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Fundadora do ex-Partido da Mulher Brasileira lança Cabo Daciolo para 2022

Suêd Haidar é fundadora do PMB, agora Brasil 35 - Divulgação
Suêd Haidar é fundadora do PMB, agora Brasil 35 Imagem: Divulgação

Luiza Souto

De Universa

16/11/2021 04h00

Única mulher a fundar um partido no Brasil desde a redemocratização, o PMB (Partido da Mulher Brasileira), Suêd Haidar Nogueira, 62 anos, convidou o ex-bombeiro militar conhecido como Cabo Daciolo para concorrer à presidência da República em 2022, pelo agora Brasil 35. Ela diz que nenhuma mulher que convidou para disputar o posto pela legenda aceitou a proposta por falta de dinheiro. E garante que, apesar dos memes e discursos exaltados do candidato em 2018, que insistiu, por exemplo, num plano Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), Daciolo está preparado.

"Ele gastou só R$ 7,5 mil na campanha e ficou à frente de quem desembolsou milhões e era conhecido. E aí juntou a fome com a vontade de comer", justifica a presidente nacional do partido ao decidir pelo seu nome.

Nascida em São Luís Gonzaga do Maranhão (MA), Suêd começou a trabalhar aos 7 anos como babá e aos 9 atuava numa pedreira com o irmão, quatro anos mais velho —e ganhando menos do que ele.

O padrinho era prefeito e a mãe foi militante contra a Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido que apoiava a ditadura militar instalada no país na década de 1960. Ela atuava ao lado da médica Maria José Aragão, líder do PCB (Partido Comunista do Brasil) no Maranhão. Dentro desse cenário, avalia Suêd, era praticamente impossível não se envolver com a política.

Chegou em Pavuna, zona norte do Rio de Janeiro, aos 18 anos, 27 dias após o parto da primeira dos três filhos, hoje com 44, 38 e 31 anos. Na época, a mãe já morava na região, onde trabalhava como faxineira.

Por incentivo de Maria José, procurou Leonel Brizola, recém-chegado ao país após um exílio de 15 anos no Uruguai, nos Estados Unidos e em Portugal, e com ele ajudou a fundar o PDT (Partido Democrático Trabalhista). Na mesma época se aproximou do líder do PCB, Luís Carlos Prestes.

Para incentivar mais mulheres na política, fundou o PMB em 2015, tornando a 35ª legenda registrada no Brasil, mas na época, entre os 22 parlamentares filiados, apenas duas eram mulheres. Hoje, são 50 mil filiados, sendo 40% mulheres e 60% homens. "Falo sem nenhum receio que mulheres estavam preparadas [para se filiar ao partido], mas ouviam o outro lado, para não irem."

Concorreu a uma vaga na Câmara Federal em 2018, e à prefeitura do Rio de Janeiro em 2020. Na época, tinha como vice a advogada Jéssica Rabello Guimarães, filha de Natalino Guimarães, que cumpriu pena por 10 anos por participar da milícia "Liga da Justiça". Ambas foram alvos de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal na Operação Sólon, que investigava suposta lavagem de dinheiro da milícia para financiar campanhas eleitorais na capital. Para Suêd, a operação deu-se por ela ter crescido nas pesquisas:

"Tivemos um crescimento em uma semana de 2% nas intenções de voto. A questão foi me colocar um freio."

Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida a Universa por telefone.

Suêd Haidar com o Cabo Daciolo - Reprodução/Instagram @cabodaciolo - Reprodução/Instagram @cabodaciolo
Suêd Haidar com o Cabo Daciolo
Imagem: Reprodução/Instagram @cabodaciolo

UNIVERSA - Como surgiu o interesse no Cabo Daciolo?
SUÊD HAIDAR - Há um ano e meio a gente já vinha conversando. Ele é um homem de luta e entrou na vida política através de uma luta de classe [em 2012, Benevenuto Daciolo liderou uma greve dos bombeiros no Rio, e foi preso em Bangu 1, indiciado por incitamento e aliciamento a motim], e é isso que nós queremos garantir para os nossos eleitores, que entrar na política só por entrar não interessa mais para a nação brasileira. Tem que ter experiência de alguma coisa, e o Cabo Daciolo passa essa segurança. Ele vem preparado.

Por que o partido não lançou uma mulher como pré-candidata à presidência, ou a senhora mesma não se disponibilizou para isso?
Eu já fiz vários convites antes de conversar com o Cabo Daciolo, e nenhuma mulher aceitou. Quando convidamos mulheres, a primeira coisa que perguntam é quanto vai ter para gastar na campanha. Todo mundo sabe que nós não temos fundo partidário, nem tempo de TV, e temos de lutar muito para ir ao debate. A questão financeira ainda é algo definitivo para o esquivamento da mulher na política. E o Cabo Daciolo gastou só R$ 7,5 mil, e ficou à frente de quem desembolsou milhões e era conhecido [Cabo Daciolo, então no Patriota, ficou em 6º na corrida presidencial, com 1,26% dos votos válidos, à frente de Henrique Meirelles, que investiu R$ 53 milhões na campanha].

E aí juntou a fome com a vontade de comer. Quanto ao meu nome, dentro desse processo eu serei um soldado e irei cruzar o Brasil inteiro.

Nas últimas eleições presidenciais, Cabo Daciolo virou meme por causa de seu comportamento nos debates, desde por andar com uma Bíblia na mão a insistir no plano Ursal. Houve alguma conversa no sentido de ele moderar o tom?
O Cabo Daciolo está preparado para qualquer debate e enfrentamento. Naquele momento, ele não tinha tempo de TV, não tinha nada, apenas tempo para falar uma coisa e pronto.

Então o comportamento dele foi para chamar atenção?
Não acho, porque ele sempre foi um homem preparado, mas quando não tem tempo de falar nada, faz-se como o Enéas (Carneiro, do Prona). Ele não tinha tempo. E fazia o quê? Repetia "Meu nome é Enéas". Pronto, acabou.

Antes do Brasil 35, a legenda se chamava Partido da Mulher Brasileira. Como foi a criação do PMB?
Quando entendi que a mulher servia para ser laranja das instituições partidárias, decidi fundar o PMB. Foram sete anos e meio na luta. Nesse tempo, as pessoas me diminuíam, falavam que eu era louca, mas mostrei para a comunidade da política tradicional do nosso país que a mulher pode chegar aonde ela quiser.

Mas, apesar do nome, quando o PMB foi criado tinha um quadro composto por homens, em sua maioria. Por quê?
O que aconteceu é que os homens que entraram vieram para tomar o partido. Eu falo sem nenhum receio que mulheres estavam preparadas, mas ouviam o outro lado, para não irem. Eles tentaram fazer do nome do Partido da Mulher Brasileira uma lepra, só que esqueceram que a lepra, quando ela é identificada, tem cura. E nós resistimos e não deixamos com que tomassem de assalto o sonho das pessoas.

Por isso a mudança de nome para Brasil 35?
Não. Nós trabalhamos muito e vimos que para passar pela cláusula de barreiras temos de montar uma estratégia para permanecer com o quadro feminino. E nós decidimos, através de vários congressos, mudar o nome, e está dando certo. Hoje tenho certeza de que conseguimos captar muitas mulheres que estavam no anonimato ou esperando essa manobra. Foi pelo respeito e confiança delas.

A mudança teve a ver com a possível filiação do presidente Jair Bolsonaro?
Chance zero de a mudança do nome ter sido em relação a isso. A assessoria do presidente me convidou para um café, mas a questão do nome não foi em função dessa pauta. Nossa mudança de estratégia foi discutida nas bases, e está em ata desde 2017. Nunca houve interesse em ter o presidente Jair Bolsonaro na legenda. O Brasil passa por uma crise de descontrole e desmando financeiro, está sem rumo. O que posso afirmar é que o Brasil 35 vem com candidatura própria.

A senhora, enquanto concorria à prefeitura do Rio, foi alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Federal, numa operação que investiga suposta lavagem de dinheiro da milícia para financiar campanhas eleitorais. O que realmente aconteceu para a polícia chegar ao seu nome?
Nós começamos a crescer muito nas pesquisas de intenção de voto, e quando eu defendi uma categoria que sempre foi muito prejudicada, que é a dos camelôs, e também a dos motoristas de ônibus, que passaram a ser cobradores também, tivemos um crescimento de 2% em uma semana. E quando começo a mexer no tabuleiro da definição da eleição, simplesmente aparece uma operação na minha casa, às 6 horas da manhã. Não reviraram nada nem abriram processo. A questão foi me colocar um freio.

Sobre a escolha da vice, a advogada Jéssica Rabello Guimarães, foi uma questão de estratégia de voto na zona oeste, não de família, porque nunca tive contato com eles.

Como fazer para que haja mais mulheres na política?
Não é fácil você falar isso para uma mulher, mas nós fomos doutrinadas a acreditar que o espaço da política só pertence ao homem. Em 2015, quando foi homologado o PMB, bati no gabinete das nossas parlamentares convidando para migrarem para cá. E eu ouvi de várias: "Fale com meu marido". Outras disseram: "Fale com meu Senador, porque foi ele quem me fez deputada." Então o mandato delas tem um dono. A caneta delas não tem tinta. Para mudarmos essa cultura não é fácil, como não foi fácil também o primeiro negro ou indígena sentar em uma cadeira de Executivo e do Legislativo no Brasil.

A mulher não pare bandido, pedinte de rua, assaltante de banco ou um péssimo presidente da República. Ela dá à luz um ser humano de quem quer o melhor, e só conseguimos avançar nessas pautas da violência quando a mulher está lá dentro.

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