PUBLICIDADE

Topo

Relacionamentos

Separados pela pandemia, casais não sabem quando vão se reencontrar

Mariana e António não se veem pessoalmente há um ano. Ele está em Lisboa, ela em Belo Horizonte - arquivo pessoal
Mariana e António não se veem pessoalmente há um ano. Ele está em Lisboa, ela em Belo Horizonte Imagem: arquivo pessoal

Priscila Carvalho

Colaboração para Universa

25/04/2021 04h00

Desde março de 2020, viajar para o exterior virou uma tarefa quase impossível, principalmente para os brasileiros. Para tentar conter a disseminação do novo coronavírus, alguns governos fecharam as fronteiras dos países e fizeram com que muitas pessoas ficassem presas ou simplesmente não conseguissem voltar para o seu país.

E quem tinha planos teve que adiar a visita e não criar expectativas em relação a viagens, seja a trabalho, estudo e até para encontrar o namorado. Universa conversou com Jéssica e Mariana, duas brasileiras que não veem os companheiros há mais de um ano. Elas contam como é manter um relacionamento à distância e as dificuldades de não poder fazer planos para o futuro.

"Pensei até em terminar no começo da pandemia"

Jessica e o namorado alemão Lukas não se veêm desde janeiro de 2020. - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Jessica e o namorado Lukas que é alemão mas mora na Austrália, não se veêm desde janeiro de 2020.
Imagem: arquivo pessoal

"Estamos juntos há quase quatro anos e em janeiro de 2020 foi a última vez que nos vimos, na Alemanha. Eu tinha ido passar as festas de fim de ano e também para conhecer a família dele. Depois disso, vim para o Brasil passar férias, a pandemia começou e não consegui mais voltar para a Austrália, onde nós morávamos.

É muito ruim namorar a distância e a parte mais difícil é o fuso horário, já que existe uma diferença de 14 horas.

Apesar de a tecnologia facilitar muita coisa, é muito difícil ter intimidade, ver e saber o que a pessoa está precisando e o que está passando. No comecinho da pandemia, pensei em terminar, mas conversamos sobre isso e resolvemos que íamos tentar desta forma.

Já criamos expectativas duas vezes em relação às fronteiras. Ano passado a Austrália anunciou que abriria novamente em maio, depois voltou atrás. Em outubro, ocorreu a mesma coisa. Depois destas mudanças, resolvemos não programar muitas coisas.

A distância também facilita as brigas. Já discutimos por achar que um de nós não está dando a devida atenção ao que o outro precisa. Às vezes ocorre desencontro de mensagens, parece que a pessoa está falando de um jeito e é de outro — mesmo por mensagem de voz.

Espero reencontrá-lo em breve e eu não sei qual será minha reação. Não sei se vou chorar, se vou dar um abraço muito longo e apertado. Não vou fazer muitos planos para o futuro, porque ainda está difícil planejar algo. Por enquanto, pretendo morar na Alemanha com ele e ver o que vai acontecer depois." Jessica Malheiro, 29, mora em São Paulo. O namorado, Lukas, é alemão, mas mora na Austrália.

"A distância inviabiliza fazer mais planos"

Mariana Barros, 29 anos, Minas Gerais - arquivo pessoal - arquivo pessoal
Mariana chegou a negar uma proposta de emprego no Brasil por não se sentir segura em fazer planos
Imagem: arquivo pessoal

"Nós nos conhecemos em Portugal, quando fui visitar minha irmã, que mora lá. Estamos juntos há dois anos e faz um ano e um mês que estamos separados. A última vez que nos vimos foi quando ele veio para o Brasil conhecer minha família. Isso foi bem no começo da pandemia, no ano passado, e as restrições estavam chegando e ele até teve dificuldade de ir embora.

Uma das coisas mais difíceis de namorar à distância é perder os momentos que você gostaria de estar com a outra pessoa. Ele acabou de passar no mestrado e eu não estava lá. Não tem como comemorar direito.

Eu até pensei em terminar, justamente pelas circunstâncias que estamos passando, mas optei por não fazer isso. Às vezes surgem notícias de aberturas de fronteiras, mas depois a gente vê que não é bem aquilo. Há muitas notícias sensacionalistas e que, ao checar, você vê que não tem direito de entrar no país.

Eu quase cheguei a ir para Portugal. Tinha conseguido um trabalho lá, mas um problema na empresa dificultou ainda mais a minha mudança para o país. Cheguei até a pensar em ir pela Croácia, mas muitos brasileiros relataram maus tratos, então, desisti.

Não dá pra saber quando isso vai acabar. Além disso, a distância inviabiliza fazer mais planos. Recebi até uma proposta de emprego aqui no Brasil, mas não pude aceitar, justamente por causa disso. É tudo muito incerto.

A gente até já discutiu algumas vezes, mas nós nos damos conta que essa situação não é nossa culpa. Tem muita gente passando por isso e pelo menos estamos juntos.

Eu tenho visto alguns casais que não conseguiram superar e tento levar com mais esperança. Não vejo a hora de vê-lo e acho que, quando isso acontecer, vou dar um abraço bem forte e acho que não vou acreditar que estou vendo." Mariana Barros, 29 anos, mora em Belo Horizonte (MG), o namorado, António, mora em Portugal.

"Love is not tourism": grupo do Facebook ajuda casais separados pela pandemia

Desde o início da pandemia, o grupo "Love is not tourism" foi criado no Facebook, para tentar ajudar casais que estivessem separados pelas fronteiras e que não tinham nenhuma perspectiva de reencontro. Hoje, a página internacional já conta com pouco mais de 47 mil usuários.

O sucesso foi tão grande, que brasileiras criaram a versão nacional para ajudar outros usuários que namoram estrangeiros ou brasileiros que estavam "presos" em outros países. Uma das administradoras do grupo, Gabriela Rodrigues, 21, conta que muitas mulheres casadas e até grávidas não podiam voltar para o seu país e tinham que ficar no Brasil, mesmo tendo uma vida no exterior.

Gabriela Rodrigues, 21, adm do grupo e o namorado Antoine - arquivo pessoal - arquivo pessoal
O francês Antoine acabou conseguindo vir para o Brasil mesmo com a pandemia. E Gabriela e ele casaram aqui.
Imagem: arquivo pessoal

A auxiliar administrativa ressalta que o intuito do grupo nunca foi furar a quarentena ou algo do tipo. "Nosso intuito era poder dar respaldo a outras pessoas, principalmente em relação à documentação, exames ou pedidos feitos na imigração, por exemplo. A gente sempre falava que não era para ninguém ir e ficar passeando, e sim, em companhia do namorado ou marido", afirma.

Gabriela estava engajada, já que assim como Jéssica e Mariana, ela também mantinha um relacionamento à distância, com o namorado que é francês. . "Nos conhecemos pela internet e na época estávamos juntos há dez meses", afirma. Depois de algumas tentativas, seu atual marido conseguiu vir para o Brasil e os dois se casaram no país.

Hoje, o grupo ainda segue ativo e os participantes trocam atualizações em relação às fronteiras no mundo todo. "Algumas pessoas até criaram subgrupos se queriam informações específicas de um país", finaliza.

Relacionamentos