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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

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Covid-19: o que de fato sabemos sobre como fica a imunidade após vacina

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Imagem: iStock

Colunista do UOL

14/09/2021 04h00

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Será que a proteção oferecida pelas vacinas contra a covid-19 não duraria grande coisa e que todos nós, sem exceção, precisaremos de uma nova dose de imunizante logo mais?

A questão da eventual necessidade de um reforço, que agora parece estar na boca do povo, foi colocada à mesa de discussão desde o início dessa história, quando a corrida atrás de uma vacina contra o Sars-CoV 2 mal tinha dado a largada. Afinal, trata-se de um coronavírus e quem entende de viroses sabe que os coronavírus, em geral, não geram uma memória imunológica das mais perenes.

Mas, enfim, desta vez tudo é muito novo, a começar pelo próprio causador da pandemia. Além disso, são populações bem diferentes entre si afetadas pela doença que, para completar, pode ser assintomática em uns e terrível em outros.

Existem, ainda, as tais variantes do vírus de um lado e, de outro, um sortido de vacinas que a Medicina jamais viu. Em um cenário assim, com tantas variáveis, tudo é capaz de acontecer e, quem sabe, a surpresa pode ser boa, por que não?

Ainda ontem, por exemplo, a revista The Lancet publicou um artigo afirmando: a proteção das vacinas não cai tanto após a segunda dose a ponto de elas deixarem de funcionar para evitar formas graves da covid-19.

O texto é assinado por cientistas de algumas instituições espalhadas pelo mundo, como a Universidade de Washington e a da Flórida, nos Estados Unidos; as britânicas Universidade de Oxford e a de Bristol; a Universidade de Paris e outras tantas, mais a Organização Mundial de Saúde.

Os pesquisadores se debruçaram sobre nada menos do que 93 estudos envolvendo várias vacinas, incluindo a da Pfizer, a da AstraZeneca e a CoronaVac — trio que interessa a nós, brasileiros, já que é aplicado por aqui.

Após uma análise criteriosa, os autores declaram que não há a necessidade de todo mundo sair tomando a dose de reforço, a qual deveria ser guardada apenas àqueles com imunossupressão ou para pessoas idosas que não alcançaram uma proteção adequada com as duas primeiras aplicações.

Mas não ficou assim tão surpreendido com essa informação quem teve a chance de acompanhar a XXIII Jornada Nacional de Imunizações, evento promovido pela SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), que reuniu cerca de 2.500 pessoas ao longo de três dias. Lá, alguns palestrantes já falavam dessa possibilidade.

O reforço não seria necessário para todo mundo

No sábado (11), durante a discussão sobre o que sabemos hoje a respeito das vacinas da covid-19 na jornada da SBIm, o infectologista Alberto Chebabo, diretor do Hospital Clementino Fraga Filho da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e gerente de relacionamento médico da Dasa, mostrou uma série de dados.

Eles apontam que, sim, a efetividade dos imunizantes caiu após a chegada da variante delta, se a gente a compara com alfa, a variante britânica. Foi de cerca de 93% para 88%, no caso da vacina da Pfizer, e de 75% para 67% , em média, na da AstraZeneca. Fato.

"No entanto, após uma queda exponencial no início, o que se nota é que os anticorpos tendem a se estabilizar ligeiramente", explicou o médico, expondo gráficos. Ou seja, eles continuam caindo, mas em uma velocidade bem menos acelerada. Boa notícia.

"Daí que, tirando o caso de certos idosos e imunossuprimidos, a dose de reforço talvez não seja mesmo necessária, ao menos neste momento", afirmou Chebabo, ressaltando que, no restante da população adulta vacinada, a queda de efetividade até fez com que mais gente pegasse a covid-19, é verdade. Mas, na maioria absoluta das vezes, os quadros foram brandos.

"Será, então, que vale a pena fazer o reforço apenas para evitar que alguém tenha a doença leve e, vejam bem, sem a garantia de oferecer essa proteção extra ou que ela não voltaria a cair depois de quatro ou seis meses?", questionou.

Por trás da provocação, a preocupação dele e de vários palestrantes da jornada da SBIm é também com a distribuição de vacinas mundo afora. Enquanto países mais abastados oferecem, afoitos, o reforço para todos os que completaram o seu esquema vacinal há mais de seis meses, existem lugares do planeta onde menos de 10% da população tomou a primeiríssima dose de qualquer vacina contra a covid-19.

Levar a vacinação a esses lugares não é só uma questão humanitária — é de inteligência. Sem proteção, as pessoas se tornam berçários de novas variantes, as quais eventualmente podem escapar das vacinas. E aí mesmo é que talvez não haja reforço capaz de blindar os mais ricos, nem os mais pobres.

Fazer teste para checar a proteção da vacina é bobagem

Com a chamada para que brasileiros idosos e imunossuprimidos voltem à fila de vacinação a partir deste mês, a fim de receberem uma terceira dose ou reforço, eis que surge uma nova tribo — como se já não bastasse a dos sommeliers de vacina. Eu me refiro aos auditores da imunidade, que correm ao laboratório atrás de exames capazes de comprovar se a injeção no braço lhes rendeu anticorpos ou, mais tarde, se eles continuam por lá.

"Não devemos estimular as pessoas a fazerem testes sorológicos com essa finalidade. Mas é quase impossível não oferecê-los diante da pressão", constata Celso Granato, professor de infectologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e diretor clínico do Grupo Fleury.

Segundo ele, estamos lançando mão de testes usados em diagnóstico em um contexto um tanto inédito. "Pare para pensar: ninguém nunca pediu uma sorologia de anticorpos contra o influenza depois de tomar a vacina da gripe para saber se ela era boa ou não, se deu certo ou não", observa.

No caso da covid-19, porém, tem gente que pede. Mas existem bons motivos para você deixar essa ideia de lado, se é que ela já passou pela sua cabeça. Em primeiro lugar, testes diferentes podem dar resultados diferentes. Aliás, por isso os laboratórios usam sempre dois métodos de análise. Um mesmo teste, por sua vez, pode dar um resultado diverso conforme a época em que é feito — se tantos dias após a vacina ou a infecção pra valer.

E, para completar, os testes sorológicos não usam o legítimo Sars-CoV 2 por questões de segurança. Em seu lugar, empregam uma solução com um RBD sintetizado em laboratório — uma espécie de cópia fiel daquele pedacinho específico da proteína "S" do coronavírus que se liga nas nossas células — para ver se há anticorpos tentando neutralizá-los. O problema é que a imitação não é a do RBD da nossa variante gama surgida em Manaus ou da delta.

"Mas, acima de tudo, os testes sorológicos não contam a história da proteção completamente porque anticorpos não são tudo, especialmente quando se trata de uma infecção viral", explica o professor Granato.

Entenda: o vírus precisa entrar em uma célula para se multiplicar. Depende totalmente disso, ao contrário de uma bactéria, que consegue se replicar em qualquer canto. Ele, por sua vez, mal sai de uma e já infecta outra. Acontece que é do lado de fora das células que os anticorpos agem — justo ali, onde o vírus pouco fica.

Por isso, os anticorpos não são a melhor arma para barrá-lo. O que interessa pra valer é a imunidade celular, isto é, linfócitos de defesa capazes de reconhecer as células infectadas e acabar com a festa do Sars-CoV2 em seu interior. Mas, enquanto é relativamente fácil para dosar anticorpos, os exames que analisam esse segundo tipo de resposta imune não são encontrados em cada esquina. Complexos, só são realizados para fins de pesquisa.

Se o teste de anticorpos dá negativo, não estou protegido?

Nada disso. Existe, é verdade, o que é chamado de correlato de proteção. "Ou seja, os níveis de anticorpos neutralizantes são altamente preditivos de que a pessoa desenvolveu também a imunidade celular, conforme apontam alguns estudos mais recentes", explica Celso Granato.

Mas a recíproca nem sempre é verdadeira — aí é que está. Em um dos trabalhos que o professor apresentou no evento, os pesquisadores acompanharam pacientes com quadros leves de covid-19. Pois bem: 60 dias após o início dos sintomas, 17% dos indivíduos já tinham resultado negativo no teste para detectar anticorpos. Afinal, é sabido, eles tendem a diminuir um bocado ou até a desaparecer com o tempo. No entanto, 78% dessas pessoas apresentavam uma boa resposta celular.

Hoje, vários estudos demonstram que o mesmo costuma acontecer com uma parcela dos vacinados. Eles ficam sem anticorpos, mas com a tal resposta celular. Logo, se fazem o teste, se desesperam à toa. "Por isso, o resultado da sorologia não funciona para dizer se alguém precisa de reforço ou não", avisa Celso Granato.

Pergunto o que funcionaria, então. "Os dados os epidemiológicos, isto é, se o número de casos moderados ou graves em determinada população começa a aumentar", responde o doutor.

A imunidade de quem teve covid-19 e se vacinou depois

"Aparentemente, quem teve a infecção natural e se vacinou ou quem se vacinou e, mesmo assim, pegou a covid-19 depois tende a ter um nível maior de anticorpos", contou, ainda, o infectologista Alberto Chebabo.

Mas, por enquanto, ninguém tem certeza se essa é uma real vantagem. "Apesar de os anticorpos subirem mais, a gente não sabe se essa imunidade maior é duradoura", esclareceu o médico. Pode ser que dê na mesma.

Vacinados se contaminam e transmitem a doença

Ao contrário dos imunizantes contra o sarampo, a caxumba e a rubéola, por exemplo, todas as vacinas para a covid-19 disponíveis atualmente não são consideradas esterilizantes.

Isso significa que a proteção oferecida por elas costuma se traduzir em não precisar de hospital, nem de UTI. E, claro, não morrer de covid-19. Mas, sem se cuidar, a pessoa vacinada continuará sendo contaminada e passando o vírus adiante.