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Ana Canosa

"Meu parceiro fuma maconha para transar; como a droga afeta o sexo?"

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Ana Canosa Ana Cristina Canosa Gonçalves

Ana Canosa é psicóloga clínica, sexóloga, professora, escritora e comunicadora. Apresenta o podcast Sexoterapia, em Universa/UOL. Sendo há 28 anos testemunha das mais diferentes histórias afetivas, é categórica em afirmar que muitas vezes, só o amor não é suficiente. Fala de sexualidade desde que se entende por gente, unindo seus estudos acadêmicos com a experiência clínica e seu olhar de observação do mundo.

Ana Cristina Canosa Gonçalves

Colunista do UOL

05/11/2020 04h00

Pergunta da leitora: Gostaria de saber como a maconha afeta, para melhor ou pior, a relação sexual de um casal, principalmente quando um é dependente e o outro não. O que uma pessoa que usa maconha sente ao fazer sexo? Estou em um relacionamento assim e é difícil encontrar material a respeito.

Como o uso recreativo da cannabis é proibido no Brasil e a discussão sobre legalidade esbarra em vários entreves morais, legais e científicos, certamente você terá dificuldade de encontrar conteúdo sobre o tema. Esse é um terreno movediço, pois o efeito da cannabis não é igual para todos, além de poder ser um risco para a saúde mental de muitos.

Combinar substâncias psicoativas com sexo é comum, independentemente do gênero ou da orientação sexual, e normalmente as pessoas o fazem a fim de alterar a percepção do contato sensorial, rebaixar a censura e, na sua fantasia, melhorar a performance. Um dos usos mais comuns é o álcool.

Então, uma pergunta comum quando se tem parceiro que faz uso de drogas é se todo aquele tesão é derivado de qual estímulo: você ou a maconha. Ou melhor dizendo, o quanto ele está excitado pelo uso e onde você entra nisso. Ou o quanto ele precisa de maconha para transar seja com você ou com outra pessoa qualquer.

Um estudo publicado em 2017 no Journal of Sexual Medicine, que usou como metodologia a análise de dados populacionais, encontrou uma correlação indireta entre usuários de maconha e aumento na frequência sexual comparado a não usuários. Mas é importante salientar alguns pontos: o fato de ter maior frequência por si só não indica maior satisfação sexual e, embora a sexualidade seja um indicador de qualidade de vida, o uso da cannabis pode provocar uma série de prejuízos.

Há indícios de um aumento da percepção sinestésica com o uso de THC, o que favorece a intensidade nas sensações e consequente maior excitação. Aumento de desejo sexual, orgasmo mais intenso e prolongado e maior prazer na masturbação, são relatados em alguns estudos, no entanto é importante reforçar que as alterações podem ser variadas a depender da pessoa, do tipo de maconha e até mesmo do estado emocional em que esta pessoa se encontra.

É relatada também uma intensificação na percepção dos sabores e do toque durante a intoxicação. Há quem se sinta mais sensual, o que provavelmente tem relação com o relaxamento e rebaixamento da censura, e, portanto, maior percepção de sensações e entrega, sem atravessamento de crenças negativas pré-concebidas sobre o corpo e o sexo.

Por outro lado, aqui também mora o perigo: livrar-se da censura pode implicar vulnerabilidade de sexo sem prevenção, além de colocar a pessoa diante de outros comportamentos e desejos que ela pode não dar conta de "cara limpa". Como exemplo, o "highsexual", que é o heterossexual usuário constante de cannabis que só sente atração por homens quando está sob efeito da droga.

Riscos para saúde

O que não se sabe ao certo é qual a concentração (e em que frequência) de THC poderia ser utilizado, sem riscos à saúde física e mental, se o consumo da droga fosse permitido. Uma revisão sistemática de 2019 mantém o papel da cannabis como tendo ação na redução da contagem e concentração de espermatozóides, induzindo anormalidades na morfologia do esperma e reduzindo a mobilidade e viabilidade —o que inibe a capacidade de fertilização.

Quanto ao impacto na produção de hormônios sexuais, este estudo demonstrou redução do hormônio luteinizante, não apresentou alterações do hormônio folículo-estimulante e foi inconclusivo em relação à possível redução de testosterona.

É sabido ainda que o risco de psicose é aumentado em usuários de maconha que tem predisposição; difícil é controlar isso, haja vista que a tal predisposição não é fácil de medir.

O artigo científico aponta como sintomas de alguns usuários frequentes aumento de pensamentos paranóides, maior lentidão e embotamento, redução de QI e dependência emocional, como acontece com outras drogas psicoativas. E, sim, síndrome de abstinência, irritabilidade, insônia, redução de apetite e até, em casos mais intensos, dores musculares e câimbras.

É possível que seu parceiro use a maconha para transar ou para relaxar e não sinta consequências perceptíveis, ao menos por hora, o que não significa que ele não esteja vulnerável aos efeitos da droga.

Aliás, se ele é um usuário crônico, há mais uma questão. Um estudo recente, de 2019, diz que um uso mais frequente provoca maior satisfação sexual. Já outro estudo percebeu o inverso: pessoas com uso menos frequente e doses menores teriam experiências sexuais mais prazerosas do que usuários crônicos, que sofreriam com redução de libido, disfunção erétil e inibição da sensação de orgasmo. Eu disse que o tema não era fácil.

A transgressão como inibidora do desejo

Claro que se o seu parceiro está apresentando alguma disfunção sexual que atrapalhe o sexo de vocês, é preciso refletir a respeito. Pode ser que esteja pesando a preocupação com a saúde física e emocional dele, ou ainda o incômodo se ele fica muito abobalhado após o uso, a ponto de isso interferir na qualidade do relacionamento de vocês.

Outro dia uma paciente reclamou que o script da transa com o crush era sempre o mesmo: ela ia para a casa dele, ele fumava, eles faziam sexo, chamavam um delivery, assistiam a um filme e dormiam. Ela louca para dar um rolê, ir a um restaurante, passear e o sujeito não arredava o pé da sua toca. A fila andou.

Também quero fazer um adendo sob a perspectiva moral. Há quem se incomode muitíssimo com a transgressão alheia porque isso implica ser uma espécie de cúmplice, de algo que não é legalmente aceito. Nesse caso, o dilema pode provocar inibição de desejo e dificuldade de se engajar na relação sexual.