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Refugiada brasileira cria projeto para ajudar jovens trans através da dança

A ativista Maria Clara de Sena  - Arquivo pessoal
A ativista Maria Clara de Sena Imagem: Arquivo pessoal

Larissa Veloso

Colaboração para Universa, de Toronto

11/07/2020 04h00

A ativista e agente social pernambucana Maria Clara de Sena já trabalhou de perto com um dos grupos mais marginalizados da sociedade brasileira: as mulheres trans dentro do sistema prisional. Foi durante uma vistoria a um presídio em Arcoverde (PE) que ela viu o seu trabalho interrompido após um agente a ameaçar de morte pelo simples fato de ela ser trans e negra.

Maria Clara decidiu então sair às pressas do Brasil e pedir asilo no Canadá, país reconhecido por suas políticas de inclusão. Depois de estabelecida, ela agora quer voltar a transformar vidas de jovens transexuais no Brasil por meio de uma nova ferramenta: a dança.

Denominado Balé T, o projeto criado por ela pretende socializar meninas e meninos trans de Pernambuco com aulas de danças folclóricas, como o frevo, o maracatu e a quadrilha. As primeiras seleções serão abertas em setembro, e o grupo espera poder levar os dançarinos do projeto para a Parada Gay de 2021 no Canadá.

Maria Clara conta que a ideia do projeto surgiu a partir do questionamento de uma menina trans canadense. "Ela disse: 'Maria Clara, como você sobreviveu no Brasil?' Fui buscar na memória o que me fez seguir em frente e lembrei que, se não fosse a cultura, a arte, eu não teria chegado até aqui. Eu descobri minha identidade, minha profissão, a forma de trabalhar o coletivo, todas as referências de sobreviver nesse mundo, pela arte, principalmente a arte junina, nordestina."

Ela diz que escolheu o termo "balé" para definir o projeto porque é fácil para entender em qualquer idioma. O projeto, no entanto, será focado em danças populares brasileiras, como o frevo, o maracatu, a ciranda e o caboclinho. Mas não só isso.

"Queremos que essas pessoas trans tenham aulas de inglês, que aprendam sobre mulheres travestis do Brasil e do Canadá. A ideia é trazer essas pessoas para dançar na próxima Pride Parade, aqui em Toronto, e que elas possam contar sobre si mesmas, possam ser protagonistas das suas próprias histórias. Queremos levar essa informação de que trans não é problema, trans é arte, alegria, cultura."

O projeto ainda está em fase de busca de voluntários e espaço físico. Mas Maria Clara destaca que já tem encontrado apoio de pessoas como o dramaturgo e diretor cênico Anderson Abreu. "Há muito a ser feito, e muita gente tem aparecido para ajudar."


Pai achou que a consertaria

Natural de Camaragibe (PE), a ativista conta que teve "uma infância de periferia". A mãe era costureira e o pai era tocador de coco. Apesar de militante dos direitos humanos, ele não tinha noção do que era a transfobia. "E eu, que sempre fui diferente, apanhava do meu pai, que achava que batendo me consertaria."

Seu passado, diz Maria Clara, sempre foi de violência. Quando ela tinha nove anos, seu pai foi assassinado. Mas, aos 12, descobriu a quadrilha e começou a ver pessoas semelhantes a ela, "pessoas mais livres".

Até que se mudou para João Pessoa e conheceu pela primeira vez uma mulher trans. "Ela foi minha psicóloga, minha mãe, me ajudou a entender quem eu era. Ela estava inserida na prostituição e eu, sem trabalho, acabei indo trabalhar na rua", diz Maria Clara. Depois de se mudar de cidade várias vezes e passar pelo que chama de "um processo de readequação do meu corpo e da minha mente", ela voltou para Recife, fez faculdade e começou a trabalhar com serviço social.

Ameaças

Em 2014, a ativista ingressou no Mecanismo de Prevenção e Combate à Tortura, órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU) que trabalha na fiscalização de presídios. Foi a primeira mulher trans nesse órgão.

Um dia, quando estava com a equipe fazendo a vistoria em um presídio recém-inaugurado no agreste de Pernambuco, teve de apresentar a identidade para um agente penitenciário. "Eu ainda tinha meu nome de registro oficialmente e ele se recusou a me chamar pelo nome social", diz Maria Clara.

"Tentei explicar a situação, mas as ofensas só foram crescendo, até que ele disse: 'Não vou te respeitar porque você é preto e viado'. Ele puxou a arma para mim e, depois disso, passou a me perseguir, chegando inclusive a ir ao meu apartamento."

Ela conta que teve que sair do estado por um tempo e, quando voltou a Recife, escutou de pessoas que era melhor que saísse do país.

Refúgio

Sem falar um pingo de inglês, Maria Clara chegou ao Canadá. Mas logo encontrou uma organização que ajudava a população LGBT+ e que deu entrada no seu pedido de refúgio.

"Eu tive uma audiência com a juíza, e ela falou logo de cara: 'Você foi aceita porque o Brasil é o país que mais mata trans no mundo'. Comecei a chorar na hora. Como uma pessoa aqui do Canadá tem esse entendimento do que é ser uma mulher trans no Brasil, e no Brasil as pessoas não têm, querem matar?"

Apesar de seguir com os trabalhos como o projeto de dança no Brasil, Maria Clara diz que não pensa em voltar ao país. "Lá a minha expectativa de vida era de 35 anos. Hoje estou com 41, consegui superar essa marca", diz. "Antes, eu pensava: se eu morrer, morri, não importa. Mas hoje eu quero viver, e o Canadá me deu essa oportunidade."

Também segue na missão de dar visibilidade às pessoas trans. "Quando me pedem pra contar minha história, eu sei que vai ser difícil pra mim. Mas é um mal necessário, né? Quero dar minha contribuição, dar visibilidade, falar sobre as pessoas que estão morrendo no Brasil. Essas pessoas querem viver."

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