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Autora questiona feminismo construído a partir da ótica de mulheres brancas

Koa Beck é jornalista e autora do livro "Feminismo branco: das sufragistas às influenciadoras e quem elas deixam para trás", lançado no Brasil pela editora Harper Collins - Divulgação
Koa Beck é jornalista e autora do livro "Feminismo branco: das sufragistas às influenciadoras e quem elas deixam para trás", lançado no Brasil pela editora Harper Collins Imagem: Divulgação

Nathália Geraldo

De Universa

15/09/2021 04h00

Se você entende que a mulher deve ter autonomia e que, independentemente do gênero, as pessoas têm direito a acessos e oportunidades iguais na sociedade, talvez se identifique com o feminismo ou esteja ligada a alguma vertente da luta pelo fim do patriarcado e da discriminação de gênero.

Mas, como todo movimento de pessoas, o feminismo não é único. E é a partir desse fato que a jornalista e escritora norte-americana Koa Beck produz suas críticas no livro "Feminismo Branco: das Sufragistas às Influenciadoras e Quem Elas Deixam para Trás", da editora Harper Collins, lançado no mês passado no Brasil.

Birracial, se identificando como uma pessoa de pele clara, lésbica —ou queer, termo que prefere usar na entrevista para Universa— e com currículo no jornalismo com cargos como ex-editora chefe do site Jezebel e ex-diretora executiva do Vogue.com, Koa usou 376 páginas para questionar: e se o feminismo branco não fosse o "padrão"? E, afinal, o que feministas brancas podem fazer para contribuírem e não excluírem as pautas que são urgentes para as mulheres coletivamente?

Além de mostrar "quem ficou de fora" das conquistas desse feminismo ao longo da história — mulheres negras, indígenas e trans, por exemplo — a escritora critica a falta de pulso firme das feministas brancas em relação a mudanças estruturais no mundo corporativo. Mas, se diz otimista para o futuro dos feminismos nos Estados Unidos e globalmente, se houver algumas mudanças. "Acho que a alfabetização racial é imperativa para qualquer movimento feminista", pondera, entre as possibilidades.

Universa - A palavra "feminismo" é cada vez mais popular, mas o que você ouve sobre ela que mais a chateia?

Uma associação que realmente me incomoda é a ideia de que o feminismo é lucrativo. Que quando as pessoas estão usando os termos "feminismo" ou "feministas", principalmente as empresas, estão na verdade falando sobre uma marca ou um produto, algo que você pode comprar. Eles não estão necessariamente falando sobre movimentos, pessoas ou direitos, crenças ou estratégias. E isso me incomoda.

Como falar sobre gênero, sem deixar de abarcar os recortes de raça e classe?

Para mim, e para muitas das teóricas feministas em meu país com que aprendi e que cito no livro, feminismo é sobre classe e raça, orientação sexual e identidade de gênero.

É apenas dentro da definição de feminismo branco que se fala apenas de sexismo. E acho que isso é muito revelador. Quando você olha para práticas feministas brancas versus as estratégias e movimentos de mulheres da classe trabalhadora, de mulheres queer, de mulheres indígenas, no meu país, é muito diferente.

Por que você escolheu a jornalista Bela Reis para escrever a introdução do livro na versão brasileira?

Bem, para ser honesta, ela foi trazida para mim pela editora. Quando consegui olhar o trabalho dela, o que pude encontrar que foi traduzido, vi alguém que tinha uma verdadeira voz no Brasil, e que estava falando sobre política feminista de uma forma muito contemporânea.

Queria uma feminista brasileira que situasse o livro para o público brasileiro. Porque não sou fluente em política brasileira, mas acompanho as notícias. Quando Marielle Franco foi assassinada, fiquei muito impactada com o que vi, das mulheres protestando contra a morte dela e exigindo respostas sobre o que aconteceu —e, pelo que sei, isso ainda está em andamento.

Nos debates feministas, há quem diga que reforçar a minoria que se pertence é "dividir o movimento". Você e Bela destacam as próprias identidades no livro. Por que?

koa - Divulgação - Divulgação
A jornalista questiona o feminismo "corporativo" e a contribuição dele para a luta das mulheres por igualdade
Imagem: Divulgação

É importante citar todas as identidades e trazê-las, porque é um ponto de discórdia que eu e várias outras feministas identificamos —de agora ou de muitas gerações, que são de cor, pobres, gordas, deficientes. Muitas vezes somos confrontadas exatamente com esse tipo de comentário: "Você está dividindo [o movimento] ao mencionar que é negra, que é lésbica, que é trans".

Acredito que há lugares que mulheres e pessoas não-binárias, de diferentes orientações e repertórios, podem estar juntos. E em um movimento que ultrapasse as classes, raças, identidades de gênero. Mas o ponto que levo no livro é que o feminismo branco não é o caminho para chegar a isso.

Quando entro em espaços de feministas brancas, digo que sou queer, birracial, porque quero que saibam que experimentei coisas diferentes como um gênero marginalizado. E isso é importante para as conversas feministas que teremos.

Você diz que o feminismo branco é "um sistema de crenças, um estado de espírito". Quais são os pontos mais fortes disso?

Há tantos, mas diria que o de que o mais forte é o indivíduo. Se você é feminista e se identifica com a ideologia e a prática feministas brancas, está pensando apenas em si mesma, no quanto de dinheiro você precisa.

Você só pensa no seu negócio, nos seus filhos. Não pensa na sua comunidade, na sua vizinhança, sabe, nas trabalhadoras domésticas que entram na sua casa e cuidam dos seus filhos e limpam para você trabalhar e ganhar dinheiro para sua família ou para você mesma. Então, eu diria que é definitivamente o mais forte.

E qual é o impacto da existência do feminismo branco na luta coletiva das mulheres?

O impacto tem sido muito individualizado. Ao pesquisar o livro e escrevê-lo, pensando nas mulheres com que trabalhei ou que entrevistei, posso ver espaços onde o feminismo branco, apesar das minhas críticas, ajudou uma mulher muito específica. Ajudou a colocar a família dela em uma faixa socioeconômica diferente, trouxe com oportunidades profissionais, um nível de autonomia e mobilidade que ela não teria.

Mas, novamente, você ainda está falando de muitas mulheres de classe média, em uma conferência, que foram capazes de começar um negócio e conseguir investidores e podem comprar muitas coisas para seus filhos... Não das mulheres coletivas, das que são babás, das que vêm limpar.

Além disso, o feminismo branco não pede que instituições, corporações e órgãos governamentais mudem tanto. Essa é outra razão pela qual tem durado, e porque tem sido muito palatável para as empresas, porque elas podem permanecer as mesmas. Ele não exige muitas mudanças estruturais.

Como criar um diálogo entre quem segue outras linhas de feminismo e as feministas brancas? Existe uma forma pacífica?

Definitivamente, sim. Quer dizer, sinto que há uma oportunidade real com este livro. Sou uma pessoa otimista. E acho que a alfabetização racial é imperativa para qualquer movimento feminista.

Por isso, passo o último terço do livro traçando uma 'correção' de curso para o feminismo branco. Na minha opinião, uma forma de dialogar com feministas brancas, antes de mais nada, é começar com essa narrativa.

Poderia dizer a alguém: 'Doe para o Black Lives Matter', certifique-se de participar desses comícios. Mas o que realmente importa para começar, como um ponto crítico, é com a história, para que realmente entendam e saibam que existem mulheres que defendem coisas completamente diferentes.

Muitas mulheres que leram meu livro nos Estados Unidos me dizem que não sabiam que existiam diferentes movimentos feministas. Realmente acreditam que o feminismo branco é o feminismo padrão. Aqui, fizeram um trabalho muito bom ao apresentar a narrativa de que o feminismo branco é o dominante, e, portanto, o mais importante.

Por isso, em minhas conversas com feministas brancas, mesmo antes deste livro ser lançado, dizia sobre os jeitos diferentes de abordar o feminismo, sobre os grupos que falam de opressão estrutural de maneiras muito, muito diferentes.

Vemos muitas capas de revista com mulheres negras, indígenas, trans. Qual é o valor dessas imagens para discutirmos o feminismo hoje?

Pelo que vejo da mídia aqui, uma mulher negra na capa acaba sendo a desculpa para muitos outros episódios de racismo.

A representação é importante parte de algum discurso, mas, é bom olhar para além dos indivíduos, para as políticas e as estruturas que fundamentam as mulheres que fizeram aquela capa de revista, por exemplo. Como os empregadores estão as tratando? Elas têm descanso?

Quanto se limita a uma capa de revista para indicar progresso, nós voltamos ao modelo do feminismo branco, uma única mulher, que é negra, cis e rica. Mas, e a mulher que trabalha no set? Que a vestiu? Que coordenou tudo? E as mulheres que fizeram os trabalhos domésticos para limpar o escritório quando todo mundo foi embora?

Vivemos uma nova era do feminismo?

Não posso falar globalmente, mas há um movimento de caleidoscópio. Falamos tradicionalmente em ondas do feminismo. Mas isso é um pouco limitante e tende a colapsar tudo em uma ideologia, porque sempre há muitos movimentos diferentes.

Agora, com as redes sociais, há muitos movimentos ao mesmo tempo e você pode achar algo sobre eles na internet, não precisa se ligar a eles fisicamente até, pode ser pelo Instagram, pelo TikTok. Isso está acontecendo para melhor, e chama atenção para algo que sempre esteve lá. Há vozes de muita gente reivindicando causas particulares. Há um movimento multifacetado, que agora tem sido divulgado com mais atenção do que há quatro anos, por exemplo.

É possível que o feminismo não seja político?

Não. Pessoalmente, chego ao feminismo através de lentes políticas. Dito isso, posso ver como isso é muito expandido para outras pessoas. Para algumas mulheres, o fato de serem gordas e se identificarem dessa forma é política para elas.

Essa expressão [ser política] pode abranger muitas realidades diferentes. E a grande pergunta a se fazer é: as mulheres e as pessoas não-binárias podem experimentar algo que não seja político?

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