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#MinhaPrimeiraVez: "Tive vaginismo após abuso e só aos 26 consegui transar"

vaginismo - iStock
vaginismo Imagem: iStock

Depoimento de *Roberta a Luiza Souto

De Universa

27/03/2021 04h00

"Tenho 26 anos, moro em Salvador (BA) e só consegui ter minha primeira relação sexual neste ano, após quase uma década tentando me curar do vaginismo. Antes, sentia dor até para fazer um exame ginecológico usando um cotonete. Era como se você estivesse tentando entrar numa parede.

Comecei a perceber que tinha uma coisa errada aos 19 anos, quando tive a primeira tentativa de relação sexual com meu namorado d eum ano. Tinha muito medo de doer e, simplesmente, não consegui. Doeu de uma forma absurda, então corri para a ginecologista.

Quando ela fez o exame de toque, fui ao inferno e voltei. Ela disse que fisicamente não tinha nenhum problema no hímen, mas alertou que eu tinha que descobrir se tinha acontecido algo comigo, porque a dor era psicológica. E falou: 'alguma coisa aconteceu com você. Não sei o que foi, mas você sabe'.

Na hora lembrei do abuso que sofri aos cinco anos. Não imaginava que aquilo fosse trazer um impacto tão grande para minha vida, já que nunca contei para ninguém e cresci agindo como se nada tivesse acontecido

Saí do consultório e resolvi que nunca mais transaria. Apesar de ter endometriose e sentir cólicas muito fortes, fiquei sem fazer exames ginecológicos por anos e terminei o namoro porque sabia que não ia dar certo. Mas não contei o motivo, e ele nem suspeitou.

"Médica mandou tomar um vinho e relaxar"

Pesquisando sobre meus sintomas e traumas, cheguei à conclusão de que tinha vaginismo.

Uma vez, tive crise por causa da endometriose e fui à outra ginecologista. Contei sobre o vaginismo. Ela questionou: 'Quem te disse que você tem isso?'. E contei toda a minha história, inclusive do abuso. Depois de me examinar, ela veio com a frase: 'Minha filha, você está zerada como se fosse um carro novo. Isso é coisa da sua cabeça. Tome um vinho, relaxe que não vai acontecer nada'.

Aquilo me feriu de forma absurda. Uma mulher me comparou a um carro! E me mandou ficar bêbada para transar com alguém. Nunca mais voltei nela. Fiquei com nojo

Iniciei um outro namoro e com essa pessoa fiquei quatro anos, mas sem transar. Por causa disso, passei por vários abusos. Suportava porque achava que ninguém mais ficaria comigo. Ele me cobrava para transarmos e forçava a barra. E sabia do abuso que sofri, então pressionava para eu denunciar a pessoa. Chegou a dizer que se eu não denunciei foi porque gostei.

Nunca quis denunciar a pessoa que abusou de mim. É alguém próximo. Mas por causa da pressão desse namorado, procurei o abusador para contar tudo o que passei e deixar claro que eu me lembrava. Ele chorou e pediu perdão.

Tomei essa decisão de não denunciar porque não iria me fazer bem revisitar traumas, envolver advogado, Justiça. Mas claro que isso é necessário para algumas pessoas. Só que cada um tem seu processo de cura.

Voltando a esse namorado, ele ainda contava para os amigos que a gente não conseguia ter relação sexual e isso me feria e destruiu minha autoestima. Minha família e amigos ainda não sabem pelo que passei, porque não foram só quase dez anos tentando me curar do vaginismo — fui uma criança que passou por situação de abuso.

Foi uma caminhada solitária. Ainda inventava relações para as amigas. Como explicar que era virgem aos 20 e poucos anos?

Dilatadores ajudaram no processo de cura

Terminei o namoro em 2019, quando percebi que não podia mais fazer aquilo comigo mesma, estar ao lado de alguém que mentia muito para mim. E no começo do ano passado decidi tomar o controle do meu corpo e que faria qualquer coisa para me curar, tanto do vaginismo quanto da endometriose, que já estava afetando outros órgãos.

Fui a uma ginecologista que é também sexóloga e isso abriu o mundo para mim, porque ela verdadeiramente me escutou. Foi a primeira médica que olhou para mim como ser humano, não como uma vagina a ser tratada.

Ela constatou que havia traços de quem tinha vaginismo e que podia me guiar no caminho da cura. Ainda disse: 'Vamos passar por isso juntas'. Ela me mandou comprar dilatadores. Consegui usar sete em três meses, o que é bom. Fazia exercícios todo dia. Você começa com um pequeno, do tamanho do dedo mindinho, bem fino, e vai aumentando com tempo e tranquilidade.

"Escolhi transar com alguém que não tinha compromisso"

Ainda me sentia insegura para ter relação. Até que no início deste ano fiz uma viagem sozinha e decidi que ia acontecer. E que tinha que ser com uma pessoa que não tinha compromisso comigo, uma situação diferente, sem intimidade, para ele não me tratar de outra forma. Porque com outras pessoas que já sabiam do problema não deu certo. E não contei nada para ele sobre o vaginismo.

A gente apenas se conheceu, ficou junto e foi tudo bem. Estava nervosa, mas segura. Sabia como fazer. Não tinha mais por que dar errado depois de um ano com os dilatadores. Me senti mais fortalecida para passar por isso.

Antes de me encontrar com ele, pensei: 'estou no controle, estou segura e está tudo bem'. Era o que fazia quando deitava na cama com os dilatadores. E foi ótimo.

Não senti nenhuma dor, e ele não percebeu absolutamente nada. Nem tive a sensação de que sou menos mulher, porque isso também passava pela minha cabeça por não conseguir transar

Contei do vaginismo no dia seguinte e ouvi que eu parecia muito segura, que ele nunca teria imaginado que eu era virgem. Ainda usei meu primeiro absorvente interno. Com 26 anos. Antes não dava e ia à praia de short quando ficava menstruada.

"Agora uso vibrador para não perder dilatação e me sinto pronta"

Agora uso um vibrador uma vez por semana para não haver regressão, principalmente porque não estou num relacionamento. E faço terapia toda semana.

Anunciei numa página na internet que estava doando meus dilatadores e mandei para uma pessoa, com lubrificante, camisinha, dica de ginecologista e uma carta aconselhando ela a respeitar e ter o controle do seu tempo. E dizendo que ia ficar tudo bem.

Minha endometriose regrediu também. Porque quando você tem o controle do seu corpo, confia nele, isso também impacta na saúde.

Vejo muitas mulheres relatando o mesmo problema e falando que o parceiro ajuda. No meu caso, decidi me curar solteira e que não iria levar isso para outro relacionamento, porque essa já não era uma história que eu queria contar.

Enquanto você não acolhe a si mesma, não olha com amor e compreensão para as marcas que carrega, não dá para ter um relacionamento saudável, porque você aceita qualquer coisa que o outro te oferece, mesmo que seja pouco. Agora me sinto pronta."

* O nome foi trocado a pedido da entrevistada

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