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Não é só biscoitagem: elas contam por que postam fotos nuas e seminuas

Lais Conter é empresária, designer, modelo e escritora  - Júlia Henz
Lais Conter é empresária, designer, modelo e escritora Imagem: Júlia Henz

Tina Borba

Colaboração para Universa

05/05/2021 04h00

É só dar uma olhada rápida no feed do Instagram para ver imagens de mulheres com pouca roupa nas mais diferentes poses. Nem todas postam só para biscoitar - termo muito utilizado nas redes para fotos postadas apenas para gerar elogios.

Muitas delas estão se apropriando desses espaços virtuais para ressignificar a própria imagem, como por exemplo mulheres com corpos ainda ditos como fora do padrão. Mas, afinal, se não é só pra receber elogios e curtidas, por que as mulheres têm compartilhado fotos de seus corpos seminus? A seguir, Pri e Laís contam que têm motivações que vão além da vaidade.

"Liberdade de me expressar da forma que eu quiser"

Com as fotos, Lais Conter compartilha seu processo de autoaceitação.  - Maiquel Borges - Maiquel Borges
Com as fotos, Lais Conter compartilha seu processo de autoaceitação.
Imagem: Maiquel Borges

Lais Conter, 32 anos, é empresária, designer, modelo e escritora. Ela é administradora de um perfil de cantadas no Instagram, o "Me Lambe", com mais de 300 mil seguidores, é sócia da plataforma de áudios eróticos Tela Preta e fala sobre sexualidade com naturalidade na vida profissional e pessoal. Em seu perfil pessoal posta muitas fotos sensuais. A seguir, ela conta suas motivações:

"Pra mim não é uma questão de empoderamento, nem uso essa expressão. Acho que muitos fotógrafos acabam a usando de maneira comercial, pra vender 'empoderamento' e eu sou bem contra isso. Pra mim é mais uma liberdade de poder ser e me expressar da forma que eu quiser, sem ser vista como um objeto, sendo vista como uma pessoa.

Claro que sei que existe o olhar machista. Mas tento tirar de mim essa 'culpa', como se eu expor meu corpo seria uma forma de objetificação, sendo que quem está fazendo isso não sou eu, é outra pessoa.

Já aconteceu várias vezes de caras virem me abordar ou até alguma pessoa que eu esteja interessada forçar a barra para um viés mais sexual por eu ter uma página que fala de sexualidade, ser sócia da Tela Preta e por ter fotos sensuais no meu perfil pessoal. Isso é uma coisa que me incomoda muito.

Pra mim, sexo é uma coisa inerente do ser humano, natural. Sempre pensei assim. Mas entendo que a gente não é uma coisa só: sou uma pessoa múltipla, tenho a minha faceta mais sensual, mas também sou muito afetiva. Eu lancei um livro que não tem quase nada de sexo, é sobre sentimentos.

Eu venho diversificando mais o meu conteúdo porque infelizmente as pessoas não têm maturidade pra lidar com uma mulher livre, uma mulher que fala de sexo abertamente, que mostra seu corpo, que não tem vergonha. Já fui muito julgada.

Tenho falado muito sobre o meu atual processo que é de autoaceitação. Engordei 20 quilos no último ano, com a pandemia. Então estou trazendo um pouco mais desse meu lado - sempre tive muita dificuldade de demonstrar as minhas vulnerabilidades e venho tentando fazer isso.

Sigo vários perfis de mulheres com corpos mais reais, sem tantos procedimentos estéticos, sem plásticas. Tenho feito esse movimento já faz algum tempo e isso me ajuda muito.

Postar as fotos é bem importante para eu perceber que meu corpo é perfeito como ele é, que ele funciona perfeitamente e me permite viver tudo que eu já vivi e ainda vou viver." Laís Conter, 32 anos, empresária de São Paulo (SP)

"É para ver o corpo de forma artística"

Pri Barbosa autoretratro - Pri Barbosa - Pri Barbosa
A artista plástica Pri Barbosa usa o seu corpo como modelo de referência para as suas pinturas.
Imagem: Pri Barbosa

Pri Barbosa é artista visual, muralista e ilustradora. Em seu perfil no Instagram com mais de 100 mil seguidores, divulga as suas obras e não raro é possível encontrar fotos dela nua ou seminua, além de ilustrações de seu próprio corpo. Ela conta por que:

"Essas imagens fazem parte do meu trabalho e acompanham um diálogo. Quando eu compartilho uma pintura em que existe o corpo de uma mulher, um corpo que não é um corpo padrão, um corpo nu, é o mesmo diálogo de quando aparece uma foto minha.

Eu não acredito no empoderamento pela nudez. Primeiro pois empoderamento não é algo individual, é sempre coletivo. E segundo porque engloba esferas diferentes: corpo, social, econômico...

Não tiro fotos para resolver problemas de autoestima, mas reconheço que fez eu me sentir ainda melhor comigo mesma.

No começo, eu tinha uma autoestima que no geral era boa, só que tinha muitas partes do meu corpo que eu achava problemáticas. Com esse tempo de observação, para fazer as fotos e as pinturas, isso foi passando. Eu gosto muito de pintar minha dobrinha das costas. Observei tanto no espelho que agora eu acho uma coisa muito linda.

Com suas selfies e autorretratos, Pri diz que tem autonomia de se mostrar ao mundo como quer - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Com suas selfies e autorretratos, Pri diz que tem autonomia de se mostrar ao mundo como quer
Imagem: arquivo pessoal

Mas, em geral, as fotos têm mais a ver com o corpo de forma artística mesmo, de enxergar o meu corpo de uma maneira poética, nessa representação que é um tanto afetiva. É minha presença intelectual e artística.

Quero minha personalidade ligada ao meu trabalho e aparecer nas fotos também tem a ver com isso. Eu não só pinto mulheres, eu sou uma mulher, eu não só pinto corpos, eu sou um corpo, as coisas andam juntas.

Também é uma busca por autonomia, uma busca por ter controle da sua própria narrativa, por escolher como você se mostra no mundo e não ficar esperando pra ver como as pessoas querem te colocar nesse mundo ou como elas vão te retratar." Pri Barbosa, 31 anos, artista plástica de São Paulo (SP)

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