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Como a pandemia mexeu com o romance de um casal não monogâmico

Pablo e Laura são não-monogâmicos. Com a pandemia, ele se sente confortável de sair com algumas pessoas. Ela prefere o isolamento total - arquivo pessoal
Pablo e Laura são não-monogâmicos. Com a pandemia, ele se sente confortável de sair com algumas pessoas. Ela prefere o isolamento total Imagem: arquivo pessoal

Tina Borba

Colaboração para Universa

14/04/2021 04h00

Desde o início da pandemia a recomendação dos especialistas em saúde é que as pessoas fiquem em casa. Há meses vivendo nessa situação, muitas coisas precisaram ser adaptadas para preservar a saúde, e a forma de se relacionar é uma delas. Pessoas em relacionamentos não monogâmicos, por exemplo, precisaram ajustar a sua forma de amar.

Afinal, não ter exclusividade entre pares deixou, nesse momento, de ser apenas uma escolha emocional, mas também de saúde. Então, como trocar afeto com múltiplos parceiros e seguir a recomendação de não sair de casa para encontrá-los?

Pablo Diniz, de Porto Alegre (RS), tem 27 anos e se relaciona de forma não monogâmica há 8 anos. Atualmente, namora à distância com Laura Carta, de Curitiba (PR), 22 anos. Todo relacionamento desse tipo parte de alguns acordos entre os pares. Em alguns relacionamentos os acordos são mais detalhados. Em outros, como o da Laura e do Pablo, mais fluidos, o que conta muito é o diálogo sincero e aberto. Com a pandemia, Laura está mais reclusa. Pablo segue tendo alguns encontros.

Apesar de não se sentir segura para fazer o mesmo que o namorado, Laura não se incomoda com a conduta dele. "Ele me conta quando sai, e eu de forma nenhuma vejo problema nisso. Eu até fico supercuriosa, mas eu não tenho nada a ver com as outras relações do Pablo, mesmo que eu conheça as pessoas e saiba que elas são bem legais e tal. A relação deles ainda é a relação deles." diz.

Laura também tem experiência com esse tipo de relação e compara a sua vida amorosa com um armário cheio de gavetas. Cada relacionamento é uma delas, e nenhuma precisa se preocupar com a outra, pois há espaço para todas. Agora eles vivem um relacionamento não monogâmico que tem regras básicas: usar camisinha, se cuidar e se envolver com pessoas que façam bem.

Laura e Pablo - Como nós dois tínhamos experiências anteriores em relacionamentos não-monogâmicos foi bem tranquilo como o nosso relacionamento se desenvolveu, diz Laura. - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A última vez que o casal se viu pessoalmente foi no Carnaval.
Imagem: Arquivo pessoal

Os dois iniciaram a relação em outubro passado, e a última vez que percorreram os mais de 600 km que os separam para se ver foi no Carnaval. Apesar da saudade ser grande, a situação da pandemia inspira muitos cuidados. Por isso, eles cancelaram uma viagem que tinham marcado. "É bem frustrante, porque não é como se a gente não quisesse se ver, a gente realmente não pode, a gente até estava com viagem marcada e agora não vai dar pra ir porque a situação piorou muito", afirma a artista 3D.

A pandemia que nos separa

Apesar do combinado da dupla, Laura não tem saído com ninguém. "Não é uma coisa prudente agora, eu não me sinto confortável nesse momento de pandemia em sair com outras pessoas. Mas de forma nenhuma a nossa relação é mais monogâmica porque eu não estou saindo com ninguém além dele", diz. Ela trabalha remotamente e mora com os pais e a irmã em Curitiba e não sai pois tem medo de colocar a saúde da família em risco.

Já Pablo enxerga e vive as coisas de um modo um pouco diferente. Para ele, que é engenheiro mecânico e às vezes precisa sair de casa para trabalhar, é muito injusto exigir que a população continue sua rotina de trabalho diária e proibir o contato íntimo. "Essa é a principal dificuldade para um monte de gente na pandemia. Não existe uma orientação clara para o enfrentamento disso em meio ao desgoverno que vivemos. Isso é injusto! As pessoas não aceitam e as pessoas não têm culpa de não aceitar".

Ele faz questão de dizer que não é negacionista, mas tem procurado um caminho do meio para sobreviver a esses tempos difíceis. "Claro que tem níveis de cuidado a tomar: sair menos, se cuidar mais... A gente se adapta para conseguir sobreviver a esse período horrível", afirma.

Pablo deixou a casa da família no início da pandemia, pois sabia que alguns dias teria que trabalhar presencialmente e não queria colocar a vida deles em risco. Atualmente divide apartamento com dois amigos em Porto Alegre e de vez em quando se relaciona com um casal que conheceu no Tinder, como ele explica.

Agora eu tô saindo só com esse casal, mas eu saio com outras pessoas. Eu busco tomar um pouco de cuidado. Por exemplo, pessoas que estão de home office e que eu vejo que não estão no Instagram toda semana em bar

Laura, apesar de não se sentir segura para fazer o mesmo, não se incomoda com a conduta dele. Assim como o namorado, ela também usava o Tinder no início da pandemia. Entretanto, não se sentia tão confortável para interagir virtualmente com as pessoas. "Eu estou no espectro autista, então essa coisa de manter conversinhas online é muito difícil pra mim. Eu fico pensando "será que eu tô falando certo?". O presencial sempre fluiu muito melhor", relata. Laura tinha uma namorada quando a pandemia começou e até fez alguns dates com ela, contudo, não se imagina conhecendo alguém novo desse jeito.

Ela não descarta a possibilidade de voltar a sair com outras pessoas. Tudo depende de como a pandemia avançar. "Eu acompanho como as coisas estão. Se tem um nível mínimo de segurança pra eu dar uma volta com alguém no parque, eu talvez dê uma volta com alguém no parque. Mas realmente depende muito de como as coisas forem acontecendo", explica.

Mas, afinal, por que não monogamia?

Apesar das incertezas com relação aos novos dates, Laura não pensa em mudar o modo como se relaciona. "Eu acho que quando você se relaciona com alguém, tem a sua vida e a vida da pessoa, e vocês tão compartilhando momentos, você não precisa se fundir com a outra pessoa".

Assim como Laura, Pablo encontrou na não-monogamia o que o faz feliz. "Eu sempre senti que é possível amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, é assim que eu funciono. Não só sobre me relacionar fisicamente, porque é muito comum as pessoas atribuírem a não monogamia só ao sexo".

Existem muitos rótulos e modos de chamar os relacionamentos não-monogâmicos, como poliamor, relacionamento aberto, trisal etc. A diferença entre eles é a quantidade e a forma que as pessoas se relacionam amorosa e fisicamente. Laura, por exemplo, por um período de sua vida já namorou três pessoas ao mesmo tempo, mas prefere não definir rótulos.

Eu já tive relacionamentos não monogâmicos simultâneos. De eu namorar 3 pessoas ao mesmo tempo. E todas elas saberem da existência umas das outras, mas não acho que você precisa ficar procurando um rótulo para as coisas

Para ela, não é normal exigir fidelidade de ninguém. "Eu acho muito injusto você ter autoridade sobre a vida afetiva e sexual de uma pessoa, que por mais que vocês estejam se relacionando também, aquilo não tem nada a ver com você. As relações dela são independentes da sua existência, não quer dizer que ela goste menos de você por isso", finaliza.

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