PUBLICIDADE

Topo

Política

Impeachment de Dilma mostrou ódio à mulher, diz autor de livro nos EUA

16.04.2016 Deputados seguram placa tchau querida em votação do impeachment de Dilma Rousseff -  Lalo de Almeida/Folhapress
16.04.2016 Deputados seguram placa tchau querida em votação do impeachment de Dilma Rousseff Imagem: Lalo de Almeida/Folhapress

Camila Brandalise

De Universa

17/05/2021 04h00

A complexidade das consequências que o impeachment de Dilma Rousseff (PT), que completam cinco anos neste mês, trouxe à democracia brasileira se deu também na questão de gênero. De um lado, foi passada a mensagem de que a Presidência da República não é lugar de mulher. De outro, fomentou um levante feminino nas eleições seguintes, incluindo até mesmo candidatas no espectro oposto ao de Dilma, para mostrar que política é, sim, um espaço a ser ocupado por elas.

Essa é uma das conclusões a que chegaram os pesquisadores Pedro dos Santos e Farida Jalalzai no livro "Women's Empowerment and Disempowerment in Brazil: The Rise and Fall of President Dilma Rousseff" (Empoderamento e Desempoderamento Feminino: Ascensão e Queda da Presidente Dilma Rousseff), recém-lançado nos EUA e sem data de publicação no Brasil.

Santos é brasileiro e professor de Ciência Política na instituição de ensino superior College of Saint Benedict and Saint John's University. Jalalzai é americana, filha de imigrantes paquistaneses e docente em Ciência Política na Universidade Virginia Tech. Os dois se debruçam sobre os anos de governo da única presidente mulher do Brasil e, no livro, abordam a iniciativa de aumentar a representação feminina nos ministérios e os investimentos em políticas públicas de gênero, mas mostram como essas ações foram elementos que reforçaram o desejo — majoritariamente masculino — de afastá-la.

Segundo os autores, houve violência simbólica e psicológica contra a mulher durante o processo por meio de palavras como "presidanta", que viralizou, e como expressões como o "tchau, querida", que virou grito de guerra do impeachment. "A expressão até parecer inocente para alguns, mas a votação na Câmara dos Deputados, em 2016, mostrou seu poder misógino", diz Santos, que relembra o voto do deputado Genecias Noronha (Solidariedade-CE) ao falar em "república da Jararaca" e logo depois gritar "tchau, querida".

Os pesquisadores citam também a violência sexual praticada com o uso do adesivo de carro que viralizou em 2015, imagem em que Rousseff era retratada com as pernas abertas. "Foi o cúmulo da misoginia", diz.

Atualmente em viagem pela Islândia, Jalalzai pesquisa agora a ascensão feminina no Executivo do país, comandando pela primeira-ministra Katrín Jakobsdóttir. Com a agenda cheia, não pôde conceder uma entrevista mais elaborada sobre o livro. Por isso, Universa conversou com Santos. Leia abaixo:

UNIVERSA - Por que decidiu falar sobre o impeachment de Dilma Rousseff a partir da perspectiva de gênero?

PEDRO DOS SANTOS - Quando Farida e eu começamos nosso projeto, a ideia sempre foi analisar o governo de Dilma Rousseff no contexto do empoderamento feminino e da representação de mulheres. Começamos o projeto em 2012, com a ideia de publicar um livro no fim do governo Dilma em 2014, se ela perdesse as eleições, ou em 2018, no fim do segundo mandato. Quando o impeachment aconteceu ficou claro que teríamos que abordá-lo no nosso livro. Nós queríamos analisá-lo no mesmo contexto, situando a situação econômica e política dentro da questão de gênero, de empoderamento e desempoderamento feminino.

Qual foi o "empoderamento" trazido pela eleição de Dilma?

Focando na questão de representação, o fato de ela ser a primeira mulher eleita para à Presidência é importante. Depois de 35 homens presidentes, e em um sistema político dominado por homens até hoje, ter a primeira presidenta inevitavelmente traria questões de gênero. Em nossa análise, mostramos como Dilma tentou focar nessas questões de formas simbólicas, em forma da representatividade feminina no governo, e em políticas públicas, incluindo um foco de gênero em ações que não eram só para as mulheres, como Minha Casa Minha Vida e Bolsa Família.

Vocês defendem no livro que as próprias ações de Dilma, ao dar espaço e nomear mais mulheres como ministras e lideranças, pesaram para que ela fosse afastada. Por quê?

Nós interpretamos que a nomeação de mulheres ministras pode ter diminuído a capacidade de manobra de Dilma para negociar usando ministérios como "moeda de troca" na lógica do presidencialismo de coalizão. Homens tendem a ter outros homens como pessoas de confiança em sua rede de amigos e profissionais. Dilma tinha várias mulheres nesses cargos, em posições muito próximas a ela. Então, nosso argumento no livro é mais complexo: ela tinha uma cota de ministérios, ministras e alguns ministros que não eram negociáveis em discussões sobre coalizão. Essas mulheres ministras tinham dificuldades em certas áreas de articulação política, não por questões de competência, mas por não fazerem parte das "panelinhas" que tendem a ser dominadas por homens.

O grande número de ministras provavelmente dificultou certas partes das negociações políticas necessárias para parar o processo de impeachment.

Quais os casos mais emblemáticos de misoginia no processo de impeachment?

No livro nós conectamos ideias sobre misoginia inspirada no trabalho fenomenal da filósofa Kate Manne com a discussão sobre violência contra a mulher na política desenvolvida pela cientista política Mona Lena Krook. Para nós ouve uma violência simbólica quando a expressão "presidanta" viralizou, pois não só questionava a competência de Dilma Rousseff mas também subvertia o usa de "presidenta", termo que ela sempre fez questão de usar. Houve também violência psicológica, quando a conversa entre Lula (PT) e Dilma foi vazada de forma eticamente questionável por Sérgio Moro e a oposição usou a expressão usada por Lula na ligação, "tchau, querida", como o grito de guerra do impeachment. Poderia até parecer inocente para alguns, mas a votação na Câmara dos Deputados mostrou o seu poder misógino. O deputado Genecias Noronha, por exemplo, passou dos limites ao falar que o voto era para "livrar o país da república da jararaca," e logo depois gritar "tchau, querida." Nós também discutimos a violência sexual que representou o adesivo de carro que viralizou em 2015, o cúmulo da misoginia, da tentativa de "colocar a mulher no seu lugar" como diz Kate Manne. O adesivo mostra como no Brasil uma parte da sociedade ainda pensa que violência sexual é piada [na imagem, a presidente da República aparecia com as pernas abertas acima da entrada do cano de abastecimento do carro, simulando um estupro].

Afastar a presidente foi também uma maneira de dizer às mulheres que a política não é lugar para elas?

Somos enfáticos no livro ao dizer que a razão para o impeachment vai além de questões de gênero, mas que as ofensas dirigidas a Dilma durante o processo tiveram um tom extremamente misógino, com a intenção de atacá-la pelo fato de ser uma mulher em um espaço masculino. Se pensarmos na misoginia como uma tentativa de "colocar a mulher no seu lugar" no uso de narrativas, imagens, ou ações para intimidar direta ou indiretamente uma mulher que está em um espaço de poder, existem vários exemplos no Brasil. Acredito que Tabata Amaral [deputada federal pelo PDT] sofre ataques misóginos que vão além de diferenças ideológicas, tanto da esquerda quanto da direita no Brasil, porque ela é uma mulher em um espaço extremamente masculino.

Como a violência política de gênero impede que o número de candidatas e parlamentares eleitas aumente?

Existem vários aspectos que influenciam o número de mulheres na política, incluindo as regras eleitorais. O número de candidatas tem crescido nos últimos anos, e cresceu entre 2014 e 2018. Porém, as mudanças nas leis eleitorais foram várias, incluindo mais incentivos para partidos. Por exemplo, mudanças no financiamento de campanha levaram a um grande número de mulheres candidatas a vice-governadoras e cinco candidatas a vice-presidente. Esse aumento entre 2014 e 2018 mostra, pelo menos, que o impeachment não teve um impacto significativo na intenção de mulheres em participarem do processo político.

O que nós vimos em nossas entrevistas foi um efeito complexo em como as mulheres veem a política: o impeachment mostrou como o sistema tende a punir mulheres no poder, mas também reforçou a necessidade de ter mais mulheres nos espaços de poder.

Acredita que a eleição de toda mulher é uma vitória, mesmo que não defenda pautas femininas?

Vejo que ter pessoas que refletem a população na política como algo muito importante no processo democrático. Portanto, independente da minha orientação política, acho importantíssimo ter mais mulheres no poder. Mulheres são menos de 20% de líderes em cargos eletivos. Existe uma variação tremenda em termos de ideologias e tendências políticas no eleitorado feminino. Portanto, todas deveriam ser representadas nos espaços políticos. É comum ter perguntas como essa que indagam se existe um só perfil, ou poucos perfis, de mulher na política. Porém, nós não nos perguntamos se Lula (PT) e Jair Bolsonaro (sem partido) representam avanços ou perdas para a representatividade masculina. Qualquer mulher que entra num espaço de poder no Brasil irá enfrentar dificuldades por causa do sistema institucional masculinizado, portanto mulheres com ideologias e identidade partidária variadas têm a capacidade de fazer o sistema mais representativo e mais suscetível para outras no futuro.

Quais vereadoras, deputadas ou senadoras acredita que estão atuando pela representatividade e em prol das mulheres?

Antes de falar em nomes específicos, gostaria de dizer que os mandatos coletivos são um fenômeno novo nas conjunturas locais que têm o potencial de produzir resultados interessantes nas questões de representação feminina. Thaís Ferreira (PSOL), vereadora no Rio de Janeiro, tem feito um trabalho interessante com a ideia da Mãedata [a equipe do mandato de Thais é formado por um coletivo de mães]. Acho que Tabata Amaral (PDT) é um nome de destaque, uma deputada jovem que tem usado as mídias sociais bem nesse período de pandemia. A deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL) é outro nome importante. A senadora Simone Tebet (MDB-MS) também tem se destacado no Senado. Sônia Guajajara é outro nome, pelo ativismo e trabalho na política.

Dilma foi eleita há 11 anos. Quão longe estamos de eleger outra mulher para presidente?

Difícil fazer essa previsão. Nós fomos de uma eleição em que dois terços da população votaram em uma mulher para a Presidência no primeiro turno, em 2010 e 2014, para outra em 2018 onde 1% da população votou em uma mulher. O sistema político brasileiro ainda é masculino e masculinizado, dominado por homens em posições de poder dentro dos partidos. Vale lembrar que Dilma foi de certa forma uma surpresa como candidata, e sua trajetória política foi bem diferente dos nossos presidentes. O nome de Luiza Trajano [Presidente do conselho de administração do Magazine Luiza] vem sendo sondado para 2022, e sua candidatura seria interessante. Gleisi Hoffmann, como presidenta do PT, é um nome a considerar para eleições além de 2022, mas a conjuntura nacional dificulta bastante esta candidatura. Não sou muito otimista nesses próximos ciclos eleitorais que uma mulher tenha o apoio de um partido com chances de vencer, porém espero continuar vendo o crescimento de mulheres candidatas à presidente e à vice-presidente, tentando mudar as caras que aparecem nas campanhas.

Política