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MC lança proibidão lésbico: "É difícil ser mulher no funk. Imagina sapatão"

MC Mano Feu, de 25 anos, é a dona da música "Linguadinha na xxt", lançada há uma semana - Divulgação/Bella Tozini
MC Mano Feu, de 25 anos, é a dona da música "Linguadinha na xxt", lançada há uma semana Imagem: Divulgação/Bella Tozini

Mariana Gonzalez

De Universa

11/07/2021 04h00

"É dedada nas periquita/Ô sapatão, sarra sua x*ta na minha" — esse é o refrão de "Linguadinha na xxt", primeiro clipe da funkeira MC Mano Feu, de 25 anos.

Lançado há uma semana, o vídeo mostra a artista negra, lésbica e periférica não só canta sobre o sexo entre duas mulheres, como dirige um caminhão e usa um chaveiro de sapo, entre outras referências que outra mulher lésbica, como a repórter que escreve esta matéria, capta na hora.

Mano Feu cresceu em Campinas, no interior de São Paulo, sendo chamada de "Maria macho". Por lesbofobia, chegou a sofrer agressões físicas. Mas só percebeu percebeu que sua vivência enquanto mulher lésbica seria o tema de seu trabalho como funkeira há cinco anos, quando cantou pela primeira vez na Caminhada das Mulheres Lésbicas e Bissexuais, evento que acontece todo mês de agosto, em São Paulo.

"Se o funk é uma forma de falar de sexo, a gente também faz sexo, sente prazer, ama, mas é um tabu. Se é para falar de sexo, eu também quero falar do meu. A gente existe e tem o direito de ocupar todos os espaços", diz, em entrevista a Universa.

Oito dias depois do lançamento, o clipe foi visto 5,6 mil vezes no YouTube.

Embora outras letras de funk sejam mais explícitas que "Linguadinha na xxt", um vídeo com a música foi derrubado do TikTok — provavelmente depois de ser denunciado por outros usuários da plataforma. Mano Feu rebate:

O cara pode falar que está abusando de uma mina, que a música faz sucesso. Tá cheio de funk que fala de estupro por aí. Mas quando a gente fala de sexo lésbico, é contra as diretrizes"

Nesta conversa, Roberta de Souza Nogueira, nome de batismo de Mano Feu, fala dos "nãos" que já ouviu, critica a falta de representatividade sapatão no funk e celebra a oportunidade de trabalhar com uma equipe de 20 mulheres, todas lésbicas ou bissexuais, responsáveis por tirar o clipe de "Linguinha de xxt" do papel.

No clipe, MC Mano Feu dirige um caminhão e usa um chaveiro de sapo -- referências que outra mulher lésbica capta na hora  - Divulgação/Bella Tozini - Divulgação/Bella Tozini
No clipe, lançado há uma semana, MC Mano Feu aparece dirigindo um caminhão e usando um chaveiro de sapo -- referências que outra mulher lésbica capta na hora
Imagem: Divulgação/Bella Tozini

"Os caras tiram o microfone da nossa mão"

Ainda adolescente, Mano Feu soube que queria seguir carreira no funk — mas, em Campinas ou em São Paulo, para onde se mudou aos 17 anos, ouviu muitos "nãos" de gravadoras, produtoras e DJs.

"Seria mais fácil se eu quisesse cantar MPB, mas eu quis o funk, onde não tem mina lésbica. E eu não sou padrão, talvez tivesse mais chances de eu tivesse um corpo mais feminino, mais sexy, mas eu também não gostaria de ser assediada como acontece com outras minas no meio", diz.

Já ouvi muitas críticas do tipo 'você não é bonita' ou 'vai arrumar esse dente', mas nada disso me abala.

"Eu batia todos os dias na porta da gravadora. Uma hora, pararam de abrir quando me viam na câmera de segurança", lembra. "Cantar funk sempre foi difícil porque o funk só tem homem, e quando chega uma mulher, mesmo que seja hétero, eles querem sabotar. Eles tiram o microfone da nossa mão, roubam tempo do nosso show — isso acontece o tempo todo."

MC Mano Feu tem 25 anos - Divulgação/Bella Tozini - Divulgação/Bella Tozini
MC Mano Feu tem 25 anos
Imagem: Divulgação/Bella Tozini
Funkeira começou a cantar aos 17 - Divulgação/Bella Tozini - Divulgação/Bella Tozini
Funkeira começou a cantar aos 17
Imagem: Divulgação/Bella Tozini

"Tive medo de entrar no funk putaria"

Foi só quando conheceu festas específicas para mulheres lésbicas, como a Sarrada no Brejo, no centro de São Paulo, que o nome de MC Mano Feu começou a ganhar espaço. Em um desses eventos, percebeu a demanda de cantar sobre sexo, como tantos outros artistas do funk, mas representando mulheres como ela.

"Sempre tive medo de entrar no funk putaria. Eu gosto muito da cultura do funk porque representa a favela, mostra a nossa realidade, mas os caras falam muita merda. Eles rebaixam muito as minas e eu não queria seguir por esse caminho. Mas não adianta, pra ser um funk que pega, que faz todo mundo rebolar, tem que ter putaria."

"Um dia, estava fazendo um show na Serrada [Sarrada no Brejo, festa lésbica que acontece no centro de São Paulo], uma mina chegou para mim e falou: 'Mano Feu, cadê a putaria?'", lembra. "E ela estava certa. A gente estava numa festa sapatão ouvindo funk machista, porque não tem funk que represente a gente."

Como mulher, já é difícil ser representada no funk. Como sapatão, então, nem se fala.

Até meados de 2020, antes da chegada da pandemia, um dos funks mais celebrados em festas para mulheres lésbicas era "Chupa Xxta", do MC 2K, porque fala sobre sexo oral em mulheres, enquanto a maioria das letras de funk foca na penetração heterossexual. Mas Mano Feu rebate: "Não faz sentido a gente ficar cantando a música do cara. Não é feita para a gente".

O clipe foi gravado à distância: apenas três pessoas da equipe foram até a casa de Mano Feu, em Cabreúva, cidade a 90 quilômetros de São Paulo - Divulgação/Bella Tozini - Divulgação/Bella Tozini
O clipe foi gravado à distância: apenas três pessoas da equipe foram até a casa de Mano Feu, em Cabreúva, cidade a 90 quilômetros de São Paulo
Imagem: Divulgação/Bella Tozini

"Pela primeira vez, me senti 100% confortável"

A música "Linguinha de xxt" passou três anos na gaveta até virar clipe — primeiro, por falta de dinheiro para a produção; depois, por conta da pandemia de coronavírus.

Há três meses, Mano Feu entrou em contato com a roteirista Luiza Fazio, que depois de uma publicação no Instagram, reuniu uma equipe de 20 mulheres lésbicas e bissexuais, que trabalharam de forma voluntária para tirar do papel a ideia de gravar um clipe de "Linguinha de xxt".

"Ninguém se conhecia direito, ninguém ganhou nada, mas todo mundo trabalhou como se fosse um serviço pago, tudo pela vontade de ver o funk sapatão crescer", diz Luiza, que foi roteirista e diretora criativa do clipe, em entrevista a Universa.

Quase tudo aconteceu de forma remota: apenas três pessoas foram até a casa de Mano Feu, em Cabreúva, a 90 quilômetros de São Paulo, enquanto Luiza e Pétala Lopes, diretora geral do clipe, comandaram tudo à distância, por vídeo.

"Quebramos muito a cabeça para representar mulheres lésbicas também em termos de raça e de corpo. Além disso, o funk sexualiza muito as mulheres. Às vezes, a gente mal vê o rosto das cantoras e dançarinas, só a bunda. Por isso, colocamos as mulheres dançando dentro de suas casas, com as roupas que elas quisessem, do jeito que elas quisessem, como se estivessem dançando para o espelho, para se divertir e não para sensualizar".

Para Mano Feu, esse "foi o melhor trampo da minha vida". Ela explica: "Já tive que partir para a arrogância muitas vezes em mesa de reunião, porque os caras não escutam, querem falar no meu lugar. Com as minas não, todo mundo se escuta, é na base do respeito", diz. "Pela primeira vez, me senti 100% confortável. Agora eu quero ganhar dinheiro só para manter essa equipe comigo."

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