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257 tiros: "Exército matou meu marido, mas para o pobre a justiça demora"

Luciana com o marido, o músico Evaldo Rosa, e o filho, David; carro em que a família estava foi alvejado 62 vezes pelo Exército, no Rio - Arquivo pessoal
Luciana com o marido, o músico Evaldo Rosa, e o filho, David; carro em que a família estava foi alvejado 62 vezes pelo Exército, no Rio Imagem: Arquivo pessoal

Luciana Nogueira, em depoimento a Luiza Souto

De Universa

26/05/2021 04h00

"Sou técnica em enfermagem, tenho 43 anos e há dois perdi o meu marido, o músico e segurança Evaldo dos Santos Rosa, enquanto estávamos indo para um chá de bebê, em Guadalupe, na zona norte do Rio de Janeiro. E o mais surreal é que meu marido foi assassinado pelas mãos do Exército.

Foram 257 tiros disparados na direção de um carro onde tinha uma família com criança. Oitenta e três acertaram o carro, e o catador Luciano Macedo também morreu tentando ajudar.

Os 12 militares que atiraram falaram que estavam reagindo a um assalto. Mas eles foram acusados pelos crimes de homicídio, tentativa de homicídio e omissão de socorro. O julgamento deles estava marcado para o início de abril, mas adiaram. Também espero indenização por danos morais. Hoje meu filho, David, de nove anos, recebe uma pensão do Estado, mas porque consegui advogado para brigar pela gente.

Até hoje, inclusive, o Estado nunca entrou em contato comigo para saber se precisamos de ajuda. Fui demitida de uma empresa durante a pandemia e só vou conseguir pagar plano de saúde até agosto próximo. Não sei como darei continuidade. Eu e meu filho fazemos acompanhamento psicológico de 15 em 15 dias com ajuda e apoio de amigos e familiares. Eles são a base de tudo. E o David é a minha força. Creio que eu seja para ele também.

Mas tem sido muito difícil, em especial para meu filho, lidar com tudo isso. Primeiro pela perda do pai, e depois veio a pandemia. Ele fica em casa estudando online. Eu trabalho na linha de frente contra a covid-19 num hospital.

O David é uma criança tranquilona e o Duda [como Evaldo era conhecido] preparava bem ele. Às vezes, levavam papo de adulto.

Mas hoje ele tem crise de ansiedade, e às vezes percebo ele estranho, um pouco agressivo. Ele perdeu o grande amigo dele. Foram sete anos de pura harmonia ao lado do pai. Eu, os tios e avós tentamos suprir esse amor para que ele se torne uma criança feliz.

"Não estamos preparados para perder alguém de forma tão brutal"

Deixamos nossa casa em Guadalupe e estamos morando de aluguel no Colégio (zona norte). Não tivemos condições de ficar porque lá foi um local de muita alegria. Às vezes converso com meu filho sobre a nossa volta, mas ele não está preparado.

Por mais que a gente saiba que todos vamos partir um dia, não estamos preparados para perder alguém, principalmente de uma forma tão brutal como foi a do Duda. Não desejo isso para ninguém. Nenhuma esposa ou mãe.

Nunca tinha sofrido violência. Se tivesse condições, me mudaria do Rio para criar meu filho num ambiente bem mais calmo. Todas as vezes que saio de casa, fico com aquela imagem gravada do carro, com medo de se repetir. É surreal viver sempre com medo de ser a próxima vítima.

Foi uma coisa tão bárbara que é inacreditável que nossa Justiça demore tanto para julgar. Começo a pensar que para o pobre as coisas são mais difíceis.

Porque você é pobre, negro e não tem recurso, não sabe por onde começar. Acompanho outros casos tão graves quanto o meu, mas que andam mais rápido. Está tudo invertido, onde o errado sai como certo. Os pobres não têm cuidados necessários, enquanto os brancos e ricos andam com carro blindado e não passam pela Baixada Fluminense, onde a segurança é tão precária.

Você se sente num descaso muito grande, totalmente abandonada. Eu me sinto impotente. Um coração num corpo morto.

Por mais que eu venha tentando seguir, preciso de uma resposta. Temo que o caso caia no esquecimento ou que os militares saiam impunes, porque muitas vezes a gente escuta que não vai dar em nada. E o próprio presidente Jair Bolsonaro (sem partido) falou na época que o Exército não matou ninguém, que foi um incidente.

Preciso muito que essa história se resolva, porque não consegui tocar a vida. Todos os dias dói, e tem dia que dói mais. Procuro ter forças, mas tem momentos em que esmoreço. Minha sogra estava ansiosa também por esse julgamento, mas morreu dias antes da data marcada. Se sou a mulher e sinto tanto por tudo isso, imagine ela, que enterrou o filho.

Espero que a audiência seja logo remarcada para que eu possa ter um pouco de paz e comece a pensar no meu futuro.

Foram 25 anos sendo acalentada por ele. Uma pena mesmo que essa violência ter tirado ele de mim. Se tivesse certeza que um dia iria encontrá-lo, sairia correndo. Sou grata por terem deixado meu filho vivo."

*Luciana Nogueira, 43, é técnica em enfermagem e vive no Rio de Janeiro (RJ)

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