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Alexandre da Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Deixar viver e deixar morrer: a pandemia narrada por um idoso do mal

Divulgação/Governo do Estado de São Paulo
Imagem: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo
Alexandre da Silva

Alexandre é fisioterapeuta, especialista em gerontologia e mestre em reabilitação pela Unifesp, doutor em saúde pública pela USP e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí. É também membro do Centro Internacional de Longevidade e dos grupos de trabalho Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, ambos da Abrasco.

Colunista do UOL

29/03/2021 04h00

Nenhuma pessoa idosa é igual a outra pessoa idosa, definindo o que entendemos por diversidade. No Brasil, a diversidade perde sua vez para as desigualdades sociais que fazem com que um grupo tenha maiores possibilidades não apenas de viver bem, mas de deixar morrer outras pessoas de grupos sociais que não as interessa, que não concordam com o seu ponto de vista, que é de um imaginário patriarcal, machista, autoritário, que respeita o que é jovem e cisgênero.

Deixar morrer é um conceito que deriva da necropolítica.

O filósofo e pensador Achille Mbembe é um dos maiores especialistas do assunto. Em tempos de pandemia, esse mesmo intelectual reflete sobre o nosso direito de respirar e conclui que, mais uma vez, há grupos sociais no mundo em melhores condições se comparado a outros. São as pessoas mais pobres, mais velhas, de pele mais escura ou de uma etnia pouco respeitada politicamente no país onde residem.

Mas hoje quero convidar a leitora e o leitor a uma retrospectiva sobre a pandemia. Para isso, utilizarei frases de um idoso de 66 anos. Algumas falas poderão parecer irônicas e piadas, mas não são. Tudo começou em março de 2020.

9 de março de 2020: "No meu entender está sendo superdimensionado o poder destruidor desse vírus. Talvez esteja sendo potencializado até por questões econômicas"

Sim, essa pessoa idosa acreditava que não passaria de uma "gripezinha", algo que corpos mais preparados, como de atletas ou ex-atletas, seriam capazes de enfrentar com facilidade. Aí veio um caso que contrariava essa máxima, e mais outro e mais outro.

No fim, constatou-se que ninguém sabia muito sobre como o vírus atuava nos corpos, mas já era certeza de que adoecia muita gente. Muitas chegavam a precisar de cuidados de terapia intensiva. E era também uma doença que causaria muitas mortes, sem piedade.

26 de março de 2020: "Brasileiro pula em esgoto e não acontece nada"

Acredito que nosso idoso narrador da pandemia quis dizer que não havia mais nada a acontecer porque tudo já tinha acontecido a esse cidadão brasileiro: o desemprego, a morte social, a fome, a dor, a angústia, a perda do medo de morrer e, agora, a angústia de um dia acordar com febre e falta de ar, porque já não havia mais o que temer.

A necropolítica avança de forma inescrupulosa, matando mais gente nos bairros pobres e pessoas velhas que ficaram sem a assistência adequada às suas necessidades de saúde e sociais desde antes da pandemia aqui no Brasil se instalar.

É, a pandemia parece alguém que veio passar uma temporada, que só comprou a passagem de ida. Faltou concluir o tratamento para hipertensão e diabetes, faltou ter mais Agentes Comunitários de Saúde para fazer isso, faltou a contratação de mais profissionais especializados em gerontologia. Faltou assumir o erro do congelamento de investimentos na saúde promovidos pela gestão federal anterior, mas essa já é a história narrada por outra pessoa idosa.

20 de abril de 2020: "Eu não sou coveiro"

Bolsonaro exibe caixinha com cloroquina - Adriano Machado/Reuters - Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters

Contar os mortos não é função de coveiros apenas. Somar as mortes causadas pela covid-19 é contabilizar pelas métricas mortes/por dia ou mortes/por hora o nosso fracasso enquanto nação democrática de direito, ou seja, as leis são criadas pelo povo e para o povo e isso vem perdendo a importância a cada dia que a pandemia continua no país.

Tantas pessoas idosas e tantos movimentos sociais constituíram uma situação que culminou com a elaboração da Constituição Federal Brasileira. Não dá para esquecer das mulheres que também foram para as manifestações em busca dos seus direitos. Hoje, muitas dessas mulheres, agora mais velhas, continuam lutando para manter suas vidas e de seus familiares. São mulheres de pele escura as que mais têm morrido pela idade, que mais têm enterrado filhos e filhas e que estão mais desamparadas pela redução dos empregos informais.

28 de abril de 2020: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagres!"

No Brasil da pandemia, milagre é o nosso último desejo. O primeiro é fazer valer o SUS, nosso sistema único e valente de saúde, que poderia ter uma condição melhor para reduzir as internações, os casos confirmados e as mortes. Queremos um ministro da saúde com conhecimento técnico, dialogando com todos os profissionais necessários para um plano nacional de enfrentamento à covid-19.

Nada de profissionais querendo promover e vender kits de medicamentos sem comprovação científica. Queremos um setor de comunicação que dissemine as boas práticas, como o uso de álcool em gel, de máscara, que estimule o distanciamento e a não a aglomeração.

Queremos um pedido de desculpas, sim. Que a pessoa idosa que narra a pandemia assuma o seu erro e peça ajuda a quem possa ajudar, que costure parcerias, que propague esperanças e verdades. Nosso país precisa ser laico nesse momento. Queremos pessoas competentes, sejam idosas ou não.

10 de novembro de 2020: "Tem que deixar de ser um país de maricas!"

Preciso discordar da frase do idoso narrador da pandemia. Há um provérbio africano que diz assim: "Até que os leões inventem suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça." Há diversas pessoas que, no Brasil, estão realizando bons trabalhos para mitigar os danos decorrentes da pandemia.

Lúcia Xavier é uma pessoa idosa incrível e vem fazendo o impossível para que as pessoas pobres do Rio de Janeiro não morram de fome ou de covid-19. Não é de hoje seu ativismo e luta pelos direitos humanos a favor de pessoas negras, LGBTI, em situação de rua e pobres. Hoje ela atua na ONG Criola e merece todo o nosso respeito e admiração!

Tem outra pessoa idosa que, desde a sua juventude, ajuda as pessoas mais carentes, como crianças órfãs e pessoas em situação de rua. Em tempos de pandemia, precisou ir para debaixo de viaduto, com martelo e determinação, para garantir um lugar, sujo e sem privacidade que seja ainda, para essas pessoas que estão na rua pudessem dormir, descansar. Seu nome é Padre Júlio Lancellotti.

Tem outra pessoa idosa que está colocando todos os seus saberes da área da epidemiologia e da saúde pública para pautar, em diversos espaços da mídia, o descontrole para a mitigação dos danos causados pela covid-19. Suas parcerias com profissionais do Brasil e do mundo ajudam a não manter invisibilizada a voz da pessoa idosa. Seu nome é Alexandre Kalache.

Tem pais com mais de 60 anos que ainda estão trabalhando em algum lugar desse país para contribuir na renda familiar mensal. Afinal, aumentou o preço do arroz, do feijão, do gás, da gasolina e de tudo que direta ou indiretamente depende dela. Seu nome é João, José, Manoel, Carlos, Antônio, Pedro ou tantos outros a quem saúdo pela vontade de viver e torço para que fiquem bem.

E há muitas mulheres idosas que, trabalhando fora e dentro de casa, também contribuem com a renda familiar, às vezes sendo a maior fonte da casa, mas que ainda sofre com filhas e filhos que vão trabalhar fora de suas casas, que não conseguem ajudar os netos e netas nas atividades remotas, que não tem um celular de última geração para emprestar para quem precisa em casa e que reza dia e noite para que as festas de final de ano possam ter todas as pessoas queridas juntas, vivas e se abraçando. Seu nome é Maria, Benedita, Cristina, Zoraide, Sebastiana, Georgina, Geny e Irene. A essas mulheres, todo o meu respeito, agradecimento e, eu sim, rezo para que fiquem bem e que nunca deixem de estar conosco.

País de maricas? Acho que não. Nessa altura da narrativa do idoso já tínhamos mais de 162 mil mortes por covid-19 e outras milhares não notificadas.

17 de dezembro de 2020: "Se você virá um jacaré, é problema de você!" (sic)

Muitas mentiras embaçaram a visão de parte da população. A opinião é dada sem a reflexão, sem o entendimento de que sempre tomamos vacina nesse país. E é também por isso que hoje podemos pensar no envelhecimento populacional e falar de longevidade.

Tomamos vacinas para evitar diversas doenças e nunca questionamos sua origem porque sempre acreditamos nas nossas instituições de vigilância, de tecnologia e de pesquisa. Por que e quando deixamos de acreditar? Faz sentido isso acontecer agora? Por que muitas pessoas idosas ainda não acreditam que a vacina salvará muitas vidas? Por que filhos e netos reforçam o movimento contra a vacina?

5 de janeiro de 2021: "Chefe, o Brasil tá quebrado! Eu não consigo fazer nada!", "Esse vírus potencializado pela mídia que nós temos. Essa mídia sem caráter que nós temos"

Quase 200 mil mortes injustas e mais um sem número de famílias devastadas pelo descaso e pela omissão da assistência adequada e até do direito ao luto. Mães enterrando filhas e agora cuidando de netas e netos. Sim, nossas pessoas idosas foram convocadas para reassumir o papel de mães, mas agora há dores nos joelhos, nas costas, tontura, uma falta de firmeza nas mãos, ombros doloridos que não podem dar um colo gostoso para as crianças e um vazio enorme no coração pela ausência da filha e ou do filho que morreram pela covid-19. Não entendo como a mídia poderia causar tantos danos. Nosso narrador está errado, mais uma vez.

19 de março de 2021: Agora nosso narrador emite sons de alguém com falta de ar (a cena é patética).

Bolsonaro em coletiva do dia 18 de março 2020, com a máscara caída - Pedro Ladeira/Folhapress - Pedro Ladeira/Folhapress
Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

A sensação de falta de ar é horrível. Quem é da área da saúde ou tem familiares ou é uma pessoa que sofre desses problemas entende bem. Entender bem o seu povo deveria ser o papel de todo gestor público. Empatia é se colocar no lugar do outro e perceber que palavras, gestos, ações e omissões podem causar nesse lugar, nessa pessoa. Jamais deveríamos imitar uma pessoa com falta de ar. É falta de respeito, de humanidade.

Não sei se nosso narrador entende dessas coisas de coração, afeto, compaixão e solidariedade. Nosso narrador da pandemia, que discursou aos quatro cantos do mundo de que havia um exagero na dimensão e impacto da pandemia, agora tem data marcada para tomar vacina. Aliás, a mãe dele já tomou a primeira dose.

E assim a narrativa da pandemia segue. As mortes não pararam de acontecer e as vacinas não chegam nas quantidades e dias combinados. Pessoas idosas estão se aglomerando em alguns municípios do nosso país. Agora tem morrido neto, neta, filho, filha, idosa e idoso. A covid-19 vem ganhando da gente com facilidade ainda.

É hora de mudar a narrativa. Não sei se o nosso narrador saberia contar de forma diferente e bem-sucedida o final dessa história. Por fim, cuidado: nem toda pessoa idosa gosta de você.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL