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Ex-MasterChef Júnior, Aisha saiu das redes por sofrer racismo: 'Proteção'

Aisha agora escreve um livro sobre sua trajetória - Divulgação/Richard Freitas
Aisha agora escreve um livro sobre sua trajetória Imagem: Divulgação/Richard Freitas

Aisha Santoz em depoimento a Glau Gasparetto

Colaboração para Universa

10/06/2022 04h00

"Está faltando uma". O comentário do chef Erick Jacquin na primeira e única edição do MasterChef Júnior pela Band, em 2015, atraiu as atenções para Aisha Santoz, uma menina fofa, à época com 9 anos, que tinha dificuldade em aparecer detrás da bancada devido à baixa estatura. Tida como uma das preferidas pelo público, Aisha foi eliminada no quarto episódio da atração, com a presença do chef Alex Atala. Dali, apresentou o programa "Cozinha Mágica", no canal Discovery Kids. Após um tempo deixou de aparecer publicamente.

O que quase ninguém sabe é que seu "sumiço" da mídia foi afetado por algo que a acompanharia por um bom tempo: racismo, bullying e 'hate' na internet. O afastamento dos holofotes, ainda pequena, foi a forma que ela encontrou para se proteger.

Agora, 16 anos recém-completados e mais consciente de como pode ajudar outras crianças e adolescentes a lidarem com as situações com as quais viveu, ela deve lançar um livro de memórias, previsto até o final do ano. A seguir, Aisha conta um pouco do que experimentou nesse tempo todo.

A vida de Aisha no MasterChef

aisha - Divulgação - Divulgação
Na época do reality culinário, Aisha tinha 9 anos
Imagem: Divulgação

"Apesar de muito pequena, eu me lembro bem da participação no MasterChef Júnior porque foi tudo bem rápido e intenso. Não foi ideia da minha mãe me inscrever no programa; foi da minha madrinha. Um dia após a inscrição, já nos ligaram, convidando para o teste, em que fui aprovada.

Como acontece em todas as famílias, eu e meu irmão mais velho aprontávamos muita bagunça, que quase sempre terminava em briga. Quando eu tinha 7 anos, minha mãe adotou uma tática para me manter ocupada e longe de problemas: ela me colocava em pé sobre uma cadeira ao lado dela para 'ajudá-la' na cozinha. Cada dia eu aprendia algo novo e minha fama de pequena cozinheira se espalhou pela família.

Quando a Band anunciou o Masterchef Júnior e abriu inscrições pela internet, minha madrinha pediu para minha mãe me inscrever. Mas ela, a princípio, não achava uma boa ideia, afinal, eu era muito pequena e os jurados do programa tinham fama de serem bem exigentes e bravos.

Minha madrinha me inscreveu por conta própria, sem minha mãe saber, fiz a entrevista quando me chamaram, fui aprovada e entrei para o programa aos 9 anos. O resto dessa história, todo mundo acompanhou pela TV.

"Era um sonho, mas também machucava"

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Ainda criança, ela saiu do programa e foi apresentar outra atração no Discovery Kids; hoje, revê papel de influenciadora e a vida na mídia
Imagem: Divulgação

Uma das lembranças mais incríveis que eu tenho da época do programa foi a de chegar na escola e professores e alunos me reconhecendo da televisão. Algumas vezes eu pegava um táxi e o motorista me reconhecia. No shopping, pediam para tirar foto e até aqui no bairro o pessoal batia no meu portão também pedindo foto. Eu adorava aquela atenção toda e ainda ir em outros programas e dar entrevistas.

Posso dizer que, além de muito legal, foi uma experiência muito doida, porque a minha rotina pacata na Zona Leste de São Paulo foi transformada do dia para a noite, com agenda de gravações, escola, atenção do público que gostava de mim.

Eu estava realmente vivendo um sonho até que, após alguns episódios irem ao ar, e mesmo com toda a tentativa da minha mãe de me proteger, de me blindar, comecei a receber também manifestações que não eram legais, que me machucaram e, de algum modo, me acompanham até hoje.

Desânimo com comentários

Algumas dessas manifestações simplesmente faziam ironias por eu ter derrubado meu prato e não ter continuado no programa, mas outras tentavam me diminuir, fazendo referência à minha cor, por exemplo, dizendo que eu não sabia cozinhar e só entrei no programa para cumprir cota racial. Isso me desanimava.

Toda aquela alegria e sensação de sonho realizado foram dando lugar a um medo. Eu não queria mais nem postar fotos nas redes sociais. Na minha cabeça, se eu me tornasse frequente nas redes sociais, estaria abrindo um canal para continuar recebendo mensagens feias.

Talvez pela minha pouca idade, eu atraía muito o carinho e torcida do público, e cheguei a apresentar um outro programa na Discovery Kids, então parecia ser natural seguir na carreira artística e de influenciadora, como a grande maioria de meus colegas de MasterChef.

Toda a produção era muito atenciosa e acho que, por ser um programa mais leve, mais para o público infantil, eu acabava não chegando até pessoas ruins. Apesar de parecer que eu estava protegida, pois sentia o carinho das pessoas envolvidas no projeto, as redes sociais eram o principal canal para manifestação de ódio e preconceito.

Fora das redes sociais

aisha - Divulgação/Richard Freitas - Divulgação/Richard Freitas
Em nova fase, jovem estuda teatro e pensa em fazer Direito ou seguir na área artística
Imagem: Divulgação/Richard Freitas

Tanto que, durante anos, minha mãe é quem cuidava do meu perfil no Instagram. Ela tentava me animar, postava algumas fotos, mas eu não tinha vontade nenhuma de fazer parte daquilo. Enquanto ela fazia isso, ela também apagava comentários ruins, muitos dos quais eu nem via.

No meu perfil, é possível notar grandes intervalos sem postagem alguma. Quando aparecia algo, era a minha mãe tentando retomar a minha rede social. Eu acho que ela tinha um pouco de pena de mim, de ver ex-colegas de programa bombando na internet, recebendo presentes, convites.

Mas eu posso dizer que nada disso me seduzia. Estava bem feliz e tranquila protegida no meu mundinho.

Há alguns anos, não tínhamos a mesma atenção de hoje para essas situações de ódio, haters, racismo. Penso que, se fosse nos dias atuais, poderíamos ter printado as mensagens e ido à polícia, por exemplo. Mas também havia um pouco de medo. Recebíamos alertas de que levantar uma bandeira antirracista poderia fechar portas de trabalho.

Sem celular até os 15 anos

Eu percebia que era algo que não abalava apenas a mim, mas toda a minha família, principalmente a minha mãe. Durante muito tempo, as pessoas a questionavam e especulavam pelos motivos que me tiraram da vida pública. Então, preferia ficar longe de tudo.

Para se ter uma ideia, eu não tinha aparelho de telefone celular, o que só foi acontecer aos 15 anos, quando comecei a ter uma visão um pouco diferente, mais madura dessa história toda e resolvi encarar meus medos.

Na verdade, não tinha medo de ter um celular, mas sofria muita pressão de todos os lados para ser mais presente nas redes sociais. Queriam que me tornasse uma influenciadora, ganhasse mais seguidores e não entendiam como essa busca pela fama não me seduzia.

Eu tinha a desculpa na ponta da língua: 'Eu não tenho celular para tirar fotos'. Teve uma época, quando cresci, que cheguei a ter um aparelho, mas era um modelo antigo e, quando alguém me cobrava, minha nova desculpa era que a câmera não era boa o suficiente para fotos.

É que postar fotos sem qualidade também me deixava insegura, pois novamente eu seria comparada com outras pessoas que postam fotos lindas e conteúdos que não tinha acesso. Fui perdendo o interesse novamente. Logo aquele aparelho quebrou e fiquei novamente sem celular até o ano passado.

Ódio "ao vivo"

Durante um bom tempo, não contei para pessoas novas que conhecia sobre ter participado do Masterchef Júnior. Algumas vezes, me reconheciam. Já esperava que, por inveja ou por prazer mesmo, muitas pessoas poderiam diminuir minhas conquistas e fazer piadinhas, como fizeram antes.

Fui aprendendo a não me abalar com o que vinha da internet. Nem fazia questão de ver o que rolava nas redes sociais. Mas o que me deixava muito triste, muito mesmo, eram as manifestações de ódio ao vivo, o bullying.

Algumas vezes me chamavam para fazer testes, até como atriz, e eu nunca queria ir. Minha mãe ficava muito brava comigo por causa disso. Eu adiava, enrolava o máximo que podia.

Além disso, tentei ter um canal no YouTube de receitas, como vários ex-colegas do MasterChef Júnior, mas não tinha dinheiro para investir em um editor de vídeo, iluminação, essa estrutura toda que os demais tinham acesso. Como me comparavam com quem gravava em estúdio e tinha uma equipe de produção, isso me chateava.

Ou seja, não importava o conteúdo, a receita, sempre sobravam críticas para a qualidade da imagem e até para o tipo de utensílio e cenário que eu usava, que eram as coisas da minha mãe e a cozinha da minha casa.

Como o racismo impacta na vida

Lembro que, logo após o programa, eu mudei de escola. Ao contrário da anterior, onde meus colegas e professores vibravam comigo na tevê, eu percebia sempre uma tentativa de me diminuir. Voltava o assunto da participação apenas por causa de cotas, falavam do meu cabelo, da minha aparência, das roupas que eu usava.

Eu sentia isso de alunos e até de professores. Certa vez, alguns colegas da sala me ofereceram um pedaço de bolo que era vendido na cantina. Eu aceitei e, quando dei a primeira mordida, vi que estava cheio de formigas. Eles tinham achado o pedaço de bolo no chão.

Nunca cheguei a fazer terapia e quando acontecia algum incidente como esse eu não conversava com ninguém. Era muito nova. Só em casa que conversava bastante com meus pais. Eles sempre me lembravam que eu era uma menina linda, que meu cabelo era lindo.

Hoje, já falo sem medo sobre essas coisas, porque já superei o que aconteceu naquela época. Quando era criança, acho que não entendia muito bem o que estava acontecendo.

Em outra situação recente, estava na escola e uma professora me disse que eu não podia fazer bagunça e devia me comportar porque eu era preta. O que me deixou também muito triste na época foi que eu reclamei com a direção da escola e eles ficaram do lado da professora, tentando a todo custo minimizar um ato racista.

Aos poucos, estou me sentindo mais confortável de trazer essas lembranças à tona. Realmente acredito que me abrir sobre isso pode ajudar outras crianças a não tolerarem esses tipos de ataques.

Às vezes, como aconteceu comigo, algo que para alguns é uma brincadeira boba, para uma criança é uma humilhação que pode formar o jovem e o adulto que ela será no futuro. Ainda bem que tive muita gente legal ao meu lado que tem me ajudado a superar tudo isso.

Acabei me tornando uma pessoa muito introvertida. Gosto de ficar em casa, não sou muito baladeira — tenho mais interesse em ir a shows.

Quando estou em lugares onde não me sinto à vontade, não chego para fazer amizade com as pessoas que estão ali. Para falar a verdade, nunca tive muitos amigos próximos. Atualmente, ainda é possível contar nos dedos de uma mão os amigos que eu tenho.

Adoro encontrá-los nos finais de semana e, também, estar com a minha família - minha mãe e irmão são grandes companheiros de diversão.

Por que se expor novamente?

Comecei a escrever minhas memórias, na segurança do meu quarto. O processo de escrita, em si, começou a funcionar como uma terapia, que me deu coragem e um novo propósito. No livro, vou contar um pouco da minha história, memórias e trazer reflexões sobre como reagimos ao racismo e ao bullying, e o que isso fez comigo e com minha autoestima.

Há alguns meses, voltei com gás total para redes sociais e não pretendo me fechar de novo por causa de ninguém. Não vou deixar ninguém ter poder sobre o que eu faço da minha vida.

No que estou escrevendo, pretendo contar como foi a minha entrada no Masterchef Junior, gravar o Cozinha Mágica no Discovery Kids, as publicidades que fiz e os bastidores dessa fase que estive na mídia.

Minha ideia é mostrar como uma garota preta passou a se sentir orgulhosa e bem com o cabelo, com seu estilo, com a cor da sua pele. Vou ser sincera sobre tudo que passei, mas não de uma forma vitimista e, sim, tentando ajudar outras crianças e jovens que passam pelas mesmas situações.

Espero ajudar outras pessoas que vivem isso. Comigo foi assim: comecei a ganhar confiança e levantar minha cabeça inspirada por outras jovens empoderadas que eu via lutando e pensava que, se eu tivesse seguido pelo caminho da fama, poderia estar usando a minha voz para colaborar.

Quando a Caroline Dias de Freitas, da DISRUPTalks, que é conhecida como publisher das celebridades, topou lançar o meu livro, foi uma alegria imensa.

Planos para futuro

Estou cursando o segundo ano do Ensino Médio, estudando teatro e penso seriamente em seguir a dramaturgia como profissão. Mas também penso em cursar Direito. Como influenciadora, estou de volta às redes sociais e acredito que, se tiver que acontecer, será.

A cozinha e a culinária continuam muito presentes na minha vida. Eu realmente gosto de cozinhar, além de representar um momento muito importante da minha vida. Se não fosse meu interesse precoce pela gastronomia, nem estaria aqui, respondendo a uma entrevista. Mas, hoje, tenho certeza de que não é algo que eu gostaria de seguir como profissão mas, sim, como um hobby, uma diversão, da mesma forma quando eu era bem pequena e ajudava minha mãe.

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