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Endometriose: mitos e verdades sobre a doença de Tatá Werneck

Tatá Werneck em gravação do Lady Night -
Tatá Werneck em gravação do Lady Night

Claudia Dias

Colaboração para Universa

30/03/2019 04h00

A atriz Tatá Werneck, 35 anos, espera o primeiro filho do também ator Rafael Vitti, e não está sozinha na luta contra a endometriose. Estima-se que até 10% das brasileiras sofram com o problema.

Além disso, não é a primeira famosa a ter de driblar a patologia: Gio Ewbank já se submeteu à cirurgia. Fernanda Machado e Wanessa Camargo só conseguiram engravidar depois de vencer a doença.

A verdade, porém, é que muitas dúvidas pairam sobre o assunto. Mesmo quem sofre com as dores absurdas conhece a fundo a condição. Nem Tatá Werneck, aliás. À colunista Patrícia Kogut, do O Globo, ela contou que a gestação foi surpresa total. "Eu estava me preparando para fazer uma cirurgia de endometriose. Nem sabia que poderia engravidar!", disse no início do mês, quando foi confirmada a gestação.

Atualmente, a atriz se encontra em repouso, por ter tido um pequeno descolamento de placenta e sofrer com hiperêmese gravídica.

Por conta das muitas dúvidas existentes e ainda no pique do Março Amarelo, o Mês Mundial de Conscientização da Endometriose, conversamos com os ginecologistas e obstetras Alexandre Pupo Nogueira, do corpo clínico do Hospital Albert Einstein, e Geraldo Caldeira, que revelam as verdades e mitos que envolvem a doença.

A endometriose coloca em risco a gravidez?

Verdade. Afeta trompas e útero. "Nas trompas, pode causar aderências e alterações, que podem levar o embrião a grudar nela e não chegar ao útero, causando a chamada gestação ectópica ou tubárea", diz Alexandre Pupo Nogueira. Este tipo de gravidez "nas trompas" é incapaz de se desenvolver, com risco de romper o órgão e causar grandes sangramentos. Dependendo do caso, é necessário remover a trompa acometida. "No útero, pode causar alterações inflamatórias na parte interna, chamada de endométrio, o que pode dificultar o embrião de se instalar ali ou levar a um abortamento", acrescenta. Geraldo Caldeira observa ainda que há mais chances de parto prematuro, eclâmpsia e cesárea.

Todas as mulheres que sofrem com endometriose precisam operar?

Mito. Segundo Alexandre, mulheres com infertilidade; dor pélvica crônica, na relação sexual; cólicas menstruais importantes; e dor e sangramento para urinar ou evacuar no período da menstruação são candidatas a cirurgia. Já aquelas sem sintomas, em que a suspeita de endometriose ocorre por alteração em exame pedido em rotina médica, deve ser bem avaliada se há mesmo necessidade de operar. "O que utilizamos como base de referência para decidir se operamos ou não é o quadro clínico que se manifesta. Toda cirurgia tem risco e, por isso, os benefícios de operar devem ser maiores que os riscos da cirurgia", argumenta.

Endometriose não tem cura?

Depende. Como lembra Alexandre, a endometriose é curável com a remoção cirúrgica dos focos de doença. Entretanto, pode ocorrer novamente, já que as causas não são totalmente conhecidas pela medicina. "Consideramos que toda mulher que teve endometriose deve ter algum fator que a torna mais suscetível a ter novamente. Mulheres que tiveram endometriose totalmente ressecada têm risco entre 10% e 30% de novo episódio", explica. Segundo Geraldo, quando há nova incidência, costuma ocorrer em torno de dois anos depois. "A endometriose, então, é considerada uma doença crônica", classifica.

Endometriose causa infertilidade?

Verdade. É uma doença inflamatória que ocorre junto aos órgãos sexuais e reprodutivos da mulher. Assim, pode provocar lesões por ação direta sobre os ovários, trompas e útero ou causar lesões e alterações indiretas por ação do processo inflamatório que provoca, como aderências e obstruções das tubas, aderências dos ovários e alteração da camada endometrial, entre outras. "Até 45% das pacientes com endometriose poderão ter infertilidade como um dos sintomas da doença", ilustra Alexandre.

A doença aumenta risco de aborto?

Verdade. "Isso porque produz alterações anatômicas, anormalidades miometriais, alterações foliculares e embrionárias e desordem no endométrio pela produção local de estrogênio e resistência a progesterona", informa Geraldo.

Quem tem endometriose não pode engravidar?

Mito. Taí o exemplo de Tatá Werneck provando o contrário. Conforme o ginecologista Geraldo Caldeira, 50% das mulheres com endometriose podem engravidar espontaneamente. As demais acabam precisando de tratamento, como a cirurgia por laparoscopia para ressecção das lesões da endometriose. "Ainda assim, nos casos mais graves, além de realizarem a cirurgia, muitas mulheres são conduzidas para o tratamento de fertilização in vitro para que as chances de uma gestação seja maior", comenta.

Endometriose faz engordar?

Mito. Endometriose não altera o peso. O tratamento pode até provocar alguma alteração na balança, mas não a doença, em si. Além disso, as vítimas costumam sofrer também com ansiedade, descontando em comida.

Há outros tipos de endometriose, além da que afeta o sistema reprodutivo?

Verdade Pode acometer qualquer parte do corpo, apesar de focos fora da cavidade abdominal serem mais raros, como pontua Alexandre Pupo Nogueira. Mas pode acometer, com certa freqüência, a região da cicatriz de cesárea e da episiotomia - o corte realizado no parto vaginal para evitar o rompimento de reto e/ou uretra. "Mais raramente, pode ocorrer na cicatriz umbilical e invadir a parede do intestino ou se instalar no apêndice cecal. Casos raros já foram relatados de endometriose nos pulmões e até no cérebro", revela o médico.

Pode levar ao câncer?

Depende. Trata-se de um evento muito, muito raro. "Em alguns casos, pode ocorrer de transformação maligna da endometriose em câncer de ovário e de peritônio, a camada de tecido brilhante que recobre a cavidade abdominal por dentro. Mas, de fato, não é uma preocupação grande, visto que são casos bem raros", frisa Alexandre.

Endometriose sempre causa dor?

Mito. Apesar de a dor (sobretudo no período menstrual) ser o principal sintoma da endometriose, atingindo até 60% a 70% das pacientes, existem muitas mulheres com sinais da doença no exame físico ou de imagem que não têm nenhuma queixa. "A dor relacionada à endometriose depende de onde os focos se instalam na cavidade abdominal. Geralmente tem caráter cíclico, acompanhando o período menstrual. Mais comumente, se inicia um dia ou mais antes da menstruação e persiste por todo o período de sangramento", explica Alexandre.

Endometriose é um problema hereditário?

Verdade. A endometriose tem caráter familiar, sim. Geraldo esclarece que se trata de uma doença poligênica, ou seja, um tipo de herança hereditária. Mas ainda não é possível detectar quais os genes envolvidos na questão. "Em gêmeos, sabemos que pode acontecer até 50% de incidência. A endometriose também está relacionada a doenças autoimunes", observa o médico.

A endometriose é diagnosticada apenas depois dos 30 anos?

Mito. Pode surgir imediatamente após o início da vida menstrual. Tanto que muitas adolescentes sofrem anos com dores menstruais fortes e só quando mais velhas é que descobrem ser consequência da condição. "É uma doença com forte componente hormonal, sendo o estrogênio um fator importante na gênese e manutenção da endometriose", finaliza Alexandre.

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