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Cristiane Segatto

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

"Ninguém tem vontade de ajudar um país que não quer se ajudar"

Cesar Victora, professor da Universidade Federal de Pelotas e coordenador do estudo EpiCovid - Daniela Xu
Cesar Victora, professor da Universidade Federal de Pelotas e coordenador do estudo EpiCovid Imagem: Daniela Xu
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

09/06/2021 04h00

O cientista Cesar Victora, professor emérito da UFPel (Universidade Federal de Pelotas), venceu o Prêmio Richard Doll 2021, principal reconhecimento mundial concedido pela Associação Internacional de Epidemiologia (IEA, na sigla em inglês).

Um dos cérebros responsáveis pelo Epicovid-19, o estudo que faz o mapeamento do contágio pelo coronavírus na população brasileira, e membro da Associação Hospitalar Moinhos de Vento, Victora conversou com a coluna sobre a falta de vacinas, o risco das novas variantes e os erros crônicos do governo Bolsonaro.

O Brasil apostou no pior caminho e segue errando no enfrentamento da pandemia?

O principal erro é o negacionismo expresso muito bem pelo presidente da República. Achavam que não ia ser uma epidemia grande. Em 40 anos de epidemiologia aprendi a nunca me atrever a prever quantas mortes haverá em uma epidemia. Um agente infeccioso novo como o Sars-CoV-2 poderia tanto ficar restrito a poucos lugares, como se espalhar rapidamente. Existem alguns modelos preditivos que podem ser úteis, mas nunca dá para apostar nada. O negacionismo fez com que o Brasil não tentasse conter a epidemia no começo.

Por que a testagem no início da pandemia era tão importante?

No início, é possível testar infectados e contatos e conter a disseminação do vírus. Depois que a epidemia está disseminada, não há serviço de saúde que dê conta disso. É muita gente infectada. Testar é bom para o indivíduo porque ele fica sabendo que pegou o vírus. Para a população, testar casos agudos é mais útil no começo e no final da pandemia. O que funciona melhor durante a pandemia é o que estamos fazendo no estudo Epicovid-19 aqui no Rio Grande do Sul.

O que esse trabalho revela sobre imunidade de rebanho?

Até agora fizemos dez estudos (o maior número de estudos na mesma população do mundo). São amostras de 4,5 mil pessoas. Examinamos os anticorpos para saber se os indivíduos já foram expostos ao vírus. Isso é muito útil para a discussão sobre imunidade populacional (ou imunidade de rebanho). É importante lembrar que os anticorpos são apenas um aspecto da imunidade. Existe também a imunidade celular (conferida pelas células que atacam o vírus). No Rio Grande do Sul, 20% da população têm anticorpos detectáveis.

Ainda é muito pouco, certo?

Sim, é muito pouco. Com 20% da população exposta ao vírus, o Rio Grande do Sul teve dezenas de milhares de mortes. Para alcançar a imunidade de rebanho (cerca de 80% da população protegida), haveria quatros vezes mais mortes. Não podemos aceitar isso. É preciso vacinar a população rapidamente.

Em um artigo publicado na Nature Medicine no mês passado, você e Pedro Hallal defendem um lockdown nacional de três semanas. Isso é viável?

Sendo bem realista (e não otimista), o que temos que fazer é comprar o máximo possível de vacinas. E investir mais. Já perdemos oportunidades incríveis devido ao negacionismo. O Brasil não vai fazer um lockdown de três semanas. Deveria fazer. Nós defendemos isso, mas o Brasil não vai fazer. Nosso presidente não vai começar a usar máscara e fazer distanciamento social. Isso está fora de cogitação. Creio que temos o primeiro presidente do mundo a dizer que não vai se vacinar. Enquanto isso, os Estados Unidos estão distribuindo até cerveja para estimular mais gente a se vacinar. Estão fazendo o possível para vacinar todo mundo.

É fundamental alcançar uma cobertura vacinal alta, certo?

A vacinação tem duas funções. A primeira é a proteção individual. Nenhuma vacina dá 100% de proteção, mas vacinar diminui a transmissão. Se a cobertura vacinal for alta (se 80% dos brasileiros se vacinarem), a transmissão vai diminuir dramaticamente. Basta ver o que aconteceu em Serrana, no interior de São Paulo. Os estudos feitos lá mostram que a vacinação em massa funciona. Enquanto tivermos esse governo, o que podemos fazer é incentivar a vacinação e tentar comprar o máximo possível de vacinas.

Entidades internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras, vêm se empenhando para ajudar no envio de vacinas ao Brasil?

Penso que estão fazendo o possível. Há uma dificuldade no suprimento de vacinas. A Índia está mandando menos insumo farmacêutico ativo (IFA) ao Brasil porque está com uma crise enorme. Claro, qual país não iria privilegiar sua própria população? A situação mundial das vacinas é um reflexo da desigualdade global. Sobra vacina nos EUA, na Inglaterra, no Canadá. Muitos países têm mais vacinas do que precisam enquanto falta em outros. Esse desequilíbrio global é acirrado pelo nosso governo federal. A Índia recebeu muito mais apoio internacional do que o Brasil. Ninguém tem vontade de ajudar um país que não quer se ajudar. Nosso país virou um pária.

Qual é a importância do sequenciamento viral?

Não basta identificar quem está com covid, é preciso apontar qual é a variante. Com o sequenciamento viral, é possível identificar precocemente novas variantes e tomar medidas adequadas. A cada variante, é como se surgisse uma nova epidemia. As pessoas que se infectaram pela variante anterior podem se infectar com a variante nova. Sabemos que o contato com uma variante oferece ao indivíduo alguma proteção contra as demais variantes. Não é como se a nova variante fosse uma doença completamente nova. É o mesmo coronavírus, com alguns aspectos mais infecciosos e maior capacidade de penetrar na célula. Há estudos no Brasil acompanhando pessoas que já tiveram covid para ver o que acontece quando pegam a doença de novo. Essa é uma das grandes perguntas que temos.

O sequenciamento viral é feito como deveria?

O Brasil faz muito pouco. No mês passado, a Inglaterra já tinha realizado 300 mil sequenciamentos e o Brasil apenas três mil. Uma das iniciativas em que estou envolvido é o Instituto Todos pela Saúde, financiado pela Fundação Itaú, para ampliar o sequenciamento no país. A variante P1 de Manaus apareceu em novembro, mais ou menos, e foi descoberta no Japão porque o Brasil não estava sequenciando o suficiente. Hoje a variante P1 manda no Brasil. Todos os estudos mostram isso.

Qual é a sua visão sobre a forma como o governo federal lidou com a crise de Manaus?

Aconteceu algo muito ruim por falta de competência das nossas autoridades sanitárias. Desde a Idade Média, os epidemiologistas fazem cordão sanitário quando surge uma doença nova. Fecham a cidade. Isso tem que ser feito quando surge uma nova variante que gera preocupação. Existem muitas variantes. Nem todas elas são motivo de preocupação, mas a P1 é.

O que o governo fez? Como as unidades de terapia intensiva estavam cheias, ele pegou os pacientes das UTIs e espalhou pelo Brasil inteiro. O governo poderia ter montado hospital de campanha, mandado oxigênio, mas jamais espalhar ativamente uma variante pelo país.

Por que isso aconteceu?

Creio que por falta de conhecimento epidemiológico. O Ministério da Saúde está completamente desaparelhado de pessoas competentes. O governo tinha que ter proibido a saída de voos de Manaus. Só assim teria sido possível controlar essa variante. É muito triste que doentes morram em uma cidade por falta de UTI, mas espalhar a variante pelo país é algo gravíssimo.

Manaus tinha que ter feito um lockdown de duas semanas, sem dúvida nenhuma. Claro que é preciso ter um apoio social e emergencial para as pessoas que trabalham na rua no dia a dia. É preciso fazer isso junto. Sem lockdown de verdade (não esse de quinta até domingo), não é possível controlar um ciclo inteiro de transmissão da doença.

Viramos uma ameaça global?

Em um lugar como o Brasil, onde algumas pessoas estão imunizadas e outras não e ninguém pratica o distanciamento social como deveria ser, a variante encontra as condições ideais até para fazer o escape vacinal. Isso é importante: as variantes que existem até agora, com poucas exceções, não escaparam das vacinas. Elas são menos suscetíveis às vacinas, mas as vacinas têm efeito. A variante da África do Sul escapou da vacina Oxford/AstraZeneca, mas em outros lugares elas não escaparam ainda. Viramos uma ameaça global.

Como você se sente ao conversar com colegas do Exterior?

É muito frustrante saber que poderíamos ter lidado muito melhor com essa pandemia. O país investiu muito em ciência a partir dos anos 90. Criamos um grande número de cursos de pós-graduação. Formamos milhares de doutores. Em 2011, escrevi uma série de cinco artigos para a revista The Lancet junto com alguns colegas. O cenário de avanços na saúde pública era positivo. Todo mundo adorou saber como o Brasil, com seu sistema universal de saúde, havia conseguido reduzir a mortalidade infantil e praticamente acabado com a subnutrição de crianças. O programa de aids era exemplo para o mundo inteiro, assim como o nosso programa de vacinação. Hoje o que vemos é só retrocesso.

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Errata: o texto foi atualizado
A sigla da Universidade Federal de Pelotas é UFPel, e não UFP. A informação foi corrigida.