PUBLICIDADE

Topo

Cristiane Segatto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Na pandemia de tantas batalhas pessoais, uma receita de resiliência

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

23/06/2021 04h00

Cada um de nós guardará a memória de nossas batalhas pessoais no front da pandemia. Ninguém escapará ileso da maior tragédia de nosso tempo. Nada se compara à fome, ao adoecimento e à perda de familiares e amigos, mas, em maior ou menor intensidade, todos os ombros pesam.

Como sairemos dessa?

"O mundo quebra todos, e depois disso, muitos estão fortes nos lugares quebrados", escreveu o escritor Ernest Hemingway, gravemente ferido na Primeira Guerra Mundial, no romance "Adeus às armas", publicado em 1929. O psiquiatra Dennis S. Charney, da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova York, enxerga nessa frase o reconhecimento do poder da resiliência.

Em um momento de trauma coletivo como a pandemia de covid-19, é preciso criar caminhos para estimular a capacidade humana de enxergar saídas. "Qualquer pessoa que tenha um encontro com a morte, como eu, ou que tenha sofrido um trauma profundo, pode ser resiliente", afirma o médico em artigo na Stat, publicação especializada em notícias de saúde.

"Se nós pudermos aprender com isso, seguir em frente com nossa vida e aspirações, podemos finalmente nos tornar mais fortes", diz. Sobrevivente de uma tentativa de assassinato há cinco anos, Charney propõe uma receita de resiliência para enfrentar a covid-19 e outros eventos traumáticos.

Claro que não existe fórmula mágica capaz de facilitar a recuperação de todas as pessoas. O sofrimento é brutal nas populações de baixa renda que foram desproporcionalmente devastadas pela pandemia, mas o mundo inteiro (com mais ou menos privilégios) tenta emergir do trauma global.

"A recuperação total, por sua própria natureza, é lenta e gradual. Cada pessoa é diferente, mas os humanos têm uma capacidade notável de resiliência", afirma. Charney propõe uma estratégia para facilitar esse processo: estabelecer metas para mudar o foco do trauma e mirar o futuro. Olhar adiante por meio do engajamento em uma missão alcançável.

Não importa qual seja o objetivo. Para alguns, pode ser reunir forças para voltar ao escritório ou reabrir um negócio. "Para outros, pode ser algo mais pessoal, como passar a apreciar o tempo de convivência com a família, ou entrar em forma física ou decidir ser caridoso", diz ele.

No livro "Resilience: The Science of Mastering Life's Greatest Challenges" (Cambridge University Press, 2018), Charney apresenta uma "receita de resiliência". A seguir, um resumo das dez estratégias adaptadas por ele ao contexto da pandemia:

Procure manter uma atitude positiva

Altamente relacionado à resiliência, o otimismo pode ser aprendido

Tente exercitar a flexibilidade cognitiva

Reavaliar experiências traumáticas pode alterar a importância dos fatos. Lembre-se de que o fracasso é um ingrediente essencial para o crescimento

Apoie-se na sua bússola moral

Atitudes altruístas favorecem a superação de eventos traumáticos. Para os que têm fé, crenças religiosas e/ou espirituais também podem ajudar

Encontre um modelo de resiliência

Lembre-se das dificuldades que você conseguiu superar em outros momentos ou aprenda com a história de outras pessoas. A imitação é um modo de aprendizagem poderoso

Enfrente seus medos

O medo é normal e pode ser usado como um guia, mas treinar as habilidades necessárias para desafiá-lo em segurança reforça a autoestima

Desenvolva habilidades e faça acontecer

Pessoas resilientes usam habilidades de enfrentamento ativas. Evite ser excessivamente crítico consigo mesmo, busque apoio e parta para a ação

Estabeleça e cultive uma rede social de apoio

Humanos precisam de uma rede de segurança em tempos de estresse. Parte da força emocional é fruto de relacionamentos com pessoas e organizações

Cuide do bem-estar físico

A atividade favorece a resistência e o humor e melhora a autoestima

Exercite regularmente o corpo, a mente e o cérebro

A mudança requer atividade sistemática e disciplinada

Reconheça suas qualidades pessoais

Aprenda a valorizar seus pontos fortes e a usá-los para lidar melhor com situações difíceis e estressantes

Pessoalmente, desconfio de qualquer receita padrão, mas há situações em que estratégias gerais podem ser úteis a quem enfrenta dificuldades. O óbvio nem sempre é óbvio para quem está confuso. Sem negar a triste realidade, é tempo de acreditar na capacidade humana de transformação. O mundo precisa ser reconstruído. A começar por nós.

O que você achou deste conteúdo? Comentários, críticas e sugestões também podem ser enviados pelo email segatto.jornalismo@gmail.com. Obrigada pelo interesse.