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Cristiane Segatto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Secas e altas temperaturas: como fica a saúde em um mundo de calor extremo

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Cristiane Segatto

Cristiane Segatto é jornalista e mestre em gestão em saúde pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Durante as últimas duas décadas, cobriu saúde e ciência na Revista Época e nos jornais O Globo e Estadão. Foi colunista da Época online e comentarista da Rádio CBN. Suas reportagens especiais sobre o universo da saúde conquistaram mais de 15 prêmios nacionais e internacionais. Entre eles, dois prêmios Esso de Jornalismo na Categoria Informação Científica, Tecnológica ou Ambiental. Em 2012, com a reportagem ?O paciente de R$ 800 mil? e, em 2014, com o trabalho investigativo ?O lado oculto das contas de hospital?, ambos publicados na Revista Época. Em 2015, foi finalista do Prêmio Gabriel García Márquez. Participa de projetos liderados por organizações e pessoas que acreditam no valor da informação precisa e das histórias bem contadas.

Colunista do UOL

25/08/2021 04h00

Se a pandemia obrigou o mundo a olhar para a saúde, é bom que as atenções e os recursos sigam dedicados a ela. Há muito incêndio a apagar. A covid-19 está longe de ser superada, mas os anos de vida roubados por outra emergência global - as secas e as ondas de calor - não podem mais ser ignorados.

Viver em um planeta mais quente produz graves consequências. De que forma essas mudanças afetam a saúde? Como evitar ou reduzir os danos provocados no organismo pelo calor extremo? Essas serão duas das questões centrais desta década. É o que salienta o último editorial da revista científica The Lancet.

Até quem diz preferir o calor amolece quando o termômetro dispara. A energia despenca. O corpo sofre e pede sombra e água fresca - itens cada vez mais escassos mesmo em países como o Brasil, que segue agarrado à ilusão de ser uma potência hídrica enquanto a secura avança por todos os lados.

Diante das mudanças climáticas induzidas pelo homem, as mais recentes evidências científicas trazem o alerta: os recordes de temperatura serão mais frequentes, intensos e duradouros nos próximos anos.

Estresse térmico

A primeira análise abrangente da carga global de mortes atribuídas à temperatura, publicada na mesma edição da The Lancet, traz evidências de que o calor extremo e o frio estão associados a 17 causas de morte. As principais são as doenças cardiorrespiratórias ou metabólicas, mas os autores também citam o aumento do risco de morte por causas externas (suicídio, afogamento, desastres etc).

Os pesquisadores incluíram dados de mortalidade e temperatura de nove país, entre eles o Brasil. Segundo o trabalho liderado pela professora Katrin Burkart, do Institute for Health Metrics and Evalution (IHME), um centro de estudos ligado à Universidade de Washington, 356 mil mortes ocorridas em 2019 em todo o mundo foram relacionadas ao calor extremo.

Esse tipo de estudo revela a importância da temperatura como um fator de risco global para a saúde. Segundo a pesquisa, 2.340 mortes (1,57 por 100 mil habitantes) ocorridas no Brasil em 1990 podem ser atribuídas ao calor excessivo. Em 2019, o total de óbitos atribuíveis a essa mesma causa foi bem superior: 5.881 (2,71 por 100 mil habitantes).

Cenário semelhante foi verificado em países como China (3,25 mortes por 100 mil em 2019) e Estados Unidos (3 mortes por 100 mil). Ainda que o frio excessivo seja o responsável pela maior quantidade de mortes atribuídas a temperaturas extremas no planeta, a tendência de aumento da exposição a altas temperaturas é uma preocupação crescente.

Sobrecarga geral

O estresse térmico extremo sobrecarrega a capacidade do corpo de regular sua temperatura interna, o que pode levar à insolação. Além disso, as respostas fisiológicas que protegem a temperatura corporal induzem tensões capazes de desencadear uma série de problemas descritos em outro estudo publicado na mesma edição.

O calor excessivo pode provocar doenças cardiovasculares, dificuldades respiratórias, diabetes, desidratação, distúrbios renais, transtornos mentais etc.

"Dias extremamente quentes ou ondas de calor que aconteciam a cada 20 anos agora são mais frequentes. Eles podem passar a ocorrer todos os anos até o final deste século se as atuais emissões de gases de efeito estufa continuarem inabaláveis", diz uma das autoras do estudo, a epidemiologista Kristie L. Ebi, do Center for Health and Global Enviroment, da Universidade de Washington.

"Essas temperaturas crescentes, combinadas com uma população maior e mais velha, indicam que mais pessoas estarão sob risco de danos relacionados ao calor", afirma. Para evitar o adoecimento e as perdas irreparáveis, é preciso mitigar as mudanças climáticas e adotar medidas individuais e coletivas para reduzir a exposição ao calor extremo.

Segundo Kristie, o fracasso em reduzir as emissões de gases de efeito estufa e em desenvolver planos de ação contra o calor baseados em evidências significará um futuro muito diferente do que conhecemos.

"Atividades diárias, como exercícios e trabalho ao ar livre, podem mudar drasticamente. O aumento do aquecimento significa que as pessoas correm mais risco de exposição ao calor insuportável com muito mais frequência, especialmente nas regiões tropicais", afirma.

Como lidar

O que podemos fazer como indivíduos? Os autores da pesquisa sugerem medidas paliativas como ventiladores portáteis movidos à bateria, sprays de água e nebulizadores, esponjas e roupas molhadas e imersão dos pés em água fria. Recomendam também intervalos na atividade física, boa hidratação e roupas e equipamentos para melhorar a ventilação.

Isso não basta. Para enfrentar um dos maiores desafios de saúde do planeta, é preciso pensar e agir coletivamente. Edifícios, escolas e ambientes de trabalho devem ser planejados para reduzir a sensação de calor.

Espaços verdes são cruciais para o resfriamento das áreas urbanas, além de reduzir a exposição à poluição sonora e do ar, aliviar o estresse e favorecer a interação social e a atividade física. Muitas outras ações serão necessárias.

Os limites fisiológicos de tolerância ao calor são finitos. Para salvar o planeta e a nossa própria pele, precisamos melhorar muito como pessoas, cidades e país.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL