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Cristiane Segatto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Se engravidar, não beba: as doses de álcool que roubam o futuro do bebê

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Imagem: iStock
Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

21/07/2021 04h00

Em um país onde o álcool é companheiro na alegria e na tristeza, não causa espanto o fato de que até o anúncio de uma gravidez seja celebrado com um brinde. Não causa espanto, mas deveria. Recusar uma taça de vinho em um momento tão feliz pode parecer exagero, mas é bom lembrar: não existe limite seguro para consumo de bebida alcoólica na gravidez.

"Se beber não dirija; se engravidar, não beba", diz o médico José Mauro Braz de Lima, professor de neurologia e coordenador do programa de álcool e drogas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Pesquisador dos danos causados ao feto pelas bebidas, Lima tenta fazer decolar no Brasil um movimento nacional de conscientização sobre a síndrome alcoólica fetal (SAF).

Um tema que merece ainda mais atenção diante da tendência de aumento de consumo de álcool percebida no último ano. Mais de 40% dos entrevistados no Brasil relataram alto consumo de álcool durante a pandemia de covid-19 em uma pesquisa realizada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS). A maioria (65%) dos participantes era formada por mulheres do sexo feminino em idade fértil.

Com o fechamento dos bares e restaurantes durante os primeiros meses da pandemia, as pessoas passaram a beber mais em casa. Um hábito que ganhou impulso à medida que a ansiedade, o medo, a depressão, o tédio e a incerteza tornaram-se queixas generalizadas. "É possível que o aumento do consumo de álcool tenha ocorrido também entre as grávidas. Esse é um dado epidemiológico que pretendemos levantar em 2022", diz Lima.

O que é a síndrome

"A cada hora nascem de três a quatro crianças com a síndrome alcoólica fetal (SAF) no Brasil e, apesar disso, não temos políticas de prevenção bem estabelecidas. Precisamos aumentar a consciência sobre isso. É um problema médico e educacional, mas também psicossocial e econômico" afirma.

"O consumo de álcool durante a gestação é uma situação de risco para a saúde do bebê. Até mesmo pequenas doses podem ser prejudiciais", diz Lima. A exposição ao álcool pode provocar malformação fetal, distúrbios no desenvolvimento de diferentes órgãos e, principalmente, do cérebro. A SAF pode ser leve, moderada ou grave, dependendo do grau de comprometimento do organismo.

Tolerância zero

Segundo documento elaborado pela Sociedade de Pediatria de São Paulo, bebês que nascem com SAF têm alterações na face e em diferentes órgãos. Podem nascer com peso abaixo do normal e apresentar retardo mental. Na idade escolar, costumam surgir problemas de aprendizagem e atenção, memória, fala, audição e alterações de comportamento.

Em determinadas situações, a mãe pode expor o bebê ao álcool antes mesmo de saber que está grávida. Por isso, é importante não ingerir bebida alcoólica quando há intenção de engravidar.

Nem todos os fetos expostos ao álcool durante a gestação nascem com SAF. Como a ciência desconhece os níveis seguros de consumo de bebidas alcoólicas na gravidez, os médicos recomendam que as mulheres adotem uma política de tolerância zero ao álcool durante a gestação.

O álcool e o feto

O álcool atravessa a placenta e atinge o feto. Nele, o metabolismo e a eliminação da substância são mais lentos. O líquido amniótico torna-se um reservatório de álcool e expõe ainda mais o feto aos seus efeitos negativos.

Segundo o documento da Sociedade Paulista de Pediatria, a probabilidade de que o bebê seja afetado e a gravidade da síndrome tem relação com a dose consumida, o período gestacional, o metabolismo do álcool no organismo materno e fetal, a saúde da mãe e a sensibilidade genética do feto.

Sem atenção

"No Brasil, temos hoje mais de 1 milhão de pessoas com deficiência cognitiva, motora e, às vezes, sem condições de conseguir um emprego. A SAF é a principal causa prevenível de retardo mental e teratogênese (anomalias que levam a malformações no feto). O álcool é uma substância teratogênica, assim como a talidomida. Nos casos graves da síndrome, a expectativa de vida é de cerca de 45 anos", afirma Lima.

"Quando vemos uma criança com Síndrome de Down, é preciso saber que há dez vítimas de SAF ao redor que seguem invisíveis", diz. "Durante a epidemia de zika, houve grande preocupação em torno dos casos de microcefalia provocados pelo vírus, mas ninguém se importa com os casos de microcefalia provocados pela SAF, embora eles sejam muitos mais comuns".

Não existe remédio capaz de reverter os danos ocorridos no cérebro do feto durante a gestação, mas ele continua se desenvolvendo após o nascimento. Para isso, é preciso oferecer oportunidades a essas crianças. "Vimos alunos com grandes déficits que, depois de um ano, saíram soletrando e lendo. Se as escolas tiverem professores com conhecimento sobre SAF, mais paciência e investimento, eles podem avançar", diz Lima.

Em uma cultura em que a definição de uso social do álcool é difusa, raramente as mulheres admitem que bebem na gravidez. Quando o bebê nasce com algum problema, muitas se sentem culpadas. Sofrimentos provocados por um mal 100% prevenível que o Brasil insiste em não enxergar.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL