PUBLICIDADE

Topo

Sexo

Menos explícito e com história: alta de público feminino muda filmes pornô

Cena da série sensual Leaks do Sexy Hot, que conta a história de um trisal. A primeira do canal a não ter conteúdo explícito  - Divulgação
Cena da série sensual Leaks do Sexy Hot, que conta a história de um trisal. A primeira do canal a não ter conteúdo explícito Imagem: Divulgação

Rafaela Polo

De Universa, São Paulo

29/05/2022 04h00

A indústria pornográfica, em seu histórico, é feita por homens e pensada para agradá-los. Penetrações exageradas, gemidos altos, diversas posições durante a mesma transa? Tudo isso pode ser muito excitante para eles. Mas e para as mulheres? Os conteúdos estão mudando e, com a participação feminina de forma mais ativa, eles ganham novas cenas, formatos e jeitos de apresentar o mundo erótico.

Os números provam: o canal de conteúdo adulto por assinatura, Sexy Hot, fez um levantamento, em parceria com uma empresa de pesquisa de mercado, e descobriu que 44% da base de assinantes de sua marca é composta por mulheres. "Estamos trabalhando em uma mudança de posicionamento da marca muito fortemente há dois anos. Com isso, passamos a ter um olhar mais abrangente e inclusivo da indústria, indo além do masculino, em todos os aspectos", diz Cinthia Fajardo, diretora-geral do Sexy Hot.

A transformação, segundo ela, não aconteceu apenas no conteúdo final, mas também nas equipes que produzem esses materiais para o canal. "Buscamos conteúdos que contaram com mulheres trabalhando atrás das câmeras, com produção e direção. Trazendo assim, um ponto de vista mais feminino para a história", diz.

Olhar mais feminino, leve e sensual

Atriz da indústria adulta e criadora de conteúdo erótico há cerca de nove anos, Lis, de 25 anos, conta que apersar de estar acompanhando a transição, ela não chegou a ser exposta ao ?velho pornô?, essa versão mais masculinizada do setor. - Acervo pessoal - Acervo pessoal
Lis diz que ela já não chegou a ser exposta ao 'velho pornô', essa versão mais masculinizada do setor.
Imagem: Acervo pessoal

Atriz da indústria adulta e criadora de conteúdo erótico há cerca de seisanos, Lis, de 25 anos, conta que apesar de estar acompanhando a transição, ela não chegou a ser exposta ao "velho pornô", essa versão mais masculinizada do setor. "Não participei desse formato, de produtoras mais nichadas e antigas, que não era bacana. Já vim com um outro olhar, mais feminino, leve e sensual", diz.

Ela é protagonista da série "Leaks", que conta com um pornô soft e menos explícito, onde o casal Cláudia e Bruno se mudam para o apartamento de Alberto. Ficando muito em casa, Cláudia passa a sentir atração também pelo dono do imóvel, criando assim, uma espécie de trisal entre os três.

"A série foi gostosa de fazer porque vem de uma mudança que queremos ver, um movimento legal na produção de conteúdo adulto. Ela é soft, aflora o desejo e instiga a imaginação, o que também é gostoso", conta. Até mesmo o público masculino deu feedbacks positivos sobre a série e seu formato não explícito. "Só reclamaram que é curta demais", conclui Lis.

Mas a aposta não foi feita no escuro. "Frequentemente fazemos pesquisas. Em uma realizada no país, não só com assinantes do canal, percebemos que havia uma grande quantidade de pessoas que gostavam de ver conteúdos eróticos, mas não explícitos. Identificamos esse espaço para testar com o público que já gosta de pornô e que, em um momento mais leve, pode ver a dois algo menos gráfico", diz Cinthia.

Mudança na internet

Antes de fazer parte do elenco de grandes produtoras, Lis produzia seu conteúdo erótico sensual sozinha, disponibilizando-os em suas redes sociais. Ela também precisou adaptar e pensar em novas maneiras de fazer seus posts, em busca de um público mais feminino. "Meus seguidores são majoritariamente do público masculino. Mas de uns tempos para cá, vi uma mudança e a chegada das mulheres. Passei a produzir posts mais softs e com enredo que chamavam a atenção delas também nas minhas redes", conta a atriz.

Ela não sabe dizer exatamente o que mudou do que fazia antes para o que posta agora, mas sabe o que nunca vai produzir. "Há muitas coisas que nunca me dispus a fazer, como conteúdos mais agressivos, machistas e que colocam a mulher em um lugar inferior, a prejudicando de alguma forma", conta. O que ela sabe apontar que transformação, foi sua própria postura. "Eu me preocupo muito com a produção, tenho um olhar diferente, quero saber como estou atingindo o público, se estou os instigando", diz. Ela quer fazer produções mais bonitas e femininas, como gostaria de ver.

O preconceito ainda existe

Mesmo com mais presença e busca, o preconceito com as mulheres que trabalham na indústria ainda existe. "Acho que essa mudança está por vir. O preconceito existe, de forma sutil, mas acho que está rolando uma consciência maior do consumo", conta. Ela, por exemplo, gosta muito de atuar e está fazendo curso de teatro. Apesar de fazer filmes eróticos, também quer ser reconhecida como atriz.

"Muita gente acha que pornografia é só chegar no set e fazer putaria, mas somos atores e precisamos de espaço para sermos reconhecidos como tal. Fazer conteúdos mais semelhantes a 'Leaks', por exemplo, alimenta a indústria e mostra que a mulher não é mais apenas um buraco", destaca. No "velho pornô", as mulheres são apenas um objeto do desejo masculino. Nos novos formatos, o tesão dela também é levado em conta.

"Já vi pessoas falando na internet coisas absurdas como 'atriz pornô falando de política?" ou "querendo ser cantora?". Nós somos artistas, não tem nada de diferente. Acredito que a mudança é parte de um processo, mas fico feliz em saber que meus conteúdos vão além disso", conta.

Lis concluiu sua conversa com Universa dizendo que gosta de gravar cenas pornográficas, sensuais e explícitas, mas que vê filmes de streaming com essa pegada sendo reconhecidos quase como obra de arte, ao contrário do que acontece com as suas produções. "Estamos buscando reconhecimento, porque a dedicação é parecida. Acredito que será uma consequência natural", fala.

Errata: o texto foi atualizado
Lis, a atriz da reportagem, tem 6 anos de experiência no mercado. A informação foi corrigida.

Sexo