PUBLICIDADE

Topo

Universa

'Mainha, é só um título': o que Italo Ferreira disse para a mãe após o ouro

Katiana Ferreira, mãe do campeão olímpico Italo Ferreira, recebe a reportagem na casa onde o surfista cresceu em Baía Formosa (RN) - Cristiano Sarmento
Katiana Ferreira, mãe do campeão olímpico Italo Ferreira, recebe a reportagem na casa onde o surfista cresceu em Baía Formosa (RN) Imagem: Cristiano Sarmento

Júlia Flores

De Universa, em Baía Formosa (RN)

05/08/2021 04h00

Quando o potiguar Italo Ferreira disputava a primeira final olímpica do surfe em Olimpíadas, no último dia 27, no Japão, sua mãe, Katiana Ferreira, 52, conta que estava muito nervosa, porém confiante que ele levaria a medalha de ouro dos Jogos de Tóquio. "No fundo, como eu já tinha orado bastante, eu sabia que aquela medalha era dele", diz ela a Universa, em frente à casa onde o primeiro campeão olímpico de surfe cresceu em Baía Formosa, vilarejo a 100 Km de Natal (RN).

"Fiquei muito preocupada quando a prancha quebrou, mas foi com o meu marido, Luizinho: parecia que ele ia ter um infarto. Ficou pálido, tremia; só ficou melhor depois que o menino venceu", lembra.

Dona Katiana diz que a conquista do filho nas Olimpíadas não fez o sucesso subir à cabeça dele. "Após a medalha, Italo me disse: 'Mainha, a medalha é só um título. Minha vida vai continuar a mesma'", diz ela.

Ele não perde a essência, valoriza as origens. A simplicidade e a humildade do meu filho levaram ele a chegar até onde está. Ele faz o que gosta.

Italo, Pollyana e o cachorro da família, Peniche - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Italo com a irmã mais nova, Pollyana, e o cachorro da família, Peniche, em sua casa em Baía Formosa (RN)
Imagem: Arquivo pessoal

Para ela, a única mudança significativa na vida de Italo Ferreira desde que o atleta ganhou a primeira medalha de ouro do Brasil nas Olimpíadas 2021 de Tóquio é a perda da privacidade. "Agora ele não pode fazer tudo o que quer; não pode sair andando aqui por Baía Formosa como fazia antigamente."

Katiana, Luizinho e Pollyana, a única irmã do surfista, também viraram celebridades em Baía. "Todo mundo agora quer saber a história dele; já estou ficando 'injuriada' de contar", brinca ela.

"No início não queria que ele surfasse, achava que era esporte de maconheiro"

Desde a última sexta (30), quando Italo retornou de Tóquio para sua cidade natal, dona Katiana diz que divide os dias entre preparar as refeições do campeão olímpico, dar atenção para familiares e falar com a imprensa. "Minha vida tem sido uma correria desde que esse menino ganhou o título", diz. "Não durmo direito desde que Italo pisou aqui."

Mesmo 'injuriada', Katiana repete com orgulho a história do filho para Universa, ostentando um sorriso de felicidade.

'Quando eu cheguei à maternidade para ter o bebê, achava que ia ter uma menina. Levei brinco e pulseirinha. Italo nem nome tinha. Daí me lembrei que uma freira uma vez tinha me dito: 'Se você engravidar, chame-o de Italo; é nome de gente forte e guerreira

A história de superação de Italo já é conhecida por boa parte do público; filho de pescador, ele aprendeu a surfar por conta própria, aos sete anos, com a tampa da caixa [de guardar peixe] do pai, Seu Luizinho. E precisava pedir ajuda a amigos para conseguir o dinheiro para a inscrição nas competições.

Katiana conta que o surfe dominou a infância do filho. "Ele nunca me deu trabalho, mas detestava estudar. Fugia da escola para ir surfar. Jogava a mochilinha por cima do muro e corria para o mar. Ele deve ter passado boa parte da infância de castigo, diz. E que, no início, não queria que ele surfasse,

Antigamente era esporte de maconheiro. Depois de um tempo, eu deixei isso para lá. Pelo ritmo, achava que ele ia longe, mas não tão rápido quanto ele foi agora.

Assim que retornou do Japão com o ouro, Italo foi surfar no mar de Baía Formosa. Enquanto isso, Katiana estava em casa, preparando o cuscuz do filho que, por sinal, se tornou tradição. "Agora ele leva um saco de cuscuz sempre que vai viajar", revela.

"Faça bonito, meu filho": a ligação de Italo com a avó

Os cuidados com o filho Katiana dividia com sua mãe, Dona Mariquinha. Foi para a avó que o potiguar dedicou a medalha de ouro conquistada assim que saiu do mar em Tsurigasaki, no Japão. "Queria que ela estivesse aqui para ver aonde eu cheguei", disse ele, chorando. Dona Mariquinha faleceu em 2019 por complicações de um AVC (acidente vascular cerebral). A ligação entre ela e o neto, porém, continua viva.

Na casa da avó, um sobrado no centro de Baía Formosa, próximo ao porto e em frente a uma capela, o surfista passou boa parte da infância. Em homenagem à avó, Italo transformará a casa onde cresceu em um instituto social para ensinar crianças a surfar.

"Mainha não deixava a gente comer até que Italo chegasse das competições", lembra Katiana. Ela tinha um restaurante e nós a ajudávamos com o negócio. Foi assim que Mariquinha pegou gosto por Italo. Éramos simples, enquanto Luizinho se virava com a pesca, eu ficava em casa com as crianças. Não tínhamos muitas condições financeiras, era tudo contado.

Dona Mariquinha, segundo relatos, era uma mulher simples, bem-humorada e, principalmente, bondosa. "A avó colocava todo mundo que chegava em casa para comer; quando víamos, tinha umas dez pessoas dividindo refeição com a gente", conta Pollyana, a Polly, irmã caçula de Italo.

Cartaz em Baía Formosa homenageia Italo Ferreira, surfista local - Cristiano Sarmento - Cristiano Sarmento
Cartaz em homenagem ao campeão olímpico de surfe em Baía Formosa
Imagem: Cristiano Sarmento

Quando Italo saiu de Baía Formosa, aos 13 anos, para morar em São Paulo, onde disputava campeonatos e treinava, a pedido de patrocinadores, Katiana diz que Dona Mariquinha ficou muito chateada. "Ela me deu uma bronca e grande: 'Com quem o menino vai se envolver, Katiana?'. Eu dizia para ela que essa era a oportunidade dele, que não podia proibir nada. Ensinava ele a andar com as pessoas certas, a se comportar."

O avô materno, Helio, que também já morreu, gostava muito do neto, segundo Katiana.

Quando ele era mais novo, falava: 'Ritinho [apelido do surfista], você ainda vai ser campeão do Brasil'. Italo respondia: 'Campeão do mundo, vô. Se Deus quiser, o senhor ainda estará vivo para ver' .

Em 2019, Italo ganhou o campeonato mundial de surfe. Foi durante uma das etapas do campeonato que recebeu a notícia da morte de Dona Mariquinha, que pegou a família de surpresa. "Como homenagem, ele tatuou a frase que nossa avó sempre dizia antes das competições: 'Faça bonito, meu filho'", diz Polly.

"Italo é tímido também, agora que ele se soltou", diz irmã

Polly também traz na pele uma homenagem à família: ela tatuou o arco olímpico após a conquista do irmão. "Quero fechar o braço esquerdo com os prêmios que ele conquistar", diz.

Tímida, a irmã do campeão fala pouco com a imprensa. Ela, porém, tem muito a contar:

Desde criança, quando ele colocava algo na cabeça, enquanto ele não conseguisse, ele não sossegava.

Polly fica envergonhada com câmeras e entrevistas. "Italo é tímido também, agora que ele se soltou", entrega. Ela diz que, logo cedo, percebeu que era irmã de um campeão. "Desde criança, quando ele ia competir, ele sempre chegava às finais de três categorias: iniciante, mirim e junior. Sempre soube que ele ia longe."

A irmã de Italo, Pollyana Ferreira, é tímida e não gosta de falar com a imprensa - Cristiano Sarmento - Cristiano Sarmento
Pollyana Ferreira conta que surfa por hobby e que o irmão é determinado desde criança
Imagem: Cristiano Sarmento

Polly também surfa, "mas só como hobby". Ela diz não se incomodar com o fato de ser conhecida como '"irmã do Italo". "A real é que aqui em Baía Formosa todo mundo me chama de Polly. Agora, se um turista me vê na rua, já diz: 'Olha lá, a irmã do Italo'. Para mim, é um prazer, não ligo."

"Se Juliette vier para cá, acabou a nossa paz"

Tanto Polly quanto a mãe trabalhavam com a administração da pousada da família que funcionava na casa de Dona Mariquinha. Com o fechamento do local para a construção do instituto social de Italo, agora as duas aproveitam o tempo livre para curtir a companhia do campeão.

"Se Juliette vier para cá, Deus me livre, acabou nossa paz", brinca Polly, ao ser questionada sobre um possível envolvimento de Italo com a vencedora do BBB 21. A mãe, Katiana, desvia do assunto: "Nas redes sociais, qualquer palavrinha a mais já vira um zunzunzum. Por isso peço para ele ter cuidado com o que posta".

Se Italo saiu de Baía Formosa para o mundo, a família do campeão prefere permanecer no local. "Nunca quis sair daqui. Gosto demais da tranquilidade da cidade, me sinto à vontade", comenta Katiana, que só acompanhou o filho em viagens uma vez, para São Paulo. Polly também não pensa em deixar a cidade natal tão cedo. "Quem sabe no futuro eu não aceite acompanhá-lo para fora do Brasil? Por enquanto ainda não rolou."

Universa