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"Encorajo evangélicas como eu a sair de casamento violento" diz psicóloga

Luciana dos Santos levou três tiros do marido e fala sobre violência doméstica em igreja - Arquivo pessoal
Luciana dos Santos levou três tiros do marido e fala sobre violência doméstica em igreja Imagem: Arquivo pessoal

Luciana dos Santos, em depoimento a Camila Brandalise

De Universa

26/03/2021 04h00

"Meu marido tinha me dado o terceiro tiro, que pegou no meu braço esquerdo, quando olhei pela janela e vi uma viatura policial em frente à minha casa. Quando conto essa história para mulheres que assistem às minhas palestras em igrejas evangélicas, falo o que vi: os policiais com asas brancas gigantes, como anjos. Consegui correr para fora de casa e pedir ajuda aos policiais que, ao se defenderem do agressor ainda armado, o atingiram, e ele faleceu.

Sou psicóloga e sei que isso pode ser um truque da minha memória para diminuir meu trauma. Mas, no meio evangélico, ao falar da violência doméstica que sofri, é assim que consigo aproximar o público desse assunto tão importante.

Tenho 37 anos e, há três, sobrevivi a uma tentativa de feminicídio depois de 17 anos de casamento. Durante esse tempo sofri todas as violências descritas na Lei Maria da Penha.

A religião evangélica foi presente em toda a minha vida. Desde criança, sofria abusos psicológicos por parte do meu pai e da igreja. Chamo de abuso religioso. Lembro que, aos quatro anos, falei que queria usar uma tiara. A gente chamava o acessório de diadema. Mas a diadema é citada na Bíblia por ter sido usada por uma besta, no livro do Apocalipse. Depois disso, tive uma alergia e ouvi do meu pai: "Está vendo, Deus castiga, você falou que queria uma diadema".

Era uma relação de muito medo e ameaça. Me senti obrigada a casar porque o pastor disse que era isso que Deus queria. Depois que meu marido morreu, ainda ouvi do meu pai que eu tinha feito alguma coisa para ele tentar me matar e que tinha saudade do genro.


"Pastores dizem para vítimas que a culpa pela violência é delas"

Já dei palestras explicando o que é violência doméstica em escolas, centros comunitários, câmaras municipais. Comecei meu projeto de falar também em igrejas evangélicas no ano passado. Um dos convites era para um evento com mais de 3.000 mulheres, mas, com a pandemia, teve que ser adiado. Mas consegui dar uma palestra on-line no dia 17 de março, no meio de um culto. Fico feliz que as congregações estejam se abrindo para esse tema.

Essa palestra mais recente tinha como tema uma pergunta: "A mulher deve suportar agressão em nome da fé?". É lógico que não, mas não digo isso de cara. O objetivo é não fazer pré-julgamentos, mesmo porque não é uma resposta óbvia para todas as pessoas.

A Bíblia, se você quiser, pode ser usada para o mal. Pode sair matando pessoas. Tem passagem que diz que não se pode usar roupa feita com dois tipos de tecido. E vejo que muitos trechos são usados para sustentar o machismo. O mais falado é o que diz que a mulher sábia edifica a sua casa, mas a tola destrói com as próprias mãos. O impacto disso é muito forte.

Na semana passada, no meu consultório, atendi uma mulher que sofreu agressão do marido por 20 anos. Ela foi pedir ajuda para o pastor, e ele disse que a culpa era dela: 'Está escrito na Bíblia que a mulher sábia edifica a casa, você está destruindo a sua, é tola'. É muito comum que elas escutem esse tipo de resposta.

"Não casamos com agressor, mas com o amor da vida"

Nas palestras, explico o que é a violência doméstica e os diferentes tipos além da agressão física, respaldada pela Lei Maria da Penha. Digo que a violência psicológica é a mãe de todas as outras. Destrói a autoestima.

Percebo que capto a atenção das mulheres quando digo que nenhuma de nós se casa com agressores. Nos casamos com o amor da nossa vida. Nem todos os príncipes são agressores, mas todo agressor, no começo, é um príncipe. Mas a gente não sabia.

Outra coisa que nunca deixo de falar é sobre a Síndrome de Estocolmo, quando uma vítima se apaixona pelo agressor. No caso da violência doméstica, vejo que funciona assim: se a vida é o nosso bem mais precioso e, em segundo lugar, é o amor, a mulher passa por um processo de barganha. Ela percebe que está com alguém que ameaça seu primeiro bem, mesmo que inconscientemente, e, para não morrer, dá o segundo, o amor, para que o homem não tire sua vida.

"Após palestra, mulher entendeu que vivia abuso havia 50 anos"

Em um encontro com mulheres evangélicas, uma senhora veio falar comigo depois que expliquei o que era 'gaslighting'. Não usei essa palavra para não afastá-las, mas falei que era um tipo de violência quando o marido faz você se sentir louca. Fala uma coisa e depois diz que não falou, diz que tal coisa está em tal lugar quando não está e depois coloca lá para você encontrar e se sentir mal.

Ela me disse: 'Sabe o que você falou sobre deixar a gente louca? Meu marido faz isso comigo há 50 anos. Estou falando com você agora, mas não sei se você é real ou não'. Ou seja, mexeu tanto com a mente dela que ela não conseguia ter mais certeza de nada.

E uma outra, lembro bem que tinha o olho muito azul, me falou: 'Filha, tenho 70 anos, ninguém nunca falou sobre isso para mim. Se soubesse dessas coisas quando tinha 20, minha vida teria sido outra'.

"Não achei o controle do portão, e ele atirou. Sobrevivi por milagre"

Sofri violência psicológica e patrimonial. Quando a questão financeira começou a apertar na minha família, passei em concurso público e no vestibular para Psicologia. Meu marido dizia que passei por milagre de Deus, não pela minha capacidade. Na época eu acreditava. Imagina, eu vim do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, morava em sítio, como eu ia passar em vestibular?

Todo o dinheiro que eu ganhava, que era mais do que ele, era usado para pagar as contas da casa. Então caía na minha conta e todos os boletos eram debitados. Não sobrava nada, eu tinha que pedir dinheiro para ele e ouvia que eu não sabia administrar as contas.

Também era muito ciumento, não podia conversar com outros homens que ele brigava. Eu achava que era amor. Quando meus familiares me visitavam, ele criava uma situação, deixava um ambiente de tanto nervosismo que ninguém queria mais voltar.

Eu ia pedir a separação em janeiro de 2017. Quando estava saindo de casa no dia 24 de dezembro para passar o Natal com a minha mãe, não encontrava o controle do portão, e ele disse que estava no quarto. De repente, ele apareceu e disse algo como "essa é a única forma de resolver".

Deu o primeiro tiro, que pegou na minha mão direita. Eu gritava: "Pelo amor de Deus, eu sou a mãe dos seus filhos". O segundo pegou no pescoço, de raspão, e o último no braço esquerdo. Quebrou dois ossos, até hoje não consigo fazer movimentos circulares.

Sempre conto o que vivi nas minhas palestras. Nas igrejas, digo que sobrevivi por um milagre. Concluo reforçando que não devemos aceitar agressão nem humilhação, que Jesus não quer que a gente sofra e que Deus é amor."

Luciana Graciela dos Santos, 37, é psicóloga e mora em Hortolândia (SP)

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