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Minha história

"Toquei violino na rua e hoje sou reconhecida como artista internacional"

A violinista brasileira Anna Murakawa lutou pelo visto australiano de artista - reprodução Instagram
A violinista brasileira Anna Murakawa lutou pelo visto australiano de artista Imagem: reprodução Instagram

Anna Murakawa em depoimento para Claudia Dias

Colaboração para Universa

10/12/2020 04h00

"Sou Anna Murakawa, tenho 30 anos, nasci e cresci em Osasco, na Grande São Paulo. Por causa do violino, já morei na Bulgária, nos Estados Unidos e acabei de conquistar a residência permanente na Austrália, depois de um longo processo, em que precisei recorrer à corte australiana.

Em julho desse ano, meu pedido foi negado sob a alegação de que eu não tinha números nas redes sociais condizentes aos de uma artista. Isso me magoou muito como profissional, como mulher, como imigrante. Eu tinha duas opções: desistir de tudo e sair do país em 28 dias ou apelar à corte em 21 dias e pedir ajuda às pessoas para conseguir mais seguidores. Foi o que eu fiz.

No olho do furacão da pandemia, tive que enfrentar esse problema para não ter que largar uma vida para trás, tudo o que construí desde a adolescência, por uma mera questão de números. Mas esse não foi o primeiro desafio que eu teria que vencer e, por isso, não desisti.

Violino foi paixão à primeira vista

Quando eu tinha 13 anos, meu tio Genivaldo me falou sobre o Projeto Guri, programa de educação, voltado para a formação musical de crianças. Assim que as inscrições abriram, fui conhecer como era. Diante da bancada de instrumentos, uma moça me perguntou qual eu queria aprender. Apesar de não conhecer nada, olhei e me apaixonei pelo violino. Foi uma novidade, porque ninguém na minha família é músico.

Eu tenho dois irmãos: Caian, que tem 29 anos, e Jade, de 22. Minha mãe, Arleide, é de Pernambuco e o meu pai, Plínio, é japonês. Ele não é meu pai biológico. Até recentemente, pouco falei desse assunto. Hoje vejo que, inconscientemente, sempre tive o desejo de provar que eu era merecedora do amor e da confiança da minha família. Talvez por conta disso sempre gostei de estudar e ficava muito feliz a cada 10 que tirava.

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Anna começou a tocar violino aos 13 anos no Projeto Guri, programa de educação, voltado para a formação musical de crianças
Imagem: ARQUIVO PESSOAL

Minha família é bem humilde e nunca teve condições de me ajudar financeiramente. Então eu tinha que fazer acontecer e correr atrás, por mim mesma, apesar de todo apoio e incentivo que eles me davam.

Com 15 anos, participei do meu primeiro festival de música em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Foi ali que vi o mundo fora do Projeto Guri e soube de oportunidades para outras orquestras. Logo, fiz prova para entrar no Instituto Baccarelli e consegui meu primeiro emprego como bolsista e musicista da Orquestra Sinfônica Heliópolis. Depois fiz prova para a OCAM, a Orquestra de Câmara da USP e também fui aprovada. Por um período, minha rotina era Heliópolis de manhã, USP à tarde e escola à noite.

Enquanto estava na Orquestra de Heliópolis, em 2007, tive a chance de tocar para o Papa Bento XVI, durante sua visita ao Brasil, na Catedral da Sé. Foi uma experiência muito emocionante e marcante. Com o projeto Guri, ainda toquei com Mônica Salmaso, Toquinho, Ivete Sangalo, Zizi e Luiza Possi.

Numa turnê com a OCAM em Brasília, conheci a professora búlgara Evgenia-Maria Popova. Em festivais de música clássica, temos aulas pela manhã com professores, à tarde há os ensaios com orquestra e à noite geralmente ocorrem os concertos.

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De família humilde, Anna conseguiu estudar violino com ajuda de bolsas de estudos
Imagem: ARQUIVO PESSOAL

Ela me passou como desafio uma música superdifícil para eu tocar no dia seguinte. Fiz o meu melhor, a professora ficou impressionada com o meu progresso e me convidou para estudar na Bulgária. O problema: eles não ofereciam bolsas de estudos.

De Osasco para mundo, graças ao violino

Voltei para São Paulo decidida a levantar o dinheiro mas, naquela época, nem violino eu tinha. Listei todos os custos que teria e estava disposta a pedir patrocínio de porta em porta. Também pedi ajuda ao Projeto Guri. A diretoria se sensibilizou e decidiu criar um projeto de bolsa de estudos e eu fui a primeira bolsista. Depois disso, muitos outros alunos foram contemplados e puderam estudar a música mais seriamente.

Foi assim que fui parar na Bulgária, na capital Sofia, com 17 anos, para fazer meu bacharelado de performance em violino. Não falava inglês, muito menos búlgaro. Simplesmente fui com a cara e a coragem. Não tinha noção do frio, de nada. Nesse ponto, minha ignorância foi um ponto positivo, porque se eu soubesse como seria, talvez isso tivesse me paralisado.

Minha vida na Bulgária foi bem difícil - é quase um eufemismo dizer isso. Fiquei lá por três anos. Apesar de muito abalada psicologicamente, eu estudava uma média de 8 a 12 horas por dia, porque estava muito comprometida. Nunca pensei em desistir porque, mesmo estudando chorando, eu sabia que estava sendo exemplo para outras pessoas e não podia abandonar tudo. Essa era minha motivação.

Durante as férias, visitei o Brasil e fui para mais um festival de música, onde toquei para um professor dos Estados Unidos, que me convidou para estudar com ele. Eu não tinha terminado a faculdade, então voltei para a Bulgária, conversei com a reitoria e consegui negociar para fazer o terceiro e o quarto anos ao mesmo tempo.

Também conversei com o pessoal do Projeto Guri, que concordou que, se eu economizasse, poderia usar a bolsa do último ano para ir aos Estados Unidos. Em 2011 me mudei para Pittsburgh, na Pensilvânia, para fazer um curso chamado "Certificado em estudos avançados de música". Meu inglês era básico e logo comecei a importunar as pessoas, pedindo para me ajudarem. Assim aprendi minha quinta língua.

Vivi uma experiência muito louca nos Estados Unidos, quando já estava fazendo meu mestrado em Louisville, em Kentucky, lá por 2013. Fiquei sabendo de uma competição de concertos que aconteceria em três meses. Geralmente as pessoas se preparavam por, pelo menos, um ano para esse evento.

O ganhador seria solista com a orquestra e ganharia alguns prêmios. Eu foquei muito na preparação, me visualizava ganhando, apesar de ser quase impossível, pois competiria com concorrentes e instrumentos diferentes, de toda a universidade.

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Nos Estados Unidos, Anna ganhou um concurso e foi solista de um concerto junto à orquestra de Lousiville
Imagem: arquivo pessoal

Mas eu ganhei a competição e isso foi um grande marco para minha vida nos Estados Unidos. Esse evento me impulsionou a comprar o violino francês de 1878, que tenho até hoje e amo de paixão. Eu não podia me apresentar com o meu antigo, que era muito aquém do que eu precisava para ser solista.

A compra desse violino foi outra conquista e tanto, pois ele custava US$ 20 mil e eu não tinha nem US$ 200 guardados. Acabei conseguindo comprá-lo por US$ 15 mil, graças a uma campanha de crowdfunding, mais o que eu ganhava tocando nas ruas, em porta de supermercado e praças, todo o tempo livre que tinha. Também contei com doações de muita gente que me ajudou.

Recomeço na Austrália

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Mesmo com uma carreira já consolidada, Anna chegou em Sydney sem conhecer ninguém. Por isso, voltou a tocar nas ruas novamente
Imagem: arquivo pessoal

Meus estudos nos Estados Unidos foram muito bons, até que me mudei para o Texas para começar meu doutorado. O professor era incrível, a faculdade também, mas alguns valores da universidade não condiziam com os meus. Estava orgulhosa que ia completar um PhD aos 26 anos, tinha bolsa de estudos e já tinha emprego - eu tocava na orquestra da cidade. Parecia que estava tudo certo, mas eu não estava feliz.

Simplesmente empacotei a casa toda depois de seis meses e fui de férias para o Brasil. Sentia que eu deveria me orgulhar de onde estudava e não era isso que estava vivendo. Por isso, em vez de comprar uma passagem de volta para os Estados Unidos, comprei outra para a Bulgária.

Eu precisava me concentrar e me preparar para as provas de um doutorado. Enquanto isso, levantava dinheiro também dando aulas de búlgaro para estrangeiros. Como alguns eram da Itália, estudei italiano para me comunicar com eles e, desta forma, aprendi minha sétima língua. Hoje já não dou aulas de idiomas, apenas de violino, o que eu faço desde quando morava nos Estados Unidos.

Ainda na Bulgária, pesquisando universidades para fazer doutorado, vi na Austrália uma boa alternativa. Ao escolher uma faculdade de violino, geralmente levamos em conta o professor que será o mentor e vai passar todo o conhecimento dele para o aluno.

Já conhecia um professor bastante famoso da Noruega, chamado Ole Bohn, que dava aula na universidade de Sydney. Como eu queria um lugar em que eu sentisse orgulho da universidade, tivesse um professor maravilhoso e que não fosse frio, peguei US$ 3 mil emprestados e comprei uma passagem para Austrália, sem garantia nenhuma que ia dar certo.

Quando cheguei em Sydney, não conhecia ninguém, então eu tive que me despir de todo o ego, de toda vaidade e tocar nas ruas novamente, começando do zero. Foi assim que eu comecei a ter as minhas oportunidades de trabalho na Austrália.

Fiz a prova e hoje posso dizer que fui a primeira mulher brasileira a estudar no Conservatório de Sydney. O curso de doutorado leva de 3 a 5 anos, mas tive autorização especial para conseguir terminar o doutorado em dois anos e meio.

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Anna Murakawa no dia da sua formatura do doutorado no Conservatório de Sidney
Imagem: ARQUIVO PESSOAL

O desafio mais recente: a luta pelo visto australiano

Terminei meu doutorado em dezembro de 2019. Mas desde o ano anterior eu já pesquisava quais seriam minhas opções de visto quando eu não pudesse mais contar com o de estudante. Cheguei a uma advogada especialista no visto de Talento Distinto. Meu perfil era adequado e eu tinha todas as qualificações para consegui-lo.

Há três requisitos gerais para esse visto: ser internacionalmente reconhecida pelo trabalho, ou seja, já ter trabalhado em vários lugares do mundo; ainda ser proeminente, que quer dizer estar ativo na profissão; e trazer valor para a Austrália.

Já toquei no Brasil, na Europa, nos Estados Unidos e na Austrália, com diversos artistas. Eu sabia que a imigração precisava de provas tangíveis da minha carreira e que deveria ter pessoas que acompanhavam o meu trabalho, mas estava confiante com o que tinha conquistado até então.

Em outubro do ano passado, me apliquei para o visto de residência. Em julho deste ano, contra todas as expectativas, recebi a negativa, que foi um choque muito grande não só para mim. A recusa alegava que minha carreira era ótima, mas não era mensurável com o esperado de um artista internacional.

Antes mesmo de eu aplicar para o visto, a advogada já havia alertado que a imigração estava mais rigorosa, prestando atenção em como mensurar a popularidade. Quando o processo começou, eu tinha perto de 28 mil seguidores no Instagram e uma conta com 2 mil pessoas no YouTube.

Campanha para mobilizar as redes sociais

Eu estava tão focada nos meus estudos que achava que isso já era gigante. Até dez meses antes, aliás, eu tinha cerca de 5 mil seguidores no Instagram. Tudo começou a mudar em fevereiro. Eu tinha acabado de tocar com o Eminem, em Sydney, para 80 mil pessoas, e resolvi contar minha história na comunidade de brasileiros que moram aqui.

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Anna, ao fundo, em uma participação em um show do cantor Eminem, na Austrália
Imagem: arquivo pessoal

Convidei para seguirem meu trabalho e eles abraçaram a causa. Por isso, quando me apliquei para o visto em outubro, achei que o número de seguidores era suficiente, além do meu portfólio de 60 páginas que entreguei, documentando apresentações, concursos e tudo o que conquistei.

Quando recebi o email de recusa, foi um balde de água fria. Eu só estudei minha vida toda, dei meu melhor e estava perdendo a chance por causa de números nas redes sociais.

Por conta do coronavírus, meu dia a dia já tinha mudado muito. Os concertos, shows e eventos que eu fazia e eram minha principal fonte de renda estavam cancelados. Tive que refazer minha rotina, passei a focar nas aulas que dava e prestar mais atenção na presença digital.

Minha primeira atitude foi começar a fazer lives, divulgando meu trabalho e contando minha história. Isso começou a ter repercussão. Eu precisava alcançar, pelo menos, 500 mil seguidores, número que um agente estipulou para eu fazer parceria com um artista australiano.

Nesse meio-tempo, segui buscando outras parcerias. Tive a honra imensa de tocar com a família Lima, de ser citada e contar com ajuda de grandes artistas - Luciano Huck e Fabiana Karla, por exemplo.

Fiquei tão agradecida pelo suporte que estava recebendo que lancei uma música em 48 horas. Do escrever a ensaiar, gravar, editar, lançar, foi tudo muito rápido. Chama-se Obrigada e foi feita para realmente agradecer o apoio e o carinho de muita gente que estava acompanhando minha luta pelo visto.

A violinista brasileira Anna Murakawa - SOPHIAN FEREY - SOPHIAN FEREY
Intenção de Anna é ter base na Austrália mas fazer turnês mundo afora
Imagem: SOPHIAN FEREY

Minha audiência com o juiz foi marcada para o dia 19 de novembro. Pouco antes, no dia 15, lancei meu primeiro álbum, com canções natalinas. Decidi fazer isso depois de receber muitas mensagens de pessoas falando que nunca tinham ouvido um violino antes de me conhecerem - o álbum se chama Let it shine (Deixe brilhar) e está disponível em todas as plataformas, inclusive no Spotify.

A audiência com o juiz foi virtual, por causa do coronavírus, e foi bem estressante, pois eu mesma precisava me defender - a advogada só podia fazer as considerações finais. Tive que me preparar muito, explicar todo meu caso e ligá-lo à legislação australiana, o que me deixou muito ansiosa.

Em alguns momentos achei que estava tudo liquidado; em outros, que havia chance. O que me deu esperanças é que, no fim da audiência, o juiz falou sobre uma bolsa de estudos que eu deveria pesquisar, mas que é destinada apenas a australianos ou pessoas que têm o visto de residência. Fiquei bem otimista.

A promessa era que a resposta viria em poucos dias, mas só chegou duas semanas depois, com a autorização para eu continuar na Austrália. Ainda estou em choque mas, com certeza, muito feliz de poder ser reconhecida pelo meu trabalho, acima de tudo.

Esse visto agora me dá muito mais liberdade de eu poder trabalhar em qualquer lugar que eu quiser. Na Austrália eu tenho condições de expandir minha carreira internacionalmente, podendo fazer parcerias com outros artistas e encontrar caminhos que provavelmente não estariam disponíveis no Brasil.

Minha intenção é ter a base na Austrália, mas fazer turnês pelo mundo e estar no Brasil com maior frequência. Também quero poder fazer ponte-aérea com Los Angeles e trabalhar mais com o mercado dos Estados Unidos.

Se Deus quiser, pretendo mostrar o violino para o mundo de uma maneira diferente e com jeitinho brasileiro. Quero que as pessoas me ouçam tocar e lembrem que sou uma violinista do Brasil. Sei que parece clichê, mas também é um sonho poder ganhar um Grammy para o Brasil.

Ainda quero crescer a ponto de poder ajudar muitas pessoas, retribuindo com projetos tudo o que eu consegui. Sonho abrir escolas, porque eu sei o poder da música, sei como a música e a educação transformam. E espero que essa história sirva para inspirar as pessoas a não desistirem de acreditar nos sonhos delas.

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