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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Como fica, se a CoronaVac não tem 50% de eficácia em idosos com mais de 70?

Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do VivaBem

31/08/2021 04h00Atualizada em 31/08/2021 20h10

Muitas pessoas ficaram preocupadas após uma pesquisa liderada pela Fiocruz mostrar que, em quem tem mais de 70 anos, a CoronaVac oferece uma proteção de 46,8%, em média, contra a infecção pelo coronavírus, após duas semanas da segunda dose.

A eficácia fica abaixo dos 50%, mínimo definido pela OMS (Organização Mundial de Saúde) no ano passado para um imunizante ser aprovado para uso na população. O FDA, que é o órgão regulatório americano, e a nossa Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) adotaram o mesmíssimo crivo. Desse modo, qualquer vacina contra o Sars-CoV-2 aplicada em nossos braços superou essa porcentagem na famosa fase 3, a etapa final de estudos antes da liberação para a população.

A questão é que a vida real pode surpreender com um número diferente, talvez nem tão animador, já que pelas ruas existe uma quantidade bem maior de pessoas do que a de voluntários de um teste, todas muito diferentes entre si e com diversos problemas, sejam de saúde, sejam do ambiente onde vivem.

Nessa prova de fogo, que é uma espécie de hora-do-vamos-ver das vacinas, dois trabalhos recentes apontam que a CoronaVac nem sempre chega lá, naqueles 50%, quando injetada em idosos. E agora, como fica?

Em maiores de 90 anos apenas?

Na semana passada, o próprio Instituto Butantan fez questão de divulgar um estudo com 60,6 milhões de brasileiros imunizados entre janeiro e junho deste ano com a sua vacina, a CoronaVac, ou com a da AstraZeneca. Deles, 44% ou 26,8 milhões tinham acima de 60 anos. Os autores são das universidades federais da Bahia e de Ouro Preto, em Minas Gerais, da Universidade de Brasília, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, da Fiocruz e, ainda, da britânica London School of Higiene & Tropical Medicine.

Primeiro, a boa notícia: nos indivíduos entre 60 e 89 anos, ambas as vacinas foram consideradas eficazes para evitar a infecção pelo Sars-CoV-2 e altamente eficazes para, naqueles casos em que o vírus não foi barrado, ao menos diminuir a necessidade de ir para o hospital, ser internado em UTI e morrer. Claro, isso para quem fez tudo como mandava o figurino, isto é, tomou as duas doses de uma ou de outra vacina.

De cara, então, precisa ficar claro um ponto: a vacinação funciona. Ninguém — nem os cientistas, nem uma pessoa leiga, mas com juízo — vai falar algo diferente. No entanto, na análise por idade, os resultados com o público mais velho acendem uma lâmpada amarela.

No caso da CoronaVac, a redução no risco de hospitalização, admissão em UTI e morte foi de 84,2%, 80,88% e 76,5%, respectivamente, olhando para as pessoas com mais de 60 anos em geral. Show de bola. Só que nada foi tão maravilhoso naqueles indivíduos com mais de 90 anos.

Nessa faixa etária longeva, a redução da ameaça de ser hospitalizado ficou em apenas 32,7%, a de precisar de UTI foi de 37,2% e a de morrer, 35,4%. Ou seja, todas bem abaixo dos 50%, o mínimo esperado.

Já o trabalho liderado pela Fiocruz que citei no começo do texto aponta um desempenho menor da CoronaVac até mesmo em pessoas na faixa dos 70 anos. A pesquisa envolveu diversas universidades brasileiras, como a de São Paulo, a Estadual de Mato Grosso do Sul, a Federal de Mato Grosso, para citar exemplos, além de instituições de fora, como a Universidade da Flórida, nos Estados Unidos.

Nessa investigação, foram analisados 43.774 residentes de São Paulo septuagenários ou mais velhos. E, entre eles, a eficácia para evitar a covid-19 foi de somente 24,7% até 13 dias após a segunda dose da CoronaVac, subindo para 46,8%, em média, após duas semanas da segunda picada.

Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno: em compensação, a vacina do Butantan derrubou o risco de hospitalizações (55,5%) e mortes (61,2%), que é o que mais interessa no caso da infecção pelo Sars-CoV-2, cá entre nós.

Só vale ficar esperto para o seguinte: lembre-se que os números são os de duas semanas após a segunda dose, quando o imunizante estaria em seu apogeu no organismo. Ora, como tudo indica que a proteção oferecida pelas vacinas contra a covid-19 não dure mais do que alguns meses, caindo paulatinamente, a falta de uma margem em idosos criaria certa preocupação, se de largada eles já não alcançaram com a CoronaVac muito mais do que aqueles 50%.

A CoronaVac merece "cancelamento"?!

A pergunta acima foi feita para chocar. Mas vou dizer a você que ela chegou a passar pela cabeça de algumas pessoas como se, lá atrás, tivesse acontecido um engano ao aprovarem o imunizante do Butantan. Longe disso.

Como lembra a pediatra Mônica Levi, presidente de da Comissão de Revisão de Calendários de Vacinação da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), surpresas assim podem acontecer com qualquer — atenção, qualquer— vacina na chamada fase 4 dos estudos

E que fase é essa? "É justamente a que estamos vivendo, a da vida real, depois que essa vacina é aprovada e começa a ser aplicada em toda a população", explica.

Para a gente recapitular, a fase 1 de testes é para ver se uma candidata à vacina é de fato segura, sem causar outros males enquanto previne uma infecção, cobrindo um santo para despir outro. "Envolve pouquíssimos indivíduos, na casa das dezenas", conta a médica.

Na fase 2, o número de participantes nos testes já aumenta para algumas centenas. A avaliação de segurança segue. Aliás, ela nunca é abandonada — nem hoje, em plena farmacovigilância, quando qualquer efeito inesperado deve ser imediatamente reportado.

Voltando à segunda etapa, nela os cientistas ficam de olho na eficácia, comparando também dosagens diferentes para ver qual funciona mais sem aumentar efeitos adversos.

Já na fase 3, aquela que antecede a aprovação, são milhares de pacientes imunizados, mas eles jamais poderiam ser equiparados com os milhões nas ruas. Até porque, em geral, os testes não têm voluntários muito idosos ou com doenças capazes de abalar o sistema imunológico. "E isso não só pelo risco, mas porque já se espera que, no organismo desses indivíduos, a resposta não será a mesma", diz Mônica Levi.

No caso, um ponto positivo para a CoronaVac: nessa terceira etapa, ela foi aplicada em profissionais de saúde na linha de frente, ou seja, em gente com muito mais risco de pegar a covid-19 do que provavelmente as pessoas que participaram de estudos nessa mesma fase de outros imunizantes.

Daí que, em tese, se fosse testada com outro público, menos cercado de pessoas que contraíram o Sars-CoV-2 na época, talvez os resultados da CoronaVac na fase 3 teriam sido até melhores. Nunca vamos saber. O que sabemos no presente é que ela prova ser uma boa opção para os mais jovens.

A dúvida é se idosos deveriam tomar a CoronaVac na dose de reforço que já foi estipulada para setembro pelo governo ou se suas doses deveriam, agora, ser distribuídas em regiões nas quais ainda estão sendo imunizadas pessoas na faixa dos 30 anos, por exemplo. É nesse debate que devemos nos concentrar.

Normal: os números mudam mesmo

"Esses dados sobre vacinas são sempre extremamente dinâmicos", afirma a epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do PNI (Programa Nacional de Imunizações) do Ministério da Saúde, do qual esteve à frente ao longo de oito anos.

Segundo ela, as porcentagens de eficácia podem se modificar com o tempo, com a proteção diminuindo após certo período do esquema vacinal inicial, ou podem se revelar diferentes conforme o público analisado.

A aprovação é dada a partir de uma porcentagem para a efetividade geral de uma vacina, uma espécie de média, grosseiramente explicando. "Em outras doenças, a linha de corte para um imunizante ser considerado eficaz costuma ser até maior, de 70%. Mas, na pandemia, a OMS considerou 50%", conta Mônica Levi.

Será que a OMS fez concessão pelos apuros que a humanidade estava passando? Não exatamente. Para chegar nessa porcentagem, ela também levou em conta a proporção de pessoas ao redor do globo que seria imunizada — uma proporção altíssima na pandemia.

Com o passar dos meses, porém, é que se vê o quanto grupos específicos da população se desviam das taxas de proteção declaradas na fase 3 — para mais ou para menos. "No caso dos idosos, tende a ser sempre para menos, em função do fenômeno que conhecemos por imunossenescência", diz Carla Domingues. As defesas, com a idade, não respondem como antes.

Duas ou três doses?

Será que adiantaria aumentar o número de doses da CoronaVac em idosos para ver se, então, ela alcançaria os 50% de proteção nessa faixa etária? Talvez. Mas não faz tanto sentido pensar nisso hoje.

"Se tivéssemos vacinado apenas 30% dos idosos, por exemplo, e então notássemos que a resposta não era tão boa nesse público, até poderíamos pensar em alternativas para a CoronaVac. Mas agora essa população inteira já foi vacinada", diz, pragmática, Carla Domingues.

Mas saiba: as pessoas mais velhas que receberam a CoronaVac não perderam tempo na fila de vacinação. Até porque devemos considerar o contexto, lembrando que essa já foi a vacina mais disponível para os brasileiros e, sem ela, gente de todas as idades estaria em um mato sem cachorro.

Carla Domingues conta que, quando não há outro imunizante, deve ser aplicado aquele que está na mão, mesmo que apresente taxas relativamente baixas de eficácia. Quer um ótimo exemplo? "Em idosos, a vacina da gripe oferece uns 40% de proteção", conta a epidemiologista. "Mas não existe outro imunizante contra o vírus influenza, causador da gripe. Então, é melhor dar uma vacina que ofereça 40% do que nada."

Reforço com CoronaVac ou com outra vacina?

A partir de setembro, o governo oferecerá o reforço da imunização para idosos, dando preferência às vacinas da Pfizer ou da Janssen para esse finalidade. Mas pode acontecer de estados e municípios oferecerem a CoronaVac como uma das opções — o governo de São Paulo já deu a entender essa possibilidade.

Um reforço de vacina é dado quando, passados meses ou anos, a proteção já não é a mesma. "Mas, no caso, essa dose tem a função de fazer os níveis de anticorpos voltarem aos níveis alcançados após o esquema de vacinação primário", explica a doutora Carla Domingues."Isto é, se eu tenho um imunizante com eficácia de 50%, o reforço tende a recuperar esses 50%. Dificilmente irá superá-los. Por isso, não vejo sentido em fazer o reforço de quem é idoso e tomou a CoronaVac com esse mesmo imunizante, se ele já demonstrou uma eficácia mais baixa nessas pessoas."

Mônica Levi lembra que a Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) iniciou um estudo para ver qual seria o melhor imunizante para ser aplicado como reforço para quem recebeu a CoronaVac, incluindo repetir a dose da própria. "Mas, até que se prove o contrário, pode ser mais interessante dar o reforço com a Janssen, com a Pfizer ou até mesmo com a AstraZeneca para quem passou dos 70 anos", opina. Essa, de qualquer maneira, deveria ser uma decisão de cientistas. Levantar a bandeira da vacinação sem ouvi-los é contraditório.