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Microdosagem de cogumelo vira terapia para melhorar sexo; conheça os riscos

A terapeuta sexual Cíntia Porto faz uso da microdosagem em seus pacientes  - Arquivo pessoal
A terapeuta sexual Cíntia Porto faz uso da microdosagem em seus pacientes Imagem: Arquivo pessoal

Júlia Flores

De Universa

12/11/2021 04h00

Nove pessoas participam de um retiro para tentar resolver crises de origens e motivações variadas. Esse é o mote da série "Nove Desconhecidos", da Amazon Prime, que tem Nicole Kidman no papel de Masha. Espécie de guru espiritual, ela usa a psilocibina em seus pacientes, substância alucinógena presente em cogumelos do gênero psilocybe.

Nicole Kidman vira guru espiritual sinistra em série do Prime Video - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Nicole Kidman vira guru espiritual sinistra em série do Prime Video
Imagem: Reprodução / Internet

Nos Estados Unidos, a microdosagem de cogumelo já virou um tratamento alternativo e regularizado no combate da ansiedade e do estresse. A terapia virou moda entre os empresários de tecnologia do Vale do Silício e vem se popularizando como tratamento alternativo —inclusive para quem busca melhora na vida sexual.

A terapeuta tântrica Cíntia Porto, 42, vem estudando desde 2020 os efeitos da psilocibina na performance sexual humana —principalmente quando ministrada em microdoses, que representam cerca de 5% a 10% da dose normalmente conhecida como recreativa.

O que motivou Cíntia foi uma experiência com chá de cogumelos —ou seja, com quantidade bem mais alta do que a utilizada de forma terapêutica. "Estava com todos os meus sentidos alterados e, em poucos minutos, senti as mesmas sensações que alcanço depois de seis horas de prática tântrica. Fiquei com o corpo todo orgástico."

Não há, no entanto, consenso científico sobre os efeitos do tratamento com microdosagem de cogumelos. Na opinião da psicóloga Louise Ferri, pesquisadora de comportamento e saúde mental do Instituto Phaneros, "existem mais dúvidas do que respostas" sobre o tema.

"É verdade que há estudos apresentando resultados potenciais em que a microdosagem melhorou o humor, o foco e a flexibilidade cognitiva, indicando que substâncias psicodélicas como LSD e psilocibina poderiam ajudar no bem-estar geral. Porém, são estudos ainda muito incipientes, muitas vezes sem controle sobre a substância utilizada, a dosagem e o tempo de uso."

Aqui no Brasil, o consumo de cogumelos in natura não é proibido, mas a terapia com microdosagem não é regulamentada pelos conselhos de saúde.

Psilocibina para o prazer

Cíntia conta que, desde maio, começou a aplicar o tratamento com microdosagem de cogumelo em clientes que buscavam intensificar as práticas sensoriais na hora do sexo. "Eu me dei conta de que era possível ampliar e acelerar o que eu já tentava fazer com os meus pacientes. Cerca de 70% deles chegam com reclamações de ansiedade e estresse ao meu escritório, e é justamente isso que a microdosagem trata."

O neurocientista Dráulio de Araújo, pioneiro na pesquisa dos benefícios da ayahuasca no combate à depressão, acredita que a microdosagem tenha voltado à moda porque traz a perspectiva de controlar estados de ansiedade e depressão, sem o consumo de remédios e sem provocar "viagens alucinógenas".

Não há provas, contudo, da eficácia do método. Dráulio destaca um estudo recente, realizado pelo neurocientista Balázs Szigeti, do Imperial College London, sobre os efeitos da psilocibina em microdoses. Nele, 191 participantes que já faziam tratamento com microdose foram separados em dois grupos: parte recebia cápsulas com o psicodélico, e a outra, cápsulas sem nenhum componente dentro.

Ambos os grupos relataram resultados psicológicos semelhantes. "A pesquisa —ainda que incipiente e não realizada em ambiente protocolar— é mais uma prova de que a microdose apresenta efeito placebo", afirma. Mas ressalta: "O efeito placebo, no entanto, também tem seus benefícios. Eu diria que a discussão da microdosagem é parecida com a discussão da homeopatia".

Cíntia, por sua vez, afirma já ter conquistado bons resultados com a terapia, aplicada em quatro pacientes —dois homens e duas mulheres. "Com a microdose, consegui acessar em minutos o que levava cerca de cinco sessões para atingir. Eles ficaram mais sensíveis ao toque, navegaram em traumas que antes os bloqueavam para atingir o orgasmo. Conseguimos reconstruir o caminho neural do prazer."

A terapeuta, que cobra cerca de R$ 450 por atendimento, diz estar preparando um experimento em grupo para avaliar os efeitos da psilocibina em casos de disfunção erétil. "Tanto a microdose quanto o tantra navegam pelo mesmo lugar, que é o da consciência alterada. É preciso ter cuidado para ministrar a aplicação dessas doses. Como a gente pode acessar traumas enquanto estiver sob os efeitos da substância, é preciso ter cuidado."

"A microdose me ajudou a relaxar e gozar"

"Depois de 2 ou 3 semanas do começo do tratamento com microdosagem, já estava sentindo minha libido aumentar", conta Lorraina - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
"Depois de 2 ou 3 semanas do começo do tratamento com microdosagem, já estava sentindo minha libido aumentar", conta Lorraina
Imagem: Arquivo pessoal

A analista de dados Lorraina Lourenço, 25, diz que sentiu os efeitos da microdosagem de cogumelo na sua performance sexual. Ela começou a fazer uso da psilocibina controlada em fevereiro deste ano, período em que morava na Califórnia (EUA).

"Fiz o tratamento com microdosagem por nove meses. Depois de duas ou três semanas, já estava sentindo minha libido aumentar. Passei a sentir mais tesão, minha lubrificação voltou ao normal e meu corpo ficou mais sensível. Mas procurei o tratamento também por motivos de saúde. No fim, funcionou: controlei a ansiedade, meu ciclo menstrual e meus hormônios. Foi ótimo".

Agora, de volta ao Brasil, a analista interrompeu o tratamento. "Aqui no Brasil é difícil descobrir a origem dos cogumelos. Lá na Califórnia, comprava em uma loja especializada, recebia orientação médica sobre o consumo do produto, a experiência era outra", comenta.

Há riscos

A falta de informações sobre os efeitos do tratamento e também sobre a origem dos produtos utilizados aqui no Brasil é justamente um dos principais problemas apontados por especialistas.

Apesar de as substâncias aplicadas nos tratamentos de microdosagem oferecerem baixo risco toxicológico aos usuários, a psicóloga Louise Ferri alerta sobre os riscos do uso indiscriminado da substância sem comprovação científica de sua eficácia.

"É baixa a chance de causar dependência, porém, esses produtos ainda precisam ser mais estudados. Há riscos ainda desconhecidos. Também é importante reforçar que, pelo fato de algumas dessas substâncias serem ilegais no Brasil, não há como saber exatamente o que está consumindo."

Marcelo Leite, jornalista e autor do livro "Psiconautas - Viagens com a Ciência Psicodélica Brasileira", faz um alerta sobre um possível efeito colateral que o uso prolongado e repetitivo de microdosagem pode causar: danos ao coração.

A última edição da Global Drugs Survey, feita em 2020, pesquisa online realizada de forma proativa por usuários de substâncias psicodélicas, apontou que, no Brasil, cerca de 23% das pessoas consomem psicoativos na forma de microdose.

Porém, Marcelo reforça: "Não há nenhuma comprovação na literatura científica dos benefícios do cogumelo —muito menos quando relacionado à melhora da performance sexual. Mas, sim, não dá para negar que muitas pessoas podem sentir esse efeito, até por eventualmente estarem em um estado alterado de consciência, como acontece com a maconha. Nós só não conseguimos provar isso como fato".

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