PUBLICIDADE

Topo

Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Misturar vacinas contra a covid-19 tem tudo para ser a novíssima tendência

iStock
Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

08/06/2021 04h00

Tomar uma dose de determinada vacina e, na hora do reforço, tomar outra, completamente diferente, contra a mesmíssima doença — embora esta pareça uma ideia simples, fique sabendo que ela nunca foi recomendada pela Medicina.

Vou lhe dizer mais: quando você arregaça a manga para receber a injeção de um imunizante contra uma hepatite A, digamos, ou contra outra infecção qualquer, o esperado é que você receba a segunda dose do mesmo fabricante. Pois, ainda que duas vacinas sejam feitas com tecnologia idêntica, elas sempre poderão ter componentes ou cargas virais ligeiramente discrepantes, que não foram testados juntos.

Daí que a orientação vigente é só apelar para a vacina de outra marca na segunda dose em último caso, por absoluta falta de opção. Mas a pandemia de covid-19 chega para embaralhar tudo o que vínhamos fazendo, certo?

Ou melhor, ela chega embaralhando as cartas que a ciência tem na manga em matéria de imunizantes, a fim de experimentar combinações como dar a primeira dose de um tipo e a segunda, de outro, com uma estratégia totalmente diversa para acionar o nosso sistema imunológico.

Pode ser válido, seja para melhorar a resposta imune e conseguir uma nítida vantagem em relação ao adversário, o Sars-CoV2, seja para não perder o jogo por falta do que fazer. Misturar, de rotina, vacinas contra uma doença seria algo inédito. E deverá ser o que veremos em um futuro nada distante.

A necessidade de fazer combinações

Temos as vacinas que usam o Sars-CoV 2 inativado — aí, incapaz de nos causar qualquer mal — e temos também as vacinas de vetor viral, que fazem um vírus inofensivo bancar o cavalo de Tróia, levando para dentro das nossas células o presente de grego que são as informações do causador da covid-19.

Contamos ainda com a novíssima geração de vacinas que entregam ao sistema imunológico a identidade genética do inimigo, como as de DNA e as de RNA mensageiro. E isso tudo sem levar em consideração as fórmulas que seguem em testes, usando proteínas ou pedaços de proteínas do coronavírus, por exemplo. Nunca tivemos tanta variedade de imunizantes para derrotar uma única infecção e nem preciso gastar o seu tempo explicando o porquê.

São tecnologias ou, no jargão da área, plataformas com caminhos diferentes para alcançar o seguinte objetivo final: treinar as células de defesa para responderem depressa diante de uma infecção de verdade, sem dar tempo para o raio da tempestade de citocinas e o caos desencadeado pelo Sars-CoV 2

"Mas uma preocupação, desde o início das pesquisas, era se algum dia iríamos poder dar a dose de uma vacina e, depois, a de outra", conta o pediatra intensivista Juarez Cunha, presidente da SBIm, a Sociedade Brasileira de Imunizações.

Diante da demanda descomunal — praticamente toda a população do planeta precisando ser vacinada a jato para não ser extinta feito dinossauro —, não carecia ser nenhum bidu para prever que, em determinado momento, poderia faltar um imunizante específico por razões diversas, que iriam desde problemas na produção até questões de logística de distribuição.

Em casos assim, já anteviam os cientistas, será que alguém que tomou a primeira dose se veria na rua da amargura, tendo de aguardar a resolução do perrengue para completar o seu esquema vacinal? Cá entre nós, isso já acontece em diversos municípios brasileiros.

"Também imaginamos que ocorreriam alguns erros. Ou seja, as pessoas fariam esse intercâmbio sem querer, dando para alguém uma certa vacina e depois, na segunda dose, dando um outra", diz Juarez Cunha. De novo, cá entre nós, já aconteceu com vários cidadãos brasileiros. Eles agora, devido a esse erro, estão sob a observação médica.

"Não tínhamos, porém, qualquer respaldo científico para cogitar o que chamamos de esquema misto. E, até que as pesquisas provem que ele é seguro e que não há perda de eficácia, nada deve mudar", informa o pediatra.

Uma dose de Oxford e outra de Pfizer. Ou vice-versa?

No entanto, a tendência é a ciência buscar duplas de sucesso, formadas por imunizantes com tecnologias diferentes. Uma razão para isso é superar os problemas de abastecimento, claro — na linha, se falta uma, vai com a alternativa.

Outra razão é melhorar a performance contra uma nova variante do vírus, quando houver a suspeita de que a vacina da primeira dose não dará conta de uma cepa do Sars-Cov 2 recém-despontada. Aí, seria feita uma troca.

Finalmente, conhecer as possibilidades de misturar seria uma saída para driblar eventuais interrupções na aplicação de uma vacina sob acusação de efeitos adversos importantes, como aconteceu em países europeus com a de Oxford, produzida pela AstraZeneca.

Um recado para sossegar: o alardeado risco de essa vacina provocar trombose é ínfimo. Mas serviu para deixar alguns cientistas de cabelos em pé. Ora, por causa da interrupção de seu uso na Europa, muita gente que tinha recebido a primeira dose ficou na rua da amargura. O ponto positivo de toda essa história é ter agilizado os estudos sobre esquemas mistos.

Na Espanha, pesquisadores do Instituto de Saúde Carlos III, em Madri, conduziram o CombinavacS, envolvendo 663 pessoas que já tinham recebido a primeira dose do imunizante da AstraZeneca. Por meio de um sorteio, dois terços dos participantes tomaram a vacina da Pfizer na segunda dose — o restante ficou só com aquela primeira injeção mesmo, para servir de controle ou comparação.

Segundo os espanhóis, a quantidade de anticorpos aumentou incrivelmente em quem recebeu a dobradinha, alcançando níveis maiores do que os anteriores — e, atenção, bem acima do esperado, se a segunda dose fosse com a vacina da AstraZeneca. Em laboratório, esses anticorpos provaram que eram capazes de reconhecer e neutralizar o Sars-Cov 2. Aparentemente, esse foi um casamento de sucesso.

Já os britânicos iniciaram em fevereiro um estudo parecido com mais de 800 pessoas, no próprio berço do imunizante produzido pela AstraZeneca, a Universidade de Oxford. "Só que, no caso, alguns participantes tomaram a primeira dose dessa vacina e a segunda dose da vacina da Pfizer, enquanto outros fizeram o contrário. Porque até isso deve ser pensado: a ordem de qual vai na frente pode impactar nos resultados", explica Juarez Cunha. "Nós saberemos se eles foram bons e qual a ordem ideal apenas no final deste mês."

Por enquanto, os ingleses só divulgaram os achados da etapa inicial do estudo, revelando que a dupla Oxford e Pfizer não provocou nenhum efeito adverso grave, o que é ótimo. "Sem essa certeza, mesmo que fosse eficaz contra o coronavírus, a combinação seria descartada", diz Juarez Cunha. No entanto, assim como os investigadores espanhóis, os ingleses observaram uma maior ocorrência de reações leves e moderadas, como dores pelo corpo e febre.

No outro lado do Atlântico, porém, os canadenses se deram por convencidos com os dados disponibilizados pelos trabalhos europeus até o momento. Eles divulgaram que, em seu país, quem tomou a primeira dose da AstraZeneca está livre para escolher entre a mesma vacina ou a da Pfizer na data da segunda picada. Não resisto à pontinha de inveja de quem tem vacina e ainda pode escolher.

Combinar pode ser até melhor

Segundo Juarez Cunha, já havia a teoria de que a mistura de plataformas potencializaria a resposta imunológica: "Afinal, é como se cada vacina agisse em uma frente. Uma pode estimular mais a imunidade celular. E outra pode promover uma maior produção de anticorpos. Aliás, os próprios anticorpos podem se ligar a proteínas diferentes do vírus, conforme o imunizante", diz o médico.

Logo, o esquema misto talvez seja um jeito de cercar o Sars-CoV 2 por todos os lados. E nada é mais tentador do que deixar esse vírus acuado.

Mas a ciência nunca deve cair em tentação. "Não dá para extrapolar os resultados do esquema que mistura a vacina de Oxford/AstraZeneca com a da Pfizer para a Coronavac, por exemplo", lembra Juarez Cunha.

Por enquanto, não há estudos avaliando combinações com o imunizante do Butantan. Aliás, serão necessárias pesquisas para checar as várias possibilidades de combinações entre todas as vacinas existentes contra a covid-19.

Apesar disso, já tem gente pensando lá adiante e se indagando: para quem receber o esquema Oxford-Pfizer, qual será o imunizante ideal para uma terceira dose, uma vez que teremos de tomar reforços de alguma vacina contra a covid-19 de tempos em tempos, talvez de ano em ano? Bem, vamos com calma. Uma picada de cada vez.