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Cristiane Segatto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como os bons ouvintes ajudam o cérebro a funcionar em sua melhor forma

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Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

18/08/2021 04h00

Encontrar um bom ouvinte é privilégio em um mundo de intenso vozerio. Todos acham que têm algo urgente a dizer, mas poucos aceitam escutar sem fazer julgamentos apressados. Qual o valor dos raros ouvidos atentos e solidários? Eles valem muito, segundo um estudo publicado nesta semana no Journal of the American Medical Association (JAMA) Network Open.

Contar com alguém disposto a ouvir nos momentos em que precisamos compartilhar sentimentos contribui para o aumento daquilo que os pesquisadores chamam de resiliência cognitiva.

Ela se refere à medida da capacidade do cérebro de funcionar melhor do que seria esperado em determinada fase de envelhecimento físico ou quando ele é acometido por alterações relacionadas a doenças.

Diferentes pesquisas sugerem que, ao aumentar a resiliência cognitiva, as redes de suporte social ajudam a reduzir o risco de Alzheimer e outros transtornos, mas faltam dados sobre o papel dos diferentes tipos de suporte social nessa relação. Ao destacar especificamente a contribuição dos bons ouvintes, o novo estudo amplia o conhecimento sobre esse tema.

"Pensamos na resiliência cognitiva como um amortecedor dos efeitos do envelhecimento do cérebro e das doenças", diz Joel Salinas, um dos autores do artigo e professor assistente de neurologia da Escola de Medicina da Universidade de Nova York.

"Esse estudo é mais uma evidência de que é possível agir para aumentar as chances de retardar o envelhecimento cognitivo ou prevenir o desenvolvimento de sintomas da doença de Alzheimer", afirma. Prevenção é sempre o melhor a fazer, mas ela se torna o único caminho em casos de um mal ainda sem cura.

Cuidar do futuro

Os benefícios da escuta atenta para a saúde do cérebro podem ser observados décadas antes da velhice. Segundo o estudo, para cada unidade de declínio no volume cerebral, indivíduos na faixa dos 40 e 50 anos com baixa disponibilidade de ouvintes apresentam uma idade cognitiva quatro anos superior.

"Esses quatro anos podem ser incrivelmente preciosos. Muitas vezes pensamos em como proteger a saúde do nosso cérebro na velhice, depois de termos perdido décadas nas quais teria seria possível construir e manter hábitos saudáveis", diz Salinas.

"Hoje mesmo você pode se perguntar se tem alguém disponível para ouvi-lo de forma solidária e perguntar o mesmo aos seus entes queridos. Essa ação simples coloca o processo em movimento para que você tenha mais chances de manter a saúde cerebral por mais tempo e com a melhor qualidade de vida que você pode ter", afirma o pesquisador.

Nem sempre os médicos perguntam aos pacientes se eles podem contar com alguém disposto a ouvi-los quando precisarem falar. Para Salinas, essa questão é importante para conhecer a história social do doente. "A solidão é um dos muitos sintomas da depressão e tem outras implicações para a saúde dos pacientes", diz ele.

Conhecer as relações sociais e os sentimentos das pessoas ajuda a entender as reais circunstâncias em que os pacientes vivem e obter pistas sobre sua saúde futura. Informações preciosas para os bons médicos.

A importância da escuta

Para realizar a pesquisa, os autores usaram informações coletadas durante o Framingham Heart Study (FHS), um dos mais longos e bem monitorados estudos já realizados nos Estados Unidos.

A partir dessa base, selecionaram dados de 2.171 participantes, com idade média de 63 anos, que haviam relatado o grau de suporte social em sua vida. Esse suporte social foi dividido em categorias como escuta; bons conselhos; amor e afeição; contato suficiente com pessoas próximas e apoio emocional.

A partir de exames de ressonância magnética e de avaliações neuropsicológicas feitas com os participantes do FHS, os pesquisadores avaliaram a resiliência cognitiva. Ela foi medida como o efeito relativo do volume cerebral total na cognição global.

Menores volumes cerebrais tendem a se associar a funções cognitivas mais baixas. Nesse estudo, os pesquisadores examinaram o efeito modificador de diferentes formas de suporte social na relação entre o volume cerebral e o desempenho cognitivo.

A função cognitiva dos indivíduos com maior disponibilidade de uma forma específica de suporte social (a escuta atenta) foi maior em relação ao seu volume cerebral total. Segundo os autores, ter bons ouvintes foi a característica que se mostrou altamente associada a uma maior resiliência cognitiva.

Nesse campo de estudo, falta entender muita coisa sobre a relação entre fatores psicossociais (como a disponibilidade de escuta atenta) e a saúde do cérebro, mas o trabalho de Salinas nos lembra do essencial: que tal cultivar bons ouvintes e bons ouvidos hoje mesmo?

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL