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Minha história

'Perdi bebê por excesso de trabalho e empreendi durante segunda gravidez'

Paula Cohn e a filha  - Arquivo Pessoal
Paula Cohn e a filha Imagem: Arquivo Pessoal

Paula Cohn em depoimento a Carolina Torres

Colaboração para Univesa, do Rio de Janeiro

19/05/2022 04h00

"Nasci em uma família unida, com figuras femininas marcantes por suas histórias de resiliência. Minha avó materna veio ao Brasil fugida da Segunda Guerra. Fui criada por ela desde que tinha 1 ano, depois de perder meus pais. Talvez por isso, minha criação tenha me preparado para me tornar uma liderança em um mercado de trabalho competitivo e pouco favorável às mulheres.

Ao mesmo tempo, pelas raízes empreendedoras que sempre foram o meu pilar de sustentação, fui estimulada a fugir do sonho do "negócio próprio" e buscar trilhar uma carreira que trouxesse a segurança do registro, com salário e benefícios estabelecidos.

Paula Cohn - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Paula Cohn
Imagem: Arquivo Pessoal

Como sempre fui comunicativa, escolhi o jornalismo como profissão. Na faculdade, atuei como repórter na cobertura esportiva e depois, somando outras experiências, dei meus primeiros passos naquela que se tornaria minha grande paixão: a comunicação corporativa.

Tinha sede de aprendizado. O meu trabalho em uma grande agência de comunicação, uma das maiores do país à época, foi a principal escola, pois aprendi a transformar boas ideias em estratégias efetivas, além de lidar com demandas complexas, gerir crises e liderar um time com perfis diversos.

Eu tive ascensão rápida e consciente —eu sabia o que queria e até onde podia chegar. Mais do que isso, queria galgar posições e tnha na minha cabeça total clareza dos passos que desejava dar.

Paula Cohn e o marido Israel - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
A jornalista Paula Cohn e o marido
Imagem: Arquivo Pessoal

Sob forte estresse

Em 2009, engravidei da minha primeira filha, Carolina. No entanto, ao invés de diminuir o ritmo, aumentei. Não via a situação como um possível obstáculo. Entrava cedo, saía tarde, participava de reuniões complexas, onde muitas vezes eu era a única mulher presente na sala.

Para além da pressão dos assuntos em si —em muitos casos eram gestões de crise ou temas de grande impacto para os negócios—, havia nas entrelinhas a necessidade de estar sempre inteira, firme, lidando com forte estresse. Me sentia o tempo tendo que provar meu valor "apesar da gravidez".

Com 32 semanas de gestação, cheguei em casa irritada por alguma bobagem no trabalho.

Pela madrugada, acordei assustada e molhada: estava em trabalho de parto prematuro, motivado pelo estresse. Minha filha viveu apenas cinco dias.

Por motivos religiosos, não participei do enterro da minha filha —sou judia. E durante os primeiros dias de luto, foi muito difícil receber visitas ou ligações de condolências, o que é comum em minha religião. Não queria viver aquilo. Então, pouco tempo depois, voltei ao trabalho. Na época, foi a forma que encontrei para não sucumbir. Queria dizer a todos e a mim mesma que estava viva e continuaria vivendo.

Paula grávida de Isabela, sua segunda filha, junto ao marido - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Paula grávida de Isabela, sua segunda filha, junto ao marido
Imagem: Arquivo Pessoal

A mágica sumiu

Mas foi um período muito mais difícil do que imaginava. Muitas pessoas com quem lidávamos foram avisadas, mas algumas não e era sempre um momento duro e constrangedor o de avisar que ela não tinha sobrevivido quando me perguntavam "como está o bebê".

Os olhares eram estranhos. As pessoas têm muita dificuldade de lidar com a morte e, nesses momentos, elas têm receio de falar, mas você percebe um olhar muito específico. E isso tudo somado acabava me levando de volta ao trauma. Até o barulho do toque do telefone me remetia às máquinas do hospital. Fiquei com pânico de atender o telefone por muito tempo.

Percebi então que ali, naquele trabalho, não seria mais feliz. A mágica havia sumido. Todo aquele plano incrível de carreira não fazia sentido algum. Sabia que era hora de abrir minhas asas. Então, saí, moldei, gestei e dei nome ao meu "arco-íris": a Digital Trix, meu voo como empreendedora.

A criação da agência, ao lado de três pessoas que conheci ao longo da minha jornada profissional, abriu uma nova perspectiva e fase da minha vida. Era o recomeço que, talvez, sentisse que não tinha tido e precisava. Só pude criar um negócio do zero, com uma estrutura mais enxuta porque estávamos abertos a confiar uns nos outros.

Enquanto experimentava o plano de iniciar meu negócio, descobri que estava grávida novamente. Dessa vez, durante a gestação, me equilibrei e controlei meus impulsos e horários, além de me afastar de situações que causassem estresse dentro e fora do trabalho. Em 22 de abril de 2011, a Isabela chegou. Meu marido foi meu porto seguro. Senti que podia preencher meus pulmões e respirar mais uma vez.

Sentindo esse apoio perto de mim e respirando novamente, continuei a batalhar pela minha carreira, equilibrando os pratinhos com a maternidade. Três anos depois, porém, uma nova perda importante na família: minha avó materna, que me criou desde o meu primeiro ano de vida.

Tanto ela como meu avô foram sobreviventes do nazismo e, durante a Segunda Guerra Mundial, ficaram em campos de trabalho na Ucrânia. Minha avó assistiu o pai cavar a própria cova. Então, eu e minha família aprendemos a falar sobre a morte com naturalidade.

Família reunida: Paula, Gabriel, Israel e Isabela - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Família reunida: Paula, Gustavo, Israel e Isabela
Imagem: Arquivo Pessoal

Ignorar as perdas, é um erro. A dor não vai sumir, pelo contrário, você só vai amargar mais esse sofrimento e sentir solidão. Mas essa é a parte em que posso dizer que fui privilegiada: fui conduzida nesse processo por quem sabia exatamente o que era ser órfão desde criança. Eu venho de uma família amorosa, mas marcada por muitas tragédias

Equilibrando os pratos

Neste momento, voltei a viver momentos de apreensão durante a minha terceira gravidez. E é claro que, nessas horas, muita coisa do passado e de outros traumas e medos voltam com força. Fiquei quatro meses de repouso por um problema de saúde. Já com 22 semanas de gestação descobri um encurtamento do colo do útero, e pelo estágio avançado, não seria possível intervir.

Em 14 de agosto de 2014, o Gustavo, meu terceiro filho, nasceu. Por três (longos) dias ele ficou em observação na UTI neonatal e me lembrei que não era imune à dor. Meu filho é luz.

Meus sócios na empresa se desdobraram por um ano para que eu pudesse superar mais esse momento. Quando voltei, era o momento de crescer e colher os frutos. E, mesmo depois de quase 12 anos, sinto que temos muito pela frente.

Paula Cohn e seus sócios na agência Digital Trix - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Paula Cohn e seus sócios na agência Digital Trix
Imagem: Arquivo Pessoal

Contar com todo esse apoio foi essencial ao longo da jornada. Sem o meu marido, família e sócios a história não seria a mesma. Empreender requer um mix de coragem, senso de direção e uma dose de adrenalina.

Equilibrar os pratos da maternidade e da carreira não são tarefas fáceis. Apesar de antes não ter sido claro, aprendi que é fundamental dosar o tempo gasto em ambas as atividades.

O desafio é grande, mas poder hoje tornar realidade aquela grande paixão que descobri ainda na faculdade faz tudo fluir melhor.

Empreender é sair da zona de conforto, mas é também encontrar novos propósitos. Hoje, como mãe e sócia-fundadora da Digital Trix, que sorte a minha em estar bem acompanhada por todos os lados nessa jornada.

Paula Cohn Mor, 40 anos, é sócia-fundadora da agência de comunicação Digital Trix e mora em São Paulo

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