'Desmaiei de estresse, quase morri e me tornei especialista em bom humor'

A humorologista Maryana Rodrigues, 37, usou os traumas de sua vida para fazer uma transformação. Quando jovem, sofreu bullying na escola, não tinha amigos e chegou a desmaiar na sala de aula devido ao alto nível de cortisol no sangue.

Já adulta, entrou em depressão por conta de um comportamento workaholic sem nem ao menos perceber. Ouvir que precisava de remédio foi o gatilho que sua vida necessitava para uma mudança.

A Universa, Mary com Y, como é conhecida nas redes sociais, conta sua história:

Vida sem amigos

"Minha necessidade de me especializar em bom humor começou após um desmaio em sala de aula por conta de estresse.

Hoje, faço palestras dentro de empresas e vejo que o grosseiro e o violento ganham espaço, enquanto o gentil perde. Fico indignada.

Sempre fui uma criança extremamente tímida e que sofria muito bullying na escola. Tinha a voz grossa desde cedo e as crianças tiravam muito sarro de mim. Então decidi que não ia mais falar. Assim, ninguém poderia fazer piadas sobre a minha voz. Escolhi ser mais retraída e ficar em silêncio.

Mas essa opção foi causando problemas que se acumularam. Aos 16 anos, estava assistindo a uma aula de física e, do nada, caí e bati a cabeça. Estudava em uma escola muito difícil, em período integral, e que exigia muito dos alunos.

Por um lado, meu corpo inteiro estava formigando, por outro era como se estivesse anestesiada. Acho que tive um burnout com essa idade, devido ao excesso de cortisol na minha corrente sanguínea. Me sentia rejeitada, excluída, sofria bullying... Tudo isso ajudou para o quadro.

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E não tinha consciência do que estava passando. Ia bem na escola, tirava notas altas. Então minha vida escolar não era um problema para a minha família. Ainda mais porque não contava pelo que estava passando.

Para mim, era normal. Era só a escola. Era o que conhecia. Não estava consciente do meu sofrimento.

Saí da escola para o hospital achando que ia morrer. Não conseguia falar, não sentia meu corpo, estava perdendo os sentidos. Apaguei. O médico chegou no quarto e perguntou para mim se tinha passado por algum estresse ou se tinha brigado com meu namorado na escola. Disse que não. Porque não achava que estava estressada mesmo.

Após falar com o médico, minha mãe foi conversar na escola e entender o que estava elevando meus níveis de estresse. O coordenador educacional a aconselhou a me trocar de colégio.

Essa experiência é um dos motivos pelos quais eu falo de bom humor hoje. Não é no sentido de comédia, mas é trazer essa leveza para quem nem sabe que está doente.

Dentro de muitas empresas existem diversos funcionários a um passo de atingir o nível de estafa. A gente não tem consciência de parar antes de chegar na beira do abismo.

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A mudança de colégio me fez muito bem. Cheguei à beira da morte, mas a escola era mais tranquila, fiz amigos. Parecia que agora tinha sede de viver. Me tornei uma pessoa falante, fui eu quem organizou a viagem de formatura, que tomava a frente quando falávamos em festas. Agora eu era popular.

Decepções no exterior

' Acho que tive um burnout com 16 anos, devido ao excesso de cortisol na minha corrente sanguínea. Me sentia rejeitada, excluída, sofria bullying'
' Acho que tive um burnout com 16 anos, devido ao excesso de cortisol na minha corrente sanguínea. Me sentia rejeitada, excluída, sofria bullying' Imagem: Divulgação

Mas passei por outra queda nessa montanha-russa da vida. Comecei a jogar handebol e tinha uma amiga que jogava muito bem. Ela ganhou uma bolsa para ir para os Estados Unidos, fazer faculdade, por causa do esporte.

Fui incentivada a mandar vídeos meus praticando o esporte e acabei ganhando uma bolsa também, na Universidade de Northwood, em Dallas (Texas), para estudar relações internacionais. E fui para jogar futebol.

Foi a pior experiência da minha vida. Me destaquei mais no esporte que minha amiga, o que despertou o ciúme dela. Ficamos brigadas. No mesmo período, meu avô faleceu e passei por uma lesão que fez com que perdesse a bolsa.

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Voltei para o Brasil com o sonho destruído, sem amiga, após a morte do meu avô, tinha acabado de descobrir que estava apaixonada por uma mulher e em meio a separação dos meus pais. Foi uma avalanche aos 18 anos.

Quis continuar a faculdade aqui, mas percebi que não era para mim o curso. Então troquei por educação física. Minha ideia era voltar para os Estados Unidos e trabalhar com futebol.

Trabalhei em diversos ramos para pagar a faculdade, mas minha carreira profissional com o bom humor começou a se traçar quando uma amiga me chamou para fazer um curso de recreação. Achava chatíssimo, mas abriu o mercado e passei a fazer viagens de formatura com adolescentes por oito anos.

Depressão bateu na porta

Saí de lá e fui para uma empresa especialista em apresentações, na área comercial. Eu vendia treinamentos. Era um mercado muito grande e lucrativo. Vendia muito e me destacava na minha posição. Foi quando dei de cara com meu ego.

Me achava uma vendedora incrível, acreditava que o mundo estava me perdendo. Recebi outra proposta e aceitei. Saí da empresa de sucesso para ir para uma que, ao chegar lá, descobri que estava desmoronando. Mas tinha contas para pagar na minha vida, não podia pular do barco.

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As pessoas tiravam sarro de mim porque tinha trabalhado com viagem para a Disney e era formada em educação física. O local estava tirando minha identidade. Era obrigada a ficar de salto, cabelo liso e maquiagem. Não tinha espaço para a leveza. Sem contar que, como estava infeliz, meu desempenho não era dos melhores.

Minha saúde foi ficando pior e, mais uma vez, não estava percebendo. Um dia, minha mãe chegou em casa e falou que ia me levar ao psiquiatra. Não queria ir. Mas era claro que tinha algo de errado comigo: não falava mais com ninguém, não tomava banho, não saia de casa... Só comia e trabalhava. Achava que estava bem, porque estava cumprindo minhas metas do trabalho.

Bom, aceitei ir ao médico e em 2018 fui diagnosticada com depressão. Não tinha informações sobre a doença e achava que era impossível que fosse o meu caso. Não queria tomar remédios —algo que hoje sou a favor—, então resolvi me aprofundar no assunto e entender essa tristeza.

Fiz um curso no Vale do Silício sobre inteligência emocional, no Google. Mas essa história de 'vai viver seu sonho' não fazia sentido pra mim, eu queria trabalhar.

Resolvi abrir uma empresa para dar palestras sobre este assunto. Chamei uma coach que eu conhecia e junto com mais um sócio criamos a House of Feelings. A primeira escola de sentimentos do mundo. Trabalhava por trás das câmeras.

Até que um dia o RH de uma das empresas que eu atendia pediu para que eu fizesse a apresentação —e só fecharia com a gente sob essa condição. Nós estávamos bem, mas isso gerou um conflito. Saí dessa empresa e deixei tudo o que tinha criado com os outros sócios. Larguei tudo de novo.

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Hora da virada

'Hoje faço palestras dentro de empresas e vejo que o grosseiro e o violento ganham espaço, enquanto o gentil perde. Fico indignada'
'Hoje faço palestras dentro de empresas e vejo que o grosseiro e o violento ganham espaço, enquanto o gentil perde. Fico indignada' Imagem: Divulgação

Passados alguns meses, recebi um convite para palestrar em um dos maiores eventos de RH do país. Não me sentia pronta, mas me ofereci para ser mestre de cerimônias. Queria deixar minha marca, levar meu humor. Não ser alguém esquecível após o evento. Subi no palco de capa.

A partir desse momento passou a ficar claro na minha cabeça o que eu queria levar para dentro das empresas. E, mais uma vez empreendedora, criei a Humor Lab, em junho de 2019. Nela, uso meu jeito de comunicar para treinar lideranças de um jeito leve, mostrando que o bom humor é também uma sensação de bem-estar, não de comédia. A comédia é para fazer rir, o bom humor para fazer bem.

Levo para as empresas ferramentas para ampliar o repertório das pessoas de como lidar com o humor para o bem. Quero ajudar a criar ambientes seguros para os erros, onde as pessoas se sintam confortáveis em serem elas mesmas.

Todo mundo precisa dessa consciência emocional. Estudei muito, fiz pós-graduação em neurociência e muitos cursos para levar isso para as corporações.

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Quero dividir esse conhecimento. Estou criando uma pós-graduação em felicidade e liderança, em que vou falar da diferença de bom humor e felicidade, o que é inteligência positiva, quais os sabotadores desse comportamento em nosso dia a dia. A ideia é trazer a consciência do que é a felicidade e do que um líder feliz é capaz.

Todos nós somos a soma dos nossos traumas, mas acredito que a inteligência emocional funciona como combustível para ajudar a transformar outras pessoas, para que elas não passem pelo que eu passei. Não vou conseguir direcionar a vida de ninguém, mas vou conseguir mostrar os caminhos."

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