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Brasileira que ajuda refugiados: 'com Taleban no poder, mulheres perdem'

Kety Shapazian é dona do ateliê Flores para os Refugiados - Arquivo pessoal
Kety Shapazian é dona do ateliê Flores para os Refugiados Imagem: Arquivo pessoal

Luiza Souto

De Universa

17/08/2021 04h00

Ao ler as primeiras notícias sobre a tomada da capital Cabul, no Afeganistão, pelo Taleban após 20 anos, a ativista Kety Shapazian, 54 anos, logo pensou: "Acabaram os direitos das mulheres".

É que durante o regime Taleban, entre 1996 e 2001, as afegãs enfrentaram restrições à liberdade e violações de direitos humanos. Garotas não podiam ir à escola, por exemplo, e as mulheres não podiam trabalhar e só eram autorizadas a sair às ruas se acompanhadas por um homem.

"O que vai acontecer com mulheres e meninas agora será uma tragédia gigantesca. As alunas estavam se despedindo dos seus professores, as famílias começaram a esconder suas filhas. As mulheres vão ter que voltar a usar burca, vão ser açoitadas, apedrejadas. Com o Taleban no poder, 20 anos de conquistas femininas foram embora, sumiram", prevê Kety, endossando uma preocupação da ativista dos direitos humanos Malala Yousafzai.

Do sofá para a Grécia

Formada em jornalismo, neta de um sírio, Kety cobria assuntos internacionais e era "superativa no Twitter" em 2011. Acompanhou a Primavera Árabe e as manifestações que foram acontecendo em países como Bahrein, Líbia, Síria, Iêmen, além do Egito, naquele ano.

"Trabalhava num pequeno jornal e troquei minhas sextas-feiras para trabalhar no fechamento aos domingos e assim poder acompanhar as manifestações às sextas, porque aquele era o dia mais forte dos protestos, em que as pessoas saíam das mesquitas e iam para a rua. Com isso, conheci e passei a ser seguida por muita gente, incluindo ativistas", lembra a paulistana, moradora do Alto de Pinheiros.

A filha de Kety, Gabriela Shapazian, abraça refugiada afegã que tinha acabado de chegar em um dos botes em Lesbos, na Grécia, em janeiro de 2016 - Maciej Moskwa/Divulgação - Maciej Moskwa/Divulgação
A filha de Kety, Gabriela Shapazian, abraça refugiada afegã que tinha acabado de chegar em um dos botes em Lesbos, na Grécia, em janeiro de 2016
Imagem: Maciej Moskwa/Divulgação

De tanto ouvir a mãe comentando sobre os conflitos, sua filha única, Gabriela, naquela época com 11 anos já falava com propriedade sobre o Oriente Médio e outros temas internacionais. Tanto que em 2015, quando a crise dos refugiados estourou, e vimos milhares de sírios e afegãos tentando chegar à Europa fugindo da guerra, foi a Gabi, como é chamada, quem deu a ideia de mãe e filha irem à ilha de Lesbos, na Grécia, ajudar as pessoas que saíam da Turquia em botes de borracha e barcos de madeira, arriscando a vida no mar gelado e revolto.

"Apesar do meu envolvimento gigantesco, e de conhecer muita gente, eu não pensei que poderia sair do sofá e fazer alguma coisa. E ela, com 15 anos, falou: 'Por que você não vai e aproveita e me leva?'. Ela completou 16 anos em novembro, e em dezembro a gente já estava lá."

O cenário que as duas encontraram foi de milhares de pessoas, a maioria sírios e iraquianos fugindo do estado islâmico, e os afegãos fugindo do Taleban. Elas pagavam de 500 dólares a três mil dólares para fazer uma travessia de apenas 10 quilômetros.

Mãe e filha ficaram no local por 45 dias, ajudando com um abraço, uma roupa seca e limpa, um lanche, um copo de leite, uma fruta, chá, sopa, além de informação. Kety conta que tinha gente que chegava tão perdida que não sabia nem que estava na Europa, nem para onde ir.

A língua que imperava no acolhimento dessas vítimas da guerra era o afeto. Até porque, como estavam num campo de passagem, onde as pessoas ficavam por no máximo até 3 horas, pouco dava tempo para conhecer cada história. E muitos nem falavam inglês.

"Lembro que recebi uma jornalista afegã que mal falava inglês, mas a gente se comunicou porque descobri que, se você tem um pouco de vontade, você se comunica independentemente da barreira da linguagem"

Kety lembra das poucas as palavras que as mulheres falavam e que ela podia entender, como "daesh", um dos nomes do Estado Islâmico.

"Então sabíamos que estavam fugindo daquele regime, ou quando falavam 'afghanistan', emendavam com 'taliban', ou a pessoa falava Síria e 'Assad' [o ditador Hafez al-Assad?, presidente da Síria], também."

Em março de 2016, União Europeia fez acordo com a Turquia para fechar a fronteira aos imigrantes irregulares que chegavam à Grécia vindos do território turco.

"Você precisa sentir empatia pelas pessoas"

Os 45 dias vividos naquela ilha mudaram a percepção que Kety tinha dos conflitos na região. Ela afirma que não sabia, por exemplo, sobre a situação dos refugiados afegãos que há décadas vivem no Irã sem documentos, porque aquele país não lhes dá a cidadania.

"E um jornalista da BBC me contou que essas famílias afegãs no Irã estavam recebendo a promessa de ter a papelada e direito à propriedade se mandassem os filhos para lutar ao lado do Assad", ela complementa.

Aprender sobre essas coisas fez o mundo ficar menor para mim e para a Gabi. Um problema no Afeganistão é global e afeta a gente, independentemente de onde a gente está. Você precisa sentir empatia pelas pessoas.

A empatia de Kety se estende ainda pela população LGBTQIA+, que também chegava em peso na Grécia, fugindo da perseguição.

"Se aqui no Brasil, que é uma democracia, a gente vê assassinato de pessoas trans, imagine um país agora liderado por extremistas, onde mulher adúltera pode ser apedrejada e morta. A gente vai ver muita tristeza."

"O Taleban é o inferno na terra"

À rede BBC, o porta-voz Taleban Suhail Shaheen disse querer uma transição pacífica e assegurou que nada mudaria em relação aos direitos das mulheres. Prometeu ainda que haverá liberdade de expressão e de imprensa. Kety afirma que não dá para acreditar nessas palavras.

"Eles seguem a sharia [lei religiosa], que é a versão radical do islamismo. E é preciso deixar bem claro que uma porção muito pequena de muçulmanos segue a sharia. A religião islã é muito bonita e representa muita paz e doação", ela atenta.

Para Kety, o mundo assistirá, nas próximas semanas e meses, um aumento significativo de fluxo de refugiados afegãos.

"O Taleban é o inferno na terra, como o Estado Islâmico, o Boko Haram, a Al-Qaeda. E essa última vai ter um renascimento, porque neste domingo (15) mesmo vimos cenas de prisioneiros sendo libertados. São extremistas já colocados na rua, como vimos na Síria o Assad soltando muita gente do estado islâmico."

Devido à pandemia, Kety e Gabi seguem em segurança na casa onde vivem, em São Paulo. Após a viagem que mãe e filha fizeram à Grécia, em 2015, Kety passou a vender flores e arranjos no sinal de trânsito, depois num supermercado até abrir seu ateliê em casa, o Flores para os Refugiados.

Com o dinheiro das vendas dos arranjos coloridos, Gabi voltou para a Grécia, Turquia e Sérvia, sempre com o objetivo de ajudar os refugiados, seja com alimentos, aulas de inglês, acolhimento.

"Hoje atendo do jeito que a gente gosta, temos clientes que valorizam tanto o arranjo quanto o propósito do ateliê e toda nossa história, porque independentemente da Gabi estar trabalhando ou não, essa história precisa ser contada e relembrada."

É a nossa história, uma coisa que mãe e filha fizeram juntas e que pouquíssimas têm a oportunidade de fazer. O elo que a gente tinha ficou muito mais forte.

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