso delas, os frascos abertos duram tão pouco tempo", explica Mônica Levi.

"A autora do texto morreu ao tomar a segunda dose"

Isso estava publicado em um grupo antivacina, com comentários ricos em detalhes sobre a minha suposta passagem. Sim, o texto era meu. Fico pensando no que é pior: quanta gente já não se impressionou ao ler sobre a morte súbita de alguém após tomar a vacina?

Os porta-vozes das fake news sobre vacinação nem se preocupam com a possibilidade de você conferir se continuo publicando minha coluna por aqui — e certamente eu não a escreveria do além. Sendo assim, eles muito menos apostam que poderão ser checadas suas lorotas pseudo-científicas sobre genes alterados, metais pesados, crianças cobaias e afins. Não deixe que lhe subestimem. Cheque tudo e fique imune em 2022. Ao coronavírus e à boataria.