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'Com que idade?', 'vou junto?': dúvidas sobre 1ª ida de filha ao gineco

Especialistas recomendam que a consulta inicial de uma garota coincida com a primeira menstruação - iStock
Especialistas recomendam que a consulta inicial de uma garota coincida com a primeira menstruação Imagem: iStock

Glau Gasparetto e Thaís Lopes Aidar

Colaboração para Universa, de São Paulo

05/08/2022 04h00

Recomenda-se que a primeira consulta de uma garota ao ginecologista seja logo após a menarca, ou seja, a primeira menstruação, o que pode acontecer entre os nove e 13 anos, em média. "A partir do momento em que a menina menstrua, já deve procurar o ginecologista para começar a fazer o acompanhamento. Não faz mais sentido ficar com o pediatra", afirma Mariana Rosario, ginecologista, mastologista e obstetra, membro do corpo clínico do hospital Albert Einstein.

Mãe de duas —Maria Fernanda, 22, e Maria Eduarda, 13— a assistente executiva Izildinha Soares, 54 anos, de São Paulo (SP), faz questão de estar presente em todos os momentos da vida das filhas, inclusive nos cuidados com a saúde. "Levei a MaFe ao meu médico, pois era um ótimo profissional e, também, alguém de confiança. No começo foi difícil, pois ela queria uma médica —até fomos em uma, mas não gostei. Então, com muita conversa, expliquei que ele tinha um olhar diferente, que tinha cuidado de mim e feito meus dois partos. E o momento foi muito especial", lembra-se Izildinha. À época, a filha tinha em torno de 16 anos.

A iniciativa partiu da mãe, ao observar que o fluxo menstrual da jovem era irregular, além do fato de ela já namorar. "Precavida, associei as situações e fomos à consulta. Ele explicou tudo, realizou os exames e indicou um contraceptivo. Fiquei mais tranquila e até hoje vamos sempre juntas", relata.

A mais nova também preferiu passar por consulta com alguém do sexo feminino. Dessa vez, Izildinha acatou a solicitação e a levou à profissional que já atendia à família. Antes, porém, visitaram outro especialista, motivadas pela preocupação com a menarca precoce.

"Aos poucos, fui explicando a ela o que poderia ocorrer dali para a frente, porém, aos nove anos, ocorreu a menstruação. Fomos novamente à médica —dessa vez, a da família. Sempre expliquei que consultas com ginecologista são assunto particular, envolvem parte do corpo delas e que a higiene vem em primeiro lugar", pontua a assistente executiva.

Já a produtora de eventos Amelia Lopes, 61 anos, de São José dos Campos (SP), que é mãe de três mulheres —hoje com 25, 27 e 37 anos, teve uma experiência diferente. Ela revela certa melancolia quando se recorda da primeira visita das filhas ao ginecologista. Como à época estudavam fora, Amelia não acompanhou a consulta de nenhuma delas. Se pudesse voltar no tempo, a mãe faria diferente e estaria ao lado, caso as filhas aceitassem a companhia.

Mãe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Amelia Lopes e as três filhas
Imagem: Arquivo pessoal

Ir ou não com a filha?

Segundo a ginecologista e obstetra Camilla Pinheiro, do Centro de Ginecologia e Obstetrícia (CGO), não há uma regra sobre mãe, pai ou responsável entrar com a filha na sala do médico. Entretanto, é obrigatório que um representante legal vá até o consultório quando a paciente for menor de idade, ainda que não participe da consulta.

Camilla destaca que o mais importante é deixar a menina confortável, sobretudo para fazer a escolha de estar ou não acompanhada diante do médico.

Quando há um consenso sobre o tutor aguardar no ambiente de espera, é recomendado que a conversa sobre a consulta ocorra posteriormente, em casa. Além disso, a especialista afirma que "caso exista algo importante para os pais saberem, o profissional é obrigado a informá-los".

Marcar a consulta da filha ou não?

Para a Mariana, a iniciativa de agendar um horário no médico depende muito da relação familiar. "Às vezes, as amigas já vão e a garota diz aos pais que quer ir também. Tem ainda as que não têm nem ideia do que isso significa e, se os pais não falarem nada, mal vão saber o que acontece. Ou seja, depende muito da situação, mas o importante é existir a orientação dos pais", avalia a especialista.

Quando a menor não se manifesta espontaneamente, os responsáveis podem intervir. Contudo, devem sempre conversar de maneira natural e gentil, explicando o que acontece nesse tipo de sessão, apontando a necessidade de cuidar da saúde íntima e sugerindo que a filha procure um médico.

Prós e contras da companhia

De acordo com Camilla, existem pontos positivos e negativos em relação ao acompanhamento de um adulto na primeira visita ao ginecologista. Ela argumenta que a presença de responsável traz a certeza de que as orientações passadas serão seguidas, assim como a segurança de mais alguém estar ciente da consulta. Além disso, esse momento promove uma conversa familiar bastante importante.

Por outro lado, há alguns pontos a serem pesados, que podem até ser considerados desvantajosos. Nesse sentido, a médica aponta a perda da individualidade e da intimidade ao dividir a sala —e, consequentemente, dúvidas e queixas— com outra pessoa, bem como a dependência de um adulto para se expressar.

A especialista Mariana também aponta alguns prós e contras de tais circunstâncias. Quando a filha está com a mãe, algo favorável é a garota se sentir mais segura. "Ela tem a mãe ali para apoiá-la e contar histórias de doenças e outras questões. Isso também mostra que existe um relacionamento aberto, que é importante para o sucesso do desenvolvimento", opina.

Mas a companhia igualmente pode ser ruim, pois a menina —muitas vezes envergonhada— mal fala ou olha para o profissional e não aborda questões importantes. Nesses casos, a consulta acaba não sendo eficiente.

Mãe - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Izildinha Soares com Maria Fernanda e Maria Eduarda
Imagem: Arquivo pessoal

Em outro cenário, sozinha ou na companhia de amigas, a paciente estreante fala de tudo, sem receios, faz mais perguntas e expõe tudo o que acontece —inclusive assuntos que não costuma comentar perto da mãe.

Alexandre Pupo, ginecologista e obstetra dos hospitais Sírio-Libanês e Albert Einstein, acrescenta outra circunstância importante. "Quando mãe e filha estão juntas, esclarecemos como o médico procede em relação ao acompanhamento de uma adolescente e o respeito que se impõe com relação à confidencialidade", diz.

Além disso, ele defende que a ocasião acaba sendo um bom momento para o profissional explanar sobre questões relacionadas à saúde sexual e menstrual, o que gera conforto tanto para a paciente quanto para a mãe que está junto.

Alexandre relata que costuma sugerir que a menina acompanhe a mãe em uma consulta de rotina ginecológica dela. "A consulta é para a mãe e não para a menina, mas serve para ela entender como funciona a dinâmica e, eventualmente, abre-se uma oportunidade para dúvidas, para se expressar, enfim, para que ela tenha um canal aberto", exemplifica.

Afinal, como é a primeira consulta?

"Na primeira consulta, geralmente começamos perguntando o histórico da paciente e explicando sobre as mudanças de seu crescimento. Normalmente, eu só faço exames físicos na segunda consulta, a não ser que haja queixa da paciente", relata a médica Camilla Pinheiro.

Segundo Alexandre Pupo, a primeira conversa envolve a avaliação se o desenvolvimento está adequado e é uma oportunidade para conversar, orientar e esclarecer dúvidas a respeito de fase fértil, que começa a partir de então.

Exames ginecológicos em si, como papanicolau, só vão acontecer depois da primeira relação sexual. Até lá, as análises serão apenas físicas, como do coração, do pulmão e do abdômen, sem nenhuma experiência invasiva.

Quando o ginecologista é homem

Para Alexandre Pupo, com o passar dos anos e o desenvolvimento da maturidade, as garotas percebem que a confiança no médico é indiferente à questão do gênero, sendo muito mais relacionada à qualidade do atendimento, do profissional, do conhecimento que ele tem e do que pode fazer pela paciente.

Se a menina se sente tímida ou intimidada, ele tenta explicar e fazer com que a confiança cresça a ponto de sumirem todas as travas. "Tento mostrar que médico não julga, nem toma partido. Está ali para ajudar a ter a melhor saúde possível", diz

Caso não seja possível, o próprio profissional deve orientá-la a procurar alguém que consiga atendê-la de modo que ela não tenha nenhum tipo de empecilho no relacionamento com o médico.

Situação pode gerar ansiedade

A psicóloga Sirlene Ferreira lembra que ir ao ginecologista pode ser uma situação que gera desconforto e ansiedade às garotas. "É uma novidade na vida delas, que até então visitavam a pediatria e, de repente, passam a se consultar com ginecologista", comenta.

Segundo Sirlene, algumas delas levam para a terapia tal situação. "Algumas relatam vergonha, pois esse lugar é onde falamos da intimidade, de sexualidade. As orientações deixam de ser generalistas e passam a ser pessoais e individuais", observa.

Para ela, a mãe pode colaborar muito na escolha da profissional, nos relatos de suas experiências, ajudar e orientar sobre mitos e verdades. Porém, precisa entender que sua menina cresceu e, a partir dessa fase, terá um profissional que dividirá com ela sua saúde íntima, tendo o direito de ter sua consultas privadas.