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Flora Gil: "Família Gil só produz um Carnaval depois da vacina para covid"

Flora Gil e Gilberto Gil em ensaio para campanha da Hering - Hick Duarte/Divulgação
Flora Gil e Gilberto Gil em ensaio para campanha da Hering Imagem: Hick Duarte/Divulgação

Lígia Mesquita

Colaboração para Universa

04/12/2020 04h00

Festeira assumida e uma das melhores anfitriãs do circuito Rio-Salvador, Flora Gil começou a pensar na celebração de seus 60 anos ainda em 2019. Estava animada para iniciar uma nova década de vida junto com a nova década de 2020.

Mas, no último dia 2 de junho, a empresária, casada há 40 anos com Gilberto Gil, recebeu seus convidados de uma maneira diferente: em uma sala virtual do Zoom, vendo a cara de toda a família espalhada em telinhas. E adorou a comemoração.

Com Flora não tem negociação: o distanciamento social é para ser cumprido enquanto o coronavírus estiver ameaçando a vida de todos. Se o Carnaval de Salvador, onde a paulistana organiza há 22 anos o camarote Expresso 2222, não tivesse sido suspenso pelo governo da cidade, ela não participaria da festa mesmo assim. "Posso afirmar que, pra família Gil produzir um Carnaval, será só após a vacina contra a covid", diz a Universa a dona da GeGe Produções Artísticas, que administra a carreira de Gil, hoje com 78 anos.

Ela também cancelou a grande celebração de Natal da família Gil, quando todos os integrantes se reúnem: os músicos Bem e José e a chef e apresentadora Bela, filhos do casal, as enteadas, Maria, Marília, Nara e Preta, os companheiros de todos, dez netos, uma bisneta e vários amigos.

flora - Hick Duarte/Divulgação - Hick Duarte/Divulgação
Família Gil, com Flora e o cantor ao centro, em campanha para a marca Hering
Imagem: Hick Duarte/Divulgação

Desta vez, ela e Gil passarão a data apenas com o núcleo familiar carioca. "Não vamos receber ninguém! E ficamos no Rio porque minhas netas gêmeas, Pina e Roma, filhas do José e da Mariá, estão para nascer e quero correr para vê-las assim que eles me ligarem."

Além de aglomerações na pandemia, tem outra coisa que Flora, matriarca de uma família miscigenada, não admite: racismo. "É imperdoável, me tira do sério. Não dá para conceber alguém que difere o outro pela cor da pele", afirma. "Meu marido é preto, meus filhos são pretos, nossa família é uma mistura: tem preto, branco, loira de olho azul. E agora vejo a força do combate ao racismo pelo mundo. Tenho vontade de ser preta para poder participar mais [dessa luta], para isso acabar."

Nascida e criada numa família de classe média paulistana de origem italiana, ela conta que só foi conviver com negros e aprender sobre a cultura negra após se casar com Gil. "A gente tem que conseguir fazer com que as pessoas entendam o quanto é miserável ser racista. É como ser nazista."

Ficar tanto tempo longe dessa família multicolorida, segundo Flora, tem sido bem difícil, mas é o sacrifício que todas as pessoas precisam fazer na pandemia. Ela e Gil passaram a maior parte da quarentena na casa que têm em Araras, na região serrana do Rio, com filhos e netos indo e vindo —sempre após fazerem testes para covid. Seis meses depois, o clã se reuniu novamente para fotografar a nova campanha de moda da Hering —foi a primeira vez que todos fizeram uma publicidade enquanto família. "Foi tão bom ficarmos todos juntos, passamos dois dias grudados", conta.

Em 2021, outros trabalhos com a trupe estão nos planos da empresária. "Cada vez mais recebemos pedidos para que o Gil faça shows com filhos e netos e queremos pensar em algo", diz. O baiano, que tem quatro filhos músicos, Nara, Preta, Bem e José, além dos netos Francisco e João, acaba de lançar um EP cantando ao lado da neta Flor, 12.

Flora garante que esse projeto não tem dedo seu. Foi a pequena aspirante a cantora que se acertou com o avô e decidiu gravar algumas canções após um vídeo, em que os dois cantam em italiano, ter viralizado no Brasil e na Europa. "Nossa família é talentosa, de gente boa!"

Leia a seguir a entrevista da empresária a Universa:


Universa: O que é andar com fé em 2020?
Flora Gil: Minha fé continua inabalável e anda junto com o cuidado. Eu ajudo minha fé, e minha fé me ajuda. A gente tem que ter muita responsabilidade neste momento, é uma pandemia grave, que leva à morte branco, preto, rico, pobre, qualquer pessoa. Continuo pedindo ao meu anjo da guarda para ter um bom dia quando acordo, pedindo proteção aos orixás, a Deus, a Nossa Senhora Aparecida, mas tenho que tomar cuidado. Outro dia fui comprar pão em Copacabana, no Rio, e uma mulher estava sem máscara. Perguntei se ela poderia colocar a máscara, e ela respondeu: "Não vou, minha máscara é Deus, Jesus". Essa fé em que uma pessoa acha que está blindada a tudo me preocupa. Quando vejo aquela quizumba no Leblon, aglomeração nos bares, as festas clandestinas em São Paulo, fico angustiada. Como é que pode?

A gente tomando tanto cuidado, tendo todas as informações, e pessoas que não se preocupam com o que está acontecendo. Parece que vivemos em outro planeta. Isso abala a fé de qualquer um. Fico com medo das pessoas que não são responsáveis, das autoridades que negam tudo, desse pensamento torto. Meu maior medo é ter uma morte que não seja tranquila, sofrendo num hospital. Uma vez vi o [ex-presidente americano Barack] Obama falando que as nossas únicas certezas são pagar imposto e a morte. O imposto a gente paga, é uma ciência exata. A morte é um mistério.


Há 22 anos, você gerencia o camarote Expresso 2222 no Carnaval de Salvador. Como recebeu a notícia da suspensão do evento em 2021?
Foi um sonho, maravilhoso! O prefeito ACM Neto [DEM] foi muito lúcido. E, se essa decisão de suspender não tivesse sido tomada, eu não faria do mesmo jeito. Aquilo anda junto com tudo que estou te falando, sobre cuidado e responsabilidade. Todo mundo deve conhecer o Carnaval de Salvador pela TV. Como é que vai ter distanciamento? Carnaval é abraço, beijo, dança, suar junto. Sei que tem um impacto financeiro, cultural, mas é uma questão de saúde. Posso afirmar que pra eu, pra família Gil produzir um Carnaval, só depois da vacina contra a covid. Vou me dar o direito de passar um Carnaval inteiro em casa, sem trabalhar.


Como vê os recentes episódios de racismo no Brasil, como o da morte de João Alberto Freitas?
Eu não conheci o racismo lá atrás. Venho de uma família italiana, paulistana do bairro de Moema, e não convivia com pretos. Não tinha preto na escola, era um mundo completamente diferente da minha casa hoje. Quando comecei a namorar o Gil, passei a entender e a aprender sobre a cultura negra. Lembro de quando ele me falou que negro só entrava no Tênis Clube lá de Salvador se fosse pela cozinha ou para ter alguma aula. Os racistas estão aí, vemos isso a toda hora. Meu marido é preto, meus filhos são pretos, nossa família é uma mistura: tem preto, branco, loira de olho azul. E agora vejo a força do combate ao racismo pelo mundo. Tenho vontade de ser preta para poder participar mais [dessa luta], para isso acabar. O supermercado mata um negro aqui, a polícia mata negro nos EUA, só que agora a gente tem a força, não se cala, vai para as ruas.

Fico apavorada vendo os ataques racistas, gordofóbicos, homofóbicos que a Preta [Gil, sua enteada] sofre nas redes sociais. Outro dia alguém comentou numa foto dela: "Bora pra academia, né sua gorda". O racismo e a gordofobia andam juntos e, se a pessoa for preta e gorda, aí ela sofre mais ainda. O racismo é imperdoável, me tira do sério, não dá para conceber alguém que difere o outro pela cor da pele. A gente tem que conseguir fazer com que as pessoas entendam o quanto é miserável ser racista. É como ser nazista.

flora - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Casamento Flora e Gil
Imagem: Arquivo pessoal

E já presenciou alguém da sua família sendo vítima de racismo?
Há uns 20 anos, estávamos em Londres para um show do Gil. E, na hora que teve a passagem de som, uma pessoa do meu lado falou "Manda esse macaco acabar logo de passar esse som". Eu fiquei paralisada, não ia brigar com um inglês. Saí correndo, aos prantos, para falar com o Gil. E ele me disse: "Eles são assim, os racistas, é assim que nos veem, como macacos". Agora não é mais assim, não ficamos quietos. Se eu ouvisse alguém falar isso hoje, iria conversar, chamaria a polícia. Não me lembro do Bem, da Bela e do José terem passado por alguma situação de racismo na infância, mas talvez eles nem entendessem o que era. Hoje, ninguém deixa quieto, todos reagimos. Preta e Bela têm sido vozes ativas nesse combate.

Você é uma empresária respeitada, cuida há anos da carreira do Gil. Sofre muito machismo? E como é a questão da sororidade na sua família?
Não me lembro de ter passado por isso. A minha área é cultural e cultura é mulher, negro, gay, é tudo. Só me faltava isso [ter machismo]! No meu escritório só tem mulher praticamente. E eu sempre digo: a formiga sabe em que roça come. E sei que carrego o sobrenome "mulher do Gil", nunca fui tratada diferente.

Em 2007, você deu uma entrevista para a revista TPM em que disse que política era para homem. Ainda pensa assim? E, se uma frente democrática quisesse lançar o Gil como candidato a presidente em 2022, você apoiaria?
Mulher coloca tudo às claras, homem entuba muita coisa. Continuo achando isso, que eles gostam mais desse espaço, mas torço para que muito mais mulheres cheguem lá, é importante. Eu não tenho aptidão para a política. Não tenho certeza de muitas coisas, só a de que não vou ter cargo político nunca! A gente teve uma mulher presidenta, a Dilma. Os Estados Unidos acabam de eleger uma vice-presidente negra [Kamala Harris].

Sobre o Gil ser candidato, acho que ele jamais vai querer! Mas, se ele chegar para a família e falar que teve um convite, que quer, todos vamos apoiar, claro. Mas ele não toma nenhuma decisão sem pensar muito. Quando recebeu o convite para ser ministro da Cultura, ele pensou muito antes de aceitar [o cantor exerceu o cargo entre 2003 e 2008].


Você completou 60 anos. Como enxerga essa nova fase?
Desde o ano passado estava planejando a minha festa, sou festeira. Era uma data redonda, e no fim celebrei por Zoom com a família, vendo todo mundo em telinhas. Aquilo serviu para eu olhar para esses 60 anos de outra maneira. Talvez sem a pandemia, hoje eu estaria fazendo um monte de coisa, querendo aproveitar tudo e não estaria olhando para um outro lado que agora eu me preocupo ainda mais, que é a importância de estar com a família, com amigos. Acho que antes eu falaria "Agora quero isso, quero aquilo, vou trabalhar nisso". E não tem nada disso [de dizerem] que uma mulher de 60 não pode mais fazer um monte de coisas. Eu tenho saber, sou lúcida, sou mãe, sou avó, construí uma família bonita, mereço o que conquistei. Sou uma mulher forte, firme, corajosa, tenho fé, grandes amigos e sou feliz.

É uma pergunta clichê, mas imagino que você ouça muito: como manter um casamento por 40 anos?
É uma pergunta simplista mesmo. Casamento é como tempo: venta, faz sol, chuva, tem flores. E vamos nos adequando a esse tempo. Não somos um casal que briga ou que fica toda hora voltando a um problema. Nos conhecemos muito. Gil é muito calmo, eu sou, evidentemente, mais ativa. Agora tô aqui fazendo essa entrevista e ele tá lá numa live sobre sustentabilidade. Quando unimos tudo isso, a família, o resultado é muito positivo.

flora - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Flora e Gil
Imagem: Arquivo pessoal

Você é a matriarca dos Gil e tem quatro enteadas que considera filhas. Em relação ao amor, há alguma diferença entre elas e seus filhos biológicos? E como é a Flora avó?
Nossa família é muito unida, somos todos farinha do mesmo saco. Difícil responder sobre amor. Só tive a conexão de dar à luz, do amor que nasce naqueles primeiros minutos de vida de cada um e que eu guardo para sempre, com meus três filhos. A Nara, a Marília, a Preta e a Maria tiveram isso com as mães delas. Mas no dia a dia a relação é igual, o amor. Acho que eu tenho um cuidado mais exacerbado com elas do que com o Bem, a Bela e o José. No ano passado, a mãe da Nara e da Marília [Belina] morreu e foi muito duro, difícil, e me fez ficar mais próxima delas. E a Maria e a Preta têm a mãe delas [Sandra Gadelha] presente.

E ser avó é uma bênção! Neto faz de mim o que quiser, sou outra pessoa. No dia a dia, sou mais dura, gosto de organização, mas com eles fico bobinha. Quando estão comigo é pra gente dar risada: podem acordar tarde, comer na hora errada, não fazer a lição de casa. Ser avó é uma delícia, o neto é um filho com açúcar. Ou melhor, um filho com mais doce, senão a Bela briga [risos]. É filho com açúcar mascavo.

Por falar na Bela, tem alguma recomendação dela sobre alimentação que você desobedece?
De vez em quando dou uma escapadinha! O que ela mais pede é pra gente evitar comidas industrializadas, não pegar na prateleira do supermercado aquilo que podemos fazer em casa. E, ao contrário do que muita gente pensa, a Bela não fica dando palpite no que todo mundo come, nem reclamando. Ela é vegana, mas, se tem carne na mesa, ela não fala nada, não tem radicalismo.

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