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Paula Lima quer inspirar pessoas a buscarem "o caminho do bem"

Paula Lima foi madrinha das categorias que tratam de Equidade de Gênero do Prêmio Inspiradoras - Alile Dara/UOL
Paula Lima foi madrinha das categorias que tratam de Equidade de Gênero do Prêmio Inspiradoras Imagem: Alile Dara/UOL

Patrícia Junqueira

Colaboração para Universa

27/11/2021 04h00

Paula Lima está determinada. A cantora acredita que, agora, tem a clareza de quem é, do que quer e de seu papel na sociedade. "O palco definitivamente é o meu lugar", diz a artista que quer usar sua voz e sua arte para inspirar as pessoas a buscarem "o caminho do bem". "Acho que eu tenho essa missão de fazer com que as pessoas reflitam sobre os bons sentimentos, os bons caminhos e o que realmente importa".

Mais do que nunca, ela sabe que a vida é uma só e "não vale a pena dar espaço para coisas pequenas e coisas banais, porque depois a gente vai se arrepender". A cantora ainda convive com a dor causada pela morte do marido, Ronaldo Bomfim, por erro médico, em 18 de maio deste ano. "Eu morro de saudades dele."

O luto, no entanto, tem se transformado em inspiração para seguir em frente e produzir. "Estou fazendo um disco e outros trabalhos muito legais estão pintando. Apesar de ele não estar aqui presencialmente, eu sei que ele está espiritualmente." Também tem contado com uma rede de afeto, formada por parentes e amigos.

Na terça passada (23) ela participou do evento em que foram reveladas as vencedoras do Prêmio Inspiradoras, realizado pela parceria entre Universa e o Instituto Avon. Na entrevista a seguir, concedida por videoconferência, Paula conta sobre esse período difícil e também sobre criação, novos trabalhos e as mulheres que a inspiraram.

UNIVERSA - Você tem uma presença marcante nas redes sociais, se posicionando muito claramente sobre temas políticos e sociais. Você diria que esse é um papel social do artista?

Paula Lima - Eu acredito que pessoas públicas devem pensar no coletivo. Tento dar voz a quem não tem e, de alguma maneira, somar a esse futuro próximo para que seja próspero e que haja, de fato, uma transformação verdadeira na sociedade. Luto muito para que as injustiças diminuam e para que haja menos desigualdade. Não consigo ficar em paz me mantendo à margem disso, fazendo o papel de que não estou entendendo ou então que isso não é comigo. Eu tenho uma responsabilidade social muito grande e muito forte que faz parte do meu ser. Busco o equilíbrio e um mundo mais justo e digno para todo mundo.

Como você avalia o nível da discussão sobre o racismo atualmente? O debate sobre o racismo está mais amadurecido no Brasil?

O nível da discussão eu acredito que sim. Quando eu vejo um movimento como o Black Lives Matter, quando eu vejo uma Djamila Ribeiro, um Sílvio de Almeida, uma Joice Berth, entre outras pessoas que eu acho interessantíssimas, isso me fortalece. E isso também amplia o meu próprio conhecimento. Existe aí um exército muito atento e alerta, pronto para falar, pronto para mudar as regrinhas desse jogo de baixo nível que a gente vive. Quando eu penso no Miguel, no João Pedro [ambos negros, o menino Miguel, de cinco anos, morreu ao cair do nono andar de um prédio de luxo em Recife após ser deixado sozinho pela patroa de sua mãe; João Pedro, de 14 anos, foi morto em uma operação em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, quando a polícia alvejou a casa onde estava com amigos], quando eu penso na forma como as pessoas negras são vistas por agentes de segurança, quando eu penso que ainda existem pessoas que são contra cotas, pessoas que acreditam na meritocracia, isso obviamente me revolta. Quando eu vejo um governo desse, horrível, ignorante, desumano, preconceituoso, uma coisa assim que eu nunca imaginei ver de uma maneira tão gritante, tudo isso me preocupa e me assusta. Ao mesmo tempo, por incrível que pareça, me sinto muito protegida ao ver que existem pessoas fortemente armadas de conhecimento, fortemente acreditando na educação, fortemente acreditando no outro, sendo empáticas, lutando por uma democracia racial, por lugares de ocupação, por diversidade dentro das empresas e isso tudo me deixa otimista, apesar de tudo. A gente tem muita coisa ainda para conquistar, tem muita coisa ainda para resolver, mas a gente tá no caminho.

Você participou do projeto Origens, de Tilt. O que o teste de DNA te fez entender sobre suas origens e qual a importância que isso teve para você?

Foi emocionante. É muito importante a gente saber de onde a gente veio. Saber quem foram os nossos ancestrais, imaginar como era a feição deles através dos traços daquela região, qual era a cultura, como eles viviam. Tive uma grata surpresa de saber que sou muito preta. Eu tenho ali minha avó, que era cabocla, e casou com meu avô, que era muito preto, e isso foi muito interessante, porque descobri que eu tenho 88% de sangue negro. É muita coisa! Inclusive quem me entrevistou me disse que era um dos índices mais altos. Fiquei me achando incrivelmente preta, fiquei muito orgulhosa das minhas raízes! É emocionante porque, até então, a gente não sabia absolutamente nada. Eu acho que eu me sinto muito mais completa como pessoa a partir desse momento do Origens. Eu fiquei muito agradecida e muito mais empoderada também porque agora eu sei de onde eu vim e as coisas incríveis que existem nesse lugar de onde eu vim.

O que representou para você ter sido embaixadora da campanha #SomosTodasMariadaPenha, em 2016, ano em que a lei de mesmo nome completou dez anos?

Eu me sinto uma mulher muito parceira de outras mulheres. Sou consciente de que, quando uma não está bem, a outra também não está. E eu consigo me colocar no lugar dessa mulher que sofre, que é dependente, que sofre de violência emocional, doméstica, que não tem escolha, que é julgada o tempo inteiro, que não tem liberdade. Então, para mim, foi obviamente uma honra. Maria da Penha é um ícone nosso, do feminismo, do avanço da justiça brasileira em relação às mulheres e ao tratamento dado a elas. Era um assunto que me assustava muito, mas se a gente não falar sobre isso, a gente nunca vai pôr um fim nisso. Então aceitei esse lugar para somar e fazer diferença na vida de outras mulheres.

Estamos todos saindo de um momento muito difícil em que muitas famílias viveram o luto. Você também viveu uma perda recente, com a morte do seu marido. Como você tem lidado com a ausência e a saudade?

Tem sido muito difícil, é uma saudade sem tamanho. Foi uma tragédia que aconteceu. Eu acho que, independentemente do tipo de morte que as pessoas tiveram, principalmente nessa pandemia, as pessoas viveram uma tragédia. Mas, no caso dele, ele não faleceu de covid-19. Foi um erro médico. Então é muito difícil aceitar isso e aceitar essa não presença dele. Eu sinto ele perto de mim o tempo inteiro, até porque nós convivemos 21 anos juntos, praticamente metade da minha vida. E eu não sabia o que era viver sem ele. Eu tive que reaprender a viver. Hoje eu tenho uma motivação, uma inspiração, justamente pelo que aconteceu e pela falta dele, mas também pelo legado dele, por ele ser uma pessoa que sempre pensou de forma positiva. Então uma das coisas que eu penso quando eu tô muito triste pela falta dele é: 'Como ele gostaria de me ver? Como ele gostaria que eu estivesse?' Todos os dias são tristes? Não. Eu tenho momentos felizes, eu tenho momentos de alegria. Eu busco isso. Nunca gostei de ser uma pessoa triste e sombria. Então é muito difícil. É muito difícil mesmo, mas eu sigo. Tenho que seguir e eu tenho muitas coisas para apresentar. Estou muito inspirada artisticamente porque tenho muito para dizer.

E o que te inspira a criar?

Eu acho que quando a gente tem sentimentos muito profundos, muito intensos, muito verdadeiros e talvez mais maturidade e evolução, a gente começa a olhar de outra forma para as coisas que realmente importam. Isso realmente me inspira. As pessoas me inspiram, a saudade me inspira, o amor me inspira. Infelizmente as injustiças acabam me inspirando no sentido de que eu posso ser realmente essa agente de mudança através da minha arte, da minha música, da minha voz e eu quero fazer parte de quem abraça o mundo, sabe?

Especial Consciência Negra Universa. Na foto, a cantora Paula Lima  - Alile Dara/UOL - Alile Dara/UOL
Paula Lima é madrinha de categoria no Prêmio Inspiradoras 2021
Imagem: Alile Dara/UOL

O momento atual do Brasil influencia a sua produção artística?

Com certeza. Eu falei que é a inspiração que vem de algo negativo, mas ela vem quando eu penso nesse Brasil surreal e bizarro que a gente descobriu que existia. Eu sabia de alguns afrontamentos, alguns absurdos. Mas eu não sabia da bizarrice, do absurdo, do inacreditável onde a gente se sente inconformado, revoltado, angustiado, assustado, preocupado. A gente lida com uma pandemia e lida com essa política e com esse governo, então tudo isso é complexo. E eu sempre penso que não é possível que existam pessoas assim. Eu penso em amor, eu penso em humanidade, eu penso em esperança, eu penso em luz, eu penso em respeito. Quando nada disso acontece, realmente fica muito difícil. Mas obviamente isso me dá muita força, eu me sinto muito forte para colocar meu trabalho na rua e para dar esse abraço nas pessoas através de uma música que conforte, de uma música que faça bem. Eu quero fazer bem para as pessoas.

Que mulheres te inspiram?

Tenho muitas mulheres inspiradoras. Mas a que mais me inspira sem sombra de dúvida é minha mãe. Minha mãe sempre foi uma pessoa feminista e empoderada sem ela saber que ela é e sem eu saber que ela era. Eu aprendi a dirigir com ela. Eu via meu pai dirigindo, mas eu gostava do jeito como minha mãe dirigia. Ela era tão segura, ela dominava tanto aquela arte. Com certeza eu sou essa mulher que eu sou por conta dela. Ela dizia sempre o seguinte - ela e o Ronaldo também: o certo é certo, o errado é errado. Não existe meio certo e não existe meio errado. Então você já sabe qual é o caminho que você tem que seguir. Depois da minha mãe eu posso dizer que a minha avó Marina sempre me inspirou porque ela era extremamente inteligente e muito serena, muito calma. Não vou dizer que ela tenha me dado um conselho, mas ela me deu um sacode do jeito dela. Eu era uma ótima aluna, mas, um dia, eu estava na mesa com os livros todos abertos e cantando. Ela passou por mim e falou: 'Paulinha, olha a história da cigarra'. E isso foi ótimo, porque eu não sosseguei enquanto eu não terminei a faculdade de direito no Mackenzie. A última coisa que eu queria era ser dependente de alguém financeiramente. E a minha tia Maria Helena foi uma das primeiras a se formar e a ter o ensino superior na família, então foi uma referência. Ela foi a primeira da família a viajar pela Europa. Ela sabia sobre todos os filmes, sobre todas músicas de MPB, ela ia aos shows, ela contava umas histórias para gente, ela mostrava as coisas para gente, ela falava sobre o que era Portugal e França. Há 40 anos, conviver com uma mulher negra com esse tipo de conhecimento foi muito valioso para a gente. Eu morro de orgulho dela. E aí posso falar sobre cantoras. Ella Fitzgerald, que é uma das maiores cantoras do planeta para mim, e a Elza Soares por toda a trajetória. E acho que a Elis [Regina] também. Engraçado, eu nunca colocava a Elis nesse lugar. Mas uma mulher tão diversa, tão forte, tão resolvida e, ao mesmo tempo, não resolvida, uma mulher assim que parece a gente, mas que era uma leoa. Um gênio da música popular, com uma interpretação, com uma voz que nunca se viu.

É bonito que você tenha uma rede assim de apoio e de afeto que é, como você falou antes, o mais importante, né?

E muitos amigos incríveis. Se eu for citar para você tudo o que eles cuidam, tudo que eles me dão de presente, tudo que eles querem fazer, é uma coisa que eu nunca nem imaginei. É nessas horas que a gente vê quem realmente se importa com a gente, quem ama, quem tá presente, quem tá disposto a se sacrificar. Porque é um sacrifício você cuidar de alguém. Pode não ser um sacrifício doloroso, mas acaba sendo um sacrifício. Eu tenho amigos incríveis.

Como tem sido a volta ao trabalho e, especialmente, a volta aos palcos? Você fez um show em Miami recentemente.

Durante a pandemia eu não parei. Comecei a escrever e continuei com meu programa de rádio. Fiz muitas lives, sou uma das diretoras da União Brasileira dos Compositores e entrevistei muita gente bacana nesse processo. E eu tenho que me exibir dizendo que eu entrevistei Djavan, Ney Matogrosso, Marina Lima. Foi muito especial, um tremendo aprendizado para mim. Eu não parei de cantar. A partir de maio, que foi quando o Ronaldo faleceu, passados dois meses eu me hospedei na casa de uns amigos e lá eu descobri esse disco que deve sair em abril do ano que vem com coisas muito bonitas, com coisas inéditas de gente muito interessante. Fiz esse show em Miami que foi muito legal, foi na praia. Todo mundo já sem máscara e, mesmo na cidade, as pessoas já sem máscara. Parecia que a gente estava vivendo num mundo paralelo. Depois eu fiz um show no Blue Note [casa de shows de São Paulo] com ingressos esgotados, com uma energia muito diferente, do reencontro. Muita gente também sabia o que tinha acontecido na minha vida, então existiu ali um abraço coletivo muito bonito. Foi um show muito especial, cheio de amor, de esperança, de uma vibração muito boa. Eu não vou esquecer nunca mais.

A premiação é uma iniciativa de Universa e do Instituto Avon, que tem como missão descobrir, reconhecer e dar maior visibilidade a mulheres que se destacam na luta para transformar a vida das brasileiras. Tem foco em três principais causas: violência contra a mulher, câncer de mama e equidade de gênero.