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Elas são mães e candidatas: "Ouvi que usava meu filho fofo pra ganhar voto"

Marina Helou, pré-candidata à prefeita de São Paulo pela Rede: "Expor a realidade como mãe é estar exposta também a julgamentos sobre a forma de maternar" - Iury Carvalho/Divulgação
Marina Helou, pré-candidata à prefeita de São Paulo pela Rede: "Expor a realidade como mãe é estar exposta também a julgamentos sobre a forma de maternar" Imagem: Iury Carvalho/Divulgação

Camila Brandalise

De Universa

27/09/2020 04h00

A ativista social Thais Ferreira decidiu concorrer a uma vaga de vereadora pelo PSOL no Rio de Janeiro, neste ano. Não sem antes explicar aos filhos, um menino de seis e outro de quatro anos, o porquê de, dali em diante, ter que sair com mais frequência de casa e, às vezes, não poder estar com eles.

"Mamãe vai participar de uma eleição. Isso significa que vou lutar para melhorar a vida das pessoas, do povo preto, e ajudar a decidir o que é melhor para a escola, para a praça, para quem mora na cidade", disse aos filhos. "Tentei explicar de um jeito que eles pudessem entender", conta. "O mais novo acha que eu estou participando de um concurso e que tenho que ganhar porque sou muito linda e genial."

A campanha, oficialmente, começa neste domingo, dia 27 de setembro. As eleições estão marcadas para o dia 15 de novembro e, em havendo segundo turno, também para o dia 29 do mesmo mês.

Thais Ferreira amamentando - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Thais amamenta o filho durante evento de campanha: "Preicsamos normalizar essa imagem"
Imagem: Arquivo pessoal

Thais, que atua em movimentos sociais voltados para questões de maternidade e infância, já havia concorrido deputada estadual em 2018. No lançamento da sua candidatura, em evento do partido, discursou enquanto amamentava o filho. "Foi libertador. Precisamos naturalizar esse tipo de imagem."

Uma maior participação de mulheres na política, o que é esperado para as eleições de 2020, deve significar, também, mais mães envolvidas no meio, assim como Thais, e cumprindo intensas agendas que envolvem reuniões, eventos e ações para conseguir votos.

Universa conversou com seis candidatas pelo país que contam como conciliam maternidade e campanha e falam da importância de mais mães participarem da política —o que, infelizmente, ainda é uma fator que impossibilita muitas mulheres de se candidatarem, uma vez que as obrigações da criação ainda recaem majoritariamente sobre elas.


"Crianças já conhecem toda equipe de campanha"

Candidata à prefeitura de São Paulo, a deputada estadual Marina Helou (Rede) é mãe de Martin, 2, e Lara, de oito meses. Também vive a segunda experiência conciliando a maternidade e a campanha política —a primeira vez foi em 2018. "Mas está sendo um desafio tão grande quanto porque agora são duas crianças. Antes, eu levava o bebê aonde precisasse ir. O que acontece hoje é que eles participam das reuniões do Zoom [plataforma de videoconferência] comigo. Já conhecem toda a equipe do mandato", conta.

"Em 2018, vivi uma situação bem dura, dividi os horários com meu marido. E, uma vez, no meu horário, tinha uma reunião e precisei levar meu filho", lembra. "Um candidato de outro partido me disse: 'Você traz seu filho porque ele é fofinho, você quer conseguir voto, é sacanagem com a criança'. Aquilo me pegou demais."

Para Marina, o peso desse tipo do comentário tem relação com a culpa que sempre vem junto com a maternidade. "Quando escolho manter a carreira ativa, vem esse peso. Esse dia foi horrível, mas percebi que foi mais uma tentativa de invisibilizar a maternidade. É como se fosse um trabalho que não existisse. E, olha, dá muito trabalho, as pessoas precisam ver isso. Mas expor essa realidade é estar exposta também a julgamentos sobre a forma de maternar."

Pandemia e aulas remotas

Ticiana de Guer é candidata a vereadora pelo PDT no Crato (CE) e tem um filho de 16 anos. A maior dificuldade, para ela, é conciliar a agenda política com o apoio que precisa dar ao rapaz em função das aulas remotas.

"Às vezes, eu preciso sair no meio da manhã e recebo uma mensagem da escola dizendo que ele não entrou na aula. Aí paro o que estou fazendo para ligar para ele e saber o que aconteceu. A pandemia, nessa questão do acompanhamento escolar, tem sido uma grande dificuldade", diz.

"Ele também me cobra para ajudá-lo com tarefas. Acho que essa responsabilidade com os filhos faz com que muitas mulheres se afastem da política. Porque, em uma campanha, é complicado, a gente precisa se ausentar muito."

Jacielma - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Jacielma com o filho: "Converso com ele sobre o porquê de estar ausente toda vez que saio de casa"
Imagem: Arquivo pessoal

Jacielma da Silva Santos, candidata a vereadora pelo PT na cidade de Orocó (PE), é mãe solo e conta com a ajuda da tia, com quem vive, para cuidar do filho de dez anos. E diz escutar as mesmas cobranças, inclusive vindas de outros membros da família.

"Às vezes, eu choro por causa disso. Dizem que não dou atenção [ao filho], que deixo ele jogado. Tento resolver isso conversando com ele toda vez que saio de casa. Falo da campanha, que estou correndo para lá e para cá para ser eleita. Explico que isso também vai ajudá-lo futuramente", diz ela, que vive na comunidade quilombola de Umburana e quer trazer para a região um centro de assistência social para jovens e adolescentes.

"Digo sempre para o meu filho: 'Futuramente você vai ter orgulho da sua mãe'."


Fora de casa nos últimos 15 dias de campanha

Mãe de trigêmeos de dois anos, Marina Bragante, candidata a vereadora em São Paulo pela Rede, ainda passa a maior parte do tempo em casa, por causa da quarentena na cidade. Ainda assim, enfrenta os perrengues de qualquer mãe, multiplicados por três.

"Minhas crianças não dormem a noite toda. Já teve noite que os três acordavam ao mesmo tempo, gritavam loucamente. Em outra, só uma acordava, e depois outro. Já teve noite em que dormimos os cinco na mesma cama e, obviamente, os adultos não conseguem dormir direito", conta. Ela diz que chegou a repensar a candidatura não por causa dos filhos, mas pela pandemia. "Deu uma desorganizada nos planos. Sair para a rua significa expô-los a doenças."

Marina Bragante - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Marina Bragante com os filhos trigêmeos durante uma reunião on-line com a equipe de campanha
Imagem: Arquivo pessoal

Um dos momentos mais frustrantes foi quando, durante a convenção online do partido para oficializar as candidaturas, uma das filhas de Marina começou a chorar copiosamente pedindo colo à mãe. "Eu estava na frente do computador, pronta para fazer meu discurso, emocionada, e ela abriu o berreiro como aquelas crianças em supermercado. Coloquei no colo e ela apareceu comigo. Depois, me escreveram dizendo que ela é fofa. Ela é, e eu amo a minha filha, mas naquele momento queria que fosse só eu."

O plano, por enquanto, é reservar os últimos 15 dias de campanha para sair de casa e pedir votos, com todos os aparatos de segurança necessários, mas ficar em outro lugar, o que significa estar longe dos filhos nesse período.

"Estou me preparando mentalmente e fisicamente para poder sair e ficar longe dos meus filhos. É bastante coisa. Já pensei em desistir de tudo algumas vezes. Mas ter convicção ajuda. Sou uma mulher, como muitas, que não sabe ser só mãe ou só profissional ou só esposa. Sou uma mulher que abraça toda essa complexidade e escolhi viver isso", afirma Marina, que entre suas pautas principais inclui o aumento de investimentos nos cuidados com a primeira infância, período do nascimento até os seis anos.

A importância do exemplo

A rotina de uma candidata com filhos exige que, entre uma reunião e outra, ou mesmo durante elas, a atenção e o foco sejam divididos com os filhos. Amália Tortato (Novo) é candidata a vereadora em Curitiba, tem uma filha de nove meses e decidiu reservar as manhãs para os cuidados com a criança. À tarde, segue a agenda da campanha enquanto o marido, que é piloto e tem ficado mais em casa por causa da diminuição da carga de trabalho na pandemia, cumpre as obrigações de pai.

Amália diz que já prevê caras feias caso apareça com a criança em uma reunião. "Mas, para mim, é uma coisa muito bem resolvida: é minha filha, ela depende de mim. Se alguém se incomodar, nem vale a pena conversar com uma pessoa que não entende isso", diz.

Levar a criança para eventos e compromissos políticos, inclusive, é uma maneira de incentivar outras mulheres a fazerem o mesmo. "A maternidade é um fator que dificulta o ingresso das mulheres na política. Muitas não contam com uma rede de apoio, com familiares ajudando, com marido dividindo tarefas, como no meu caso. Mas, com mais mães se candidatando, nós também estamos mostrando que é possível conciliar as coisas. Dá mais trabalho, claro, mas as mulheres não devem deixar de lutar por um cargo público."

Um dos pilares de sua campanha será melhorar os serviços de cuidados e de educação com criança de 0 a seis anos. "Inclusive porque eu entendo que é um dos fatores que dá independência à mulher. Se as crianças estiverem em um lugar seguro, tiverem uma educação de boa qualidade e alimentação, a mãe consegue ficar mais tranquila para se dedicar ao trabalho."

Cotas para mães

Para Thais Ferreira, o discurso sobre incluir mulheres na política precisa contemplar, também, as mães. "As cotas femininas já existentes poderiam incluir uma porcentagem para mães", diz, referindo-se ao cumprimento do percentual mínimo de 30% de mulheres exigido aos partidos. "Mas as siglas poderiam fazer suas resoluções próprias, como fazem ao estimular filiações de jovens, de negros... Que façam com mães também."

"As mães é que precisam tomar as decisões. Não queremos mais ouvir o 'vamos legislar para elas', que normalmente se resume a vagas em creches. Passou da hora de fazer essa mudança."

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