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Negras e viajantes: coletivo quer incentivar mulheres a caírem no mundo

Correspondentes de viagem do coletivo Bitonga Travel produzem conteúdo sobre diferentes destinos - Reprodução/Instagram
Correspondentes de viagem do coletivo Bitonga Travel produzem conteúdo sobre diferentes destinos Imagem: Reprodução/Instagram

Rute Pina

De Universa

20/01/2022 04h00

Cinco mulheres negras, 14 dias e uma história ancestral. Em dezembro de 2021, um grupo de viajantes brasileiras foi à Colômbia desbravar a história negra do país vizinho. Lideradas pela enfermeira e influenciadora Rebecca Aletheia, 36, elas viajaram da cidade de Cali à Amazônia colombiana buscando suas próprias raízes.

Elas pertencem ao coletivo Bitonga Travel, criado por Rebecca em 2018. A enfermeira percebeu, após uma viagem internacional que fez sozinha, que faltavam referências de mulheres negras viajantes. Então, decidiu compartilhar experiências e conectar outras mulheres que viajavam.

O primeiro evento do Bitonga Travel foi um piquenique no Guarujá, litoral de São Paulo, onde um grupo de 14 mulheres compartilharam histórias e decidiram criar o coletivo. Hoje, o grupo tem mais de 200 correspondentes que compartilham seus relatos de viagens e divulgam seus roteiros. Elas também criaram um podcast para contar as narrativas de mulheres negras viajantes. "É um quilombo de mulheres pretas que produzem conteúdo sobre viagem', define a idealizadora.

A professora de geografia Lucienne Ribeiro, de 37 anos, participa do Bitonga desde sua criação. Além de dezenas de viagens pelo Brasil, ela já viajou para África do Sul, Argentina, Uruguai e Colômbia. "Sempre tive um olhar focado na parte social e cultural nas minhas viagens. Com o grupo, podemos incentivar outras mulheres a fazerem o mesmo. Assim, conseguimos criar um estilo próprio e encontrar nossa identidade de viajante.

Lucienne explica que nem todas as viagens destinadas a passeios em comunidades negras. "Geralmente, o relato sempre tem como ponto central a experiência de ser uma mulher negra viajando ou como as comunidades negras se apresentam naqueles locais, mas isso é bastante espontâneo."

Para a professora, a viagem para a Colômbia foi a experiência mais marcante. "Estávamos em cinco e nos conhecemos lá. Foi uma experiência muito gratificante porque a acolhida em Cali, a segunda cidade mais negra da América Latina depois de Salvador, na Bahia, foi surpreendente", lembra.

A experiência fez com que a professora também se sentisse mais conectada com o subcontinente. "Eu pensei muito em como nos sentimos separados do resto da América Latina por falar português. Mas, mesmo tendo essa barreira do idioma, foi uma experiência muito boa para ver como é essa manifestação do negro em outra cultura que não a brasileira. Conhecemos ritmos e a comida, que é uma gastronomia muito familiar."

Com o apoio do Bitonga Travel, onde as viajantes compartilham dicas de passeios e de segurança, Lucienne conta que se sente mais confortável em fazer viagens sozinhas, mesmo não falando nenhum outro idioma além do português. "Sou da periferia da Grande São Paulo, de Franco da Rocha, e por muito tempo achei que não poderia acessar outros lugares", diz a professora. "Temos duas marcas sociais de risco: ser mulher e ser negra. Isso às vezes não incentiva a gente a sair sozinha, mas trocar experiência com outras mulheres faz diferença."

Viajar como um direito

Rebecca Aletheia, idealizadora do Bitonga, organizou a viagem para a Colômbia em pouco mais de dois meses. "Agora, as pessoas me procuram para que eu ajude com roteiros. Hoje mesmo uma mãe de santo me ligou para dizer que estava indo para a Suíça em duas semanas. Ela tem 47 anos, não sabe falar inglês e estava receosa em como começar a viagem. Então, também tem uma parte de trazer o acolhimento de mulheres e de todas as idades", conta.

Embora o Bitonga tenha parcerias com empresas, Rebecca explica que o coletivo não pretende ser uma agência de viagem, mas que faz parcerias para oferecer mais pacotes e destinos que pensem a experiência de mulheres e da história negra.

Ela, que já visitou 31 países e 24 estados brasileiros, conta que nunca se imaginou como viajante. "Essa possibilidade nunca tinha sido dada a mim, ao contrário de muitas pessoas que já nascem viajando pela Europa e Estados Unidos", diz a enfermeira. "Não tenho aquele luxo de dizer 'joguei tudo para o alto e fui viajar'. Eu tenho que correr todos os dias para conseguir ter o dinheiro do próximo mês e garantir o bem-estar da minha família, os custos de casa."

Para Rebecca, viajar é uma busca por identidade. "Quanto mais longe eu vou de casa, mais minha raiz se finca e me diz de onde eu sou", afirma. "Minha missão no mundo é mostrar que mais mulheres podem. E que viajar não é um luxo, é um estado de bem viver. Quando a gente coloca algo como muito luxuoso, isso fica muita distante. E a gente desaprendeu que é um direito se divertir, ter prazer."

A próxima viagem coletiva do Bitonga está marcada para agosto deste ano, e a Colômbia é, de novo, o destino do grupo. Elas planejam participar do Festival de Música do Pacífico Petronio Álvarez, um dos maiores eventos de cultura afro da América Latina.

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