PUBLICIDADE

Topo

10 Perguntas

Sócia da KondZilla: "É hora de mostrar que tem mulher no comando do funk"

Divulgação/Felipe Max
Imagem: Divulgação/Felipe Max

Mariana Gonzalez

De Universa

25/05/2021 04h00

Incomodada com a presença ainda escassa de mulheres no funk, no rap e no trap, Alana Leguth, sócia-fundadora da KondZilla, maior canal digital de música da América Latina, criou um projeto para gravar clipes inéditos unindo talentos femininos destes gêneros musicais: assim nasceu o HERvolution. Em poucos meses, o programa que foi pensado para existir apenas na internet chegou à TV aberta e estreou na semana passada, na RedeTV!.

Além de apresentar toda semana, no horário nobre, discussões sobre empoderamento, direitos da mulher e diversidade, o HERvolution fez revolução também na rotina de Alana: tirou a empresária da rotina no backstage da empresa, que fundou há dez anos ao lado do marido, Konrad Dantas. "A KondZilla não é só o Konrad. Eu estou aqui desde o começo, sou sócia-fundadora tanto quanto ele. Quando criei o HERvolution, pensei que estava na hora das pessoas saberem que existe uma mulher no comando da empresa".

A Universa, Alana fala sobre as mudanças que o funk enfrenta em direção à igualdade de gênero, conta como a KondZilla tenta participar da formação dos jovens e defende a importância de criar oportunidades para meninas e mulheres trabalharem na música — seja no palco ou atrás dele, na produção. Leia os melhores trechos da entrevista:

Universa: O HERvolution nasceu como um projeto para a internet e agora leva temas como empoderamento, diversidade e direitos da mulher para a TV aberta. Qual é a importância deste movimento?

Alana Leguth: A internet é uma ferramenta que, em algumas áreas do Brasil, o acesso ainda é muito escasso e as pessoas só têm TV aberta. É muito poderoso ocupar esse espaço com essas temáticas. Mas também não adianta nada deixar a mensagem lá, solta, à mercê do entendimento das pessoas, pelo contrário, a gente precisa garantir que o público entenda a nossa mensagem. Para isso, pensamos o programa para ter a linguagem que a gente usa aqui na KondZilla: simples, jovem e que se comunique com o nosso público, que é o público de favela.

O programa tem um claro recorte de gênero e raça, mas de que outras formas a diversidade está presente no HERvolution?

A gente faz questão de colocar em pauta todos os tipos de mulheres: plus size, negras, trans, de meia idade, idosas. Meu objetivo com esse programa é que todas as mulheres se identifiquem e vejam suas questões tratadas ali em algum momento. Para que eu possa atingir esse objetivo, preciso ter todas as mulheres ali. Para você ter uma ideia, um dos nossos quadros mais elogiados é "O Bairro É Delas", em que meninas apresentam suas quebradas — a primeira foi Guaianases [distrito no extremo leste da cidade de São Paulo], porque coloca a mulher de favela como protagonista na TV aberta, o que quase nunca acontece. Para elas, ver a sua quebrada representada é de uma importância sem tamanho.

Um dos quadros do programa mostra mulheres apresentando seus bairros; o primeiro foi Guaianases - Divulgação - Divulgação
Um dos quadros do programa mostra mulheres apresentando seus bairros; o primeiro foi Guaianases
Imagem: Divulgação

Atrás das câmeras, a equipe de produção também é composta por mulheres. Por que fez essa escolha?

Cerca de 70% da equipe é feminina, sim. Tem que ser assim para manter a coerência do projeto. A gente queria 100%, mas ainda não consegue por conta da escassez de mulher em alguns postos de trabalho do audiovisual. Estamos trabalhando para corrigir isso, empoderando e profissionalizando mulheres, para que ocupem cada vez mais espaço.

Por isso o programa terá um concurso para talentos femininos do funk?

Sim. Quando começamos a procurar mulheres produtoras para o projeto musical, não encontramos. Daí nasceu o concurso. A ideia é encontrar produtoras de funk, rap e trap. A gente sabe que elas existem, que estão por aí, mas ainda têm pouco espaço para trabalhar, pouca visibilidade, por conta do machismo que ainda existe no mundo musical. O caminho para a mulher é mais longo: falta oportunidade, falta apoio — isso gera frustração e acaba afastando as mulheres do meio, elas mudam de carreira.

Onde eu puder, vou colocar mulher para trabalhar.

Você mencionou o machismo no meio musical. Apesar de ser um ambiente dominado por homens, acredita que este é um cenário que está mudando?

Com certeza. O funk passa por várias transformações ao longo dos anos e hoje as letras que exaltam a mulher estão em alta. Ainda bem. Eu vejo e espero um futuro de igualdade. Entre nossos artistas, temos mulheres talentosíssimas que dominaram o mercado da música e agora estão extrapolando esse espaço e chegando aos programas de TV: a Milla [apresentadora do HERvolution], a Lexa [no comando do reality "No Gás do Just Dance", no Multishow]. Eu acredito que o espaço da mulher no funk vai crescer e ser ainda melhor aproveitado.

Alana Leguth - Divulgação/Felipe Max - Divulgação/Felipe Max
Alana lembra que, em 2016, a KondZilla decidiu abolir objetificação do corpo feminino em clipes
Imagem: Divulgação/Felipe Max

Há quem se refira ao funk como um gênero musical machista, por conta de letras que objetificam o corpo da mulher. Concorda com essas críticas? Como responde a elas?

O machismo está enraizado na sociedade há séculos, está presente em todos os mercados, não é uma exclusividade do funk. É urgente dar espaço para as mulheres, não só para as cantoras, mas para as produtoras, para as compositoras, para as DJs — quem está no backstage é tão importante nesta construção quanto quem está em cima do palco.

Aqui na KondZilla, a gente adotou em 2016 a política de não usar palavrões, não fazer apologia às drogas e às armas, e também não objetificar o corpo da mulher. Isso vale para as músicas e para os clipes.

Depois disso, os números do canal cresceram astronomicamente, porque começamos a abranger outros tipos de público além do público de funk. Hoje, 53% da nossa audiência é feminina.

O que o funk representa para os jovens de periferia, especialmente para as meninas?

O funk é tudo para eles: música, diversão, manifestação cultural, protesto. E também oportunidade de trabalho. Antigamente, a maioria dos meninos de periferia queria ser jogador de futebol, hoje eles querem ser MC. Para as meninas, essa possibilidade é um pouco mais distante — e foi por isso que eu criei o HERvolution. A gente quer mostrar para as meninas que ainda vão se tornar profissionais que elas podem ser o que quiserem: artistas, produtoras, compositoras, DJs, diretoras. Onde elas quiserem atuar, a KondZilla vai ajudar, abrindo espaço, profissionalizando.

O fato de o funk representar tanto para esses jovens coloca uma carga extra de responsabilidade sobre a KondZilla? Como vocês atuam para ajudar na formação dos adolescentes?

Com certeza. É por isso que todos os temas relevantes para o público jovem de favela a gente discute de alguma forma — seja numa música, num clipe ou com uma matéria no portal kondzilla.com. A gente tenta passar a mensagem da forma mais consciente possível. Recentemente, uma artista nossa sofreu um assédio sexual no trem, a caminho do estúdio. Quando ela chegou, fomos para a delegacia, fizemos B.O., depois voltamos para o estúdio porque ela quis escrever e gravar uma música sobre isso, para colocar para fora. Depois, lançamos um clipe e criamos um conteúdo no portal com uma delegada explicando como as meninas podem denunciar se sofrerem assédio no transporte público. Essas são informações que não estão de fácil acesso e a gente sentiu a necessidade de facilitar.

Parte do nosso papel é justamente deixar a mensagem de forma que tenha o melhor entendimento possível. Às vezes o humor ajuda nisso, às vezes a linguagem, as gírias. Não adianta usar palavras difíceis, o jovem não vai entender. Se a gente quer que a mensagem chegue até eles, tem que entender as demandas e falar a língua deles.

Alana fundou a KondZilla há dez anos ao lado do marido, Konrad, mas até agora se dedicava ao administrativo, no backstage da empresa - Divulgação/Felipe Max - Divulgação/Felipe Max
Alana fundou a KondZilla há dez anos ao lado do marido, Konrad, mas até agora se dedicava ao backstage
Imagem: Divulgação/Felipe Max

Você fundou a KonZilla junto com o Konrad Dantas, mas quem mais aparece é ele. Por quê? Foi uma escolha sua?

Eu estou na KondZilla desde o começo, sou sócia fundadora tanto quanto o Konrad, mas sempre atuei no backstage — eu toco a frente de licenciamento da KondZilla, a marca é licenciada para a produção de mochilas, cadernos, bonés, enfim. Mas quando eu tive a ideia do HERvolution, ainda enquanto projeto e não programa de televisão, pensei que estava na hora de as pessoas saberem que existe uma mulher na Kondzilla.

A KondZilla não é só o Konrad. É uma empresa com muitas pessoas trabalhando e que tem uma mulher no comando.

Em dez anos, a KondZilla se tornou o maior canal musical da América Latina, chegou ao streaming [com a série "Sintonia", em parceria com a Netflix] e agora à TV aberta. A que outros lugares esperam chegar?

Ter conseguido levar o HERvolution, que nasceu na internet, para a TV aberta foi um sonho realizado, um movimento que eu realmente não esperava. Mas onde tiver espaço, a gente vai ocupar. Aonde a gente puder levar nossa mensagem, falar com o jovem de favela, a gente vai estar presente. O céu é o limite.

10 Perguntas